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11/06/2011 - Da Redação
Reinaldo Pantaleão é uma das pessoas mais conhecidas do mundo político e cultural de Goiás. Mora no Bairro Itatiaia, mas é freqüentador assíduo do Centro, onde conhece e é conhecido por todo mundo. Sua imponente figura lembra profetas bíblicos: sua voz tornitruante, sua gesticulação trepidante, sua longa, branca e hisurta barba... A sua barba que, quando muito crescida o faz parecer Karl Marx, a cujo pensamento filosófico ele é assumidamente filiado.
Professor de História, Pantaleão ainda hoje ganha a vida dando aulas. Passou por muitos cursinhos preparatórios de vestibular, e nessas quebradas da vida teve como alunos rapazes muito conhecidos da vida pública goiana: Marconi Perillo, Demósthenes Torres... por aí!
Desde muito jovem este torcedor quase fanático do Goiânia Esporte Clube - um recôndito traço de elitismo, talvez? - vem militando nas grandes causas cívico-patrióticas deste país. Militante apaixonado contra a ditadura militar, foi várias vezes candidato a cargos eletivos apenas para ajudar o antigo Manda-Brasa. Foi, junto com o saudoso João Divino Dorneles, um dos fundadores do Comitê Goiano Pela Anistia, cuja gloriosa existência aguarda um historiador competente que a exalte.
Do velho MDB - onde militou ao lado do já falado João Divino, de Fernando Cunha e de Henrique Santillo -, ele saiu para ajudar a fundar o PT goiano. Cerrou fileiras com Pinheiro Salles na Ala Marxista do PT, mas deixou a legenda depois que Lula publicou a "Carta aos Basileiros", o manifesto social-democrata do partido que nasceu fazendo profissão de fé no socialismo. Depois de breve passagem pelo PCB redivivo, acabou sentando fileira definitivamente no PSOL, onde, ao lado de Martiniano Cavalcante, Luiz Fortini e Elias Vaz, ajuda a dirigir a legenda.
As mudanças partidárias não deixaram mágoas. Nada pessoal. Ele segue seus princípios e convicções. Nunca abriu mão delas. Mas nunca fez de divergências ideológicas um pretexto para discriminar pessoas. Ele é capaz de conversar animadamente com políticos de que qualquer tendência. Só não é muito condescendente com gente estúpida.
Este verdadeiro fidalgo, romântico e generoso, de visão larga e espírito aberto, dá à palavra radicalismo uma respeitablidade que foi há muito perdida por obra dos sectários e dos revolucionários estreitos. Pantaleão é, sim, um radical de esquerda. Mas, nele, isto não é pejorativo. É afirmação de uma vida marcada pela coerência e pela decência.
Pantaleão tem ainda um mérito que nenhum político goiano possui, a exceção de Eurico Barbosa e de Irapuan Costa Junior: são os únicos que conhecem e discutem literatura. Pantaleão é apaixonado, sobretudo, pela literatura goiana e pelos poetas goianos. Já cometeu alguns poemas. Ele os traz engavetados, a despeito do apelo de muitos para que os publique.
Pantaleão visitou a Redação do Jornal da Imprensa na manhã da última quarta-feira, atendendo a convite nosso. Foi entrevistado por este repórter e pelo também repórter Carlos Brandão. Procuramos, tanto quanto possível, manter no texto a fala exata do entrevistado. Em vista da qualidade do material, decidimos publicar a entrevista em duas partes. A segunda sai na próxima edição. Não percam (Helvécio Cardoso).
Pantaleão, como é que estão as coisas? Tudo bem com você?
Tudo bem, equilibrando.
Pantaleão, quem é você?
Sou filho da mãe de Goiânia, portanto, de Campininha. Nossa querida Campininha das flores. Pra ser mais preciso, nasci no fia 19 de dezembro de 1950 na rua Bernardo Sayão. Tive uma bastante infância tranquila, gostosa, como sempre foi aquele período. Sou filho de militar e de uma mãe fantástica, praticamente semianalfabeta mas muito consciente sobre seu dever político. Participei no curso primário do Instituto São Francisco de Assis. Participei da escola técnica de comércio de Campinas como aluno. Colégio Estadual Professor Pedro Gomes. E desde novo, eu sempre gostei muito de participar politicamente, até porque meu pai sendo militar ele foi um dos que deu todo apoio ao governo Mauro Borges. Então foi praticamente aposentado compulsoriamente por ter participado do governo de Mauro Borges.
Vou fazer uma pergunta um pouco constrangedora. Sendo você campineiro, como você explica ser um torcedor quase fanático do Goiânia esporte clube?
Goiânia é uma espécie de patrimônio da humanidade, com toda a maldade e exagero. Mas antes, aqui em Goiás, nós tínhamos praticamente o primeiro time da cidade, o Atlético goianiense, que foi fundado em 1937. Em 1938, o Goiânia. Então se tinha ali nos bairros de Campinas aqueles velhos atleticanos e aqueles velhos goianienses. E lá na minha casa tinha uma torcida muito curiosa. O meu irmão mais velho, Goiânia; a minha irmã, Atlético e meu outro irmão, Atlético. E nós tínhamos um casal de galos e o galo carijó sempre batia no galo preto. Então eu perguntei: "Ó Tião, como é que chama o galo?". "Ah, o galo é o galo" Então eu comecei a torcer pelo carijó. O Goiânia foi 14 vezes campeão do Estado de Goiás. Era tido como time chapa branca porque os jogadores eram muito ajudados pelo Pedro Ludovico, pelo Venerando de Freitas, goianienses históricos. Então às vezes as pessoas perguntam: "Como é que você é de Campinas e torce pro Goiânia?" A história do Atlético e do Goiânia são muito ligadas, o que às vezes nem é registrado. Então, o Goiânia é um patrimônio, e cultura a gente não pode esquecer. Então isso explica essa minha paixão e tristeza, porque o Goiânia está em uma situação bastante complicada em razão das péssimas administrações que tivemos nos últimos 15 ou 20 anos. Mas o Goiânia já deu muita glória à Goiás e também a nós, goianienses.
Pantaleão, está faltando dinheiro público no time do Goiânia?
Olha, essa é uma pergunta muito interessante. Eu ainda sou daquela época que o futebol deveria ser na verdade um pouco da cultura. Eu digo sempre sem nenhum constrangimento que o futebol é uma arte. Mas agora infelizmente hoje nós estamos vivendo uma época de corrupção dentro do futebol. O presidente da Fifa foi reeleito, o presidente da CBF, são denúncias e mais denúncias. Eu acho que falta um incentivo. Falta um título ao Goiânia voltar a ser o Goiânia. É claro que eu não quero entrar no mérito para não gerar uma mal estar para as outras torcidas, mas em determinado momento, muitos times do estado como Atlético, Goiás e Vila, eles receberam ajuda. Mas eu acho que a culpa não é da falta da verba pública não. A culpa é da administração de um time de base. O sub 20 do Goiânia chegou às quartas agora com o Vila Nova, Goiás e Atlético. A sub 16 está agora praticamente em primeiro lugar. Mas quando a base não é respeitada, não se tem um time de futebol. Eu não tenho aquela visão, digamos, estreita, de que não se deva dar dinheiro para lazer e cultura, mas acho que dinheiro público, quando investido em uma atividade que a população participa é público. Dinheiro público é público.
A sua pergunta foi muito interessante, porque não é falta de verba pública, é falta da antiga e atual direção do Goiânia entender que o futebol é parte da cultura do povo. Mas independente de verba pública ou não, falta o Goiânia voltar a ser o velho Goiânia esporte clube.
Pantaleão é dirigente do PSOL, Partido do Socialismo e da Liberdade. Foi um dos fundadores do PMDB em Goiás, do PT, foi fundador do comitê goiano pela anistia, junto com outras personalidades da época. Foi também várias vezes candidato a vereador e a outros cargos eletivos. Pantaleão, você como dirigente partidário, como você analisa hoje o quadro político brasileiro e goiano e sobretudo a questão da reforma partidária? Como é que você está vendo isso?
Em primeiro lugar, eu fico muito triste quando vejo que as chamadas mudanças da legislação eleitoral têm engessado os partidos políticos. Acho que estamos vivendo em um momento de alianças até desconexas, mas eu acho que o quadro partidário não vem avançando por culpa mesmo do próprio legislador. Eu até lembro do relatório do deputado Ronaldo Caiado juntamente com o deputado Rubens Otoni, que fizeram um bom trabalho da disputa e das mudanças, mas o congresso não tomou nem conhecimento. Está voltando a discussão da reforma política e partidária, a reforma eleitoral. Acho que o problema nosso é um vício que nós temos desde a República Velha, que começa com o governo chamado café com leite. Nós herdamos uma política atrasada, coronelística, cheia de defeitos. E as pessoas não têm coragem de assumir o que politicamente elas defendem.
Eu acho que a reforma não vai sair do papel e eu acho que o Itamar Franco, que foi presidente e hoje é senador, levantou uma tese muito interessante, de que não se muda a legislação eleitoral porque nós não queremos mudar o que vai nos prejudicar. E eu fico triste com essa posição. O segundo aspecto que eu gostaria de deixar bem claro é que o partido socialista na verdade surge de dentro de uma divergência dentro do próprio PT. Eu acho que nós temos tentado dar uma contribuição. Mas o que vem a ser uma legislação eleitoral? Uma legislação eleitoral não pode ter os vícios que nós temos. Eu acho que o financiamento público da campanha é uma saída. Eu acho que a imprensa e a mídia são uma saída. Eu me lembro muito bem em 74, quando o Henrique Santillo e o Ademar Santillo foram candidatos, um a deputado estadual e outro a deputado federal, eles eram até mesmo chamados de "irmãos metralha", me lembro de uma coisa interessante. Os debates existiam em plena ditadura, mas hoje nós não vemos debates. Você tem a mídia, os marqueteiros, os partidos engessados pela legislação eleitoral. Você vê o absurdo, você pega o regimento da Câmara de Esporte de Goiânia, da Assembleia legislativa e do Congresso Nacional, não se tem mais debates. Os legisladores poderiam estabelecer regras mais claras. O voto distrital misto é uma saída.
Você é a favor do voto distrital?
O PSOL está fazendo um seminário com vários intelectuais, cientistas políticos pra tomar uma decisão mais ampla. Mas em tese, o voto distrital é uma saída interessante.
Nas últimas eleições, por exemplo, pudemos ver o absurdo desse sistema eleitoral proporcional. Um candidato do seu partido, o Martiniano Cavalcante teve mais votos do que pelo menos três desses que foram eleitos. E no entanto ele não tem mandado. Então como é que os eleitores do PSOL entendem uma situação dessas de um candidato ser muito bem votado e não ser eleito?
Só recordando que na campanha passada pra vereador, o PT conseguiu dois vereadores, no caso o Djalma Araújo e o Cidinho, e nós elegemos o Elias Vaz. Os votos nossos foram maiores do que os do PT em Goiânia. A grande questão é que o eleitor, segundo nossa tradição, vota obviamente em pessoas. O voto ideológico nosso é pequeno. Eu acho que o voto pessoal deveria ser respeitado.
Um fato curioso sobre o professor Pantaleão: é um político e um poeta ao mesmo tempo. É um cara que passa uma pureza durante o dia todo, quando o vemos na rua, na gritaria que ele faz pela cidade toda. Mas é o seguinte, professor Pantaleão, você foi atropelado pelos políticos profissionais. Políticos iguais a você que são, digamos, puros, foram atropelados por esses profissionais que estão ai de carreira?
Eu militei na política estudantil do Colégio Estadual Pedro Gomes, participei do grupo de escritores novos, o GEN, que tinha como patrono o escritor Miguel Jorge. Respondemos o IPM contra a Ditadura Militar, eu o Cleber Adorno, que era presidente do GEN, Antônio Gomes, Élcio Aguiar, Brasigóis Felício, tanto que o nosso grupo era ironicamente chamado pela polícia de "cobra". Clécio, Antônio, Brasigóis, Élcio e Reinaldo. Era o "cobra". Éramos acusados de sermos comunistas perigosos porque cantávamos na rua, fazíamos panfletagem no colégio Santa Clara.
Então eu sempre militei politicamente, porque todos nós somos políticos. Militei no movimento estudantil no Colégio Estadual Professor Pedro Gomes. Participamos da eleição na época do estudante Euler Ivo, que chegou até a ser político. Fui aluno da Universidade Federal. Respondi um outro IPM em 1974, porque eu levantei que a questão da escolha de representantes era uma farsa. Foram dois IPMs. Em 1976 eu fui candidato a vereador pelo MDB, ligado ao ex deputado João Divino, Fernando Cunha, Ademar Santillo e Henrique Santillo. E de lá pra cá eu nunca deixei de participar de eleições. Participei em 1980 da formação e fundação do PT, participei do PCB na clandestinidade, participei do PCdoB na legalidade e estou hoje no PSOL.
Porque eu sempre participei como candidato? Ai vem a sua pergunta. Eu fui o primeiro político talvez aqui que levantou um poema do analfabeto político Bertolt Brecht como campanha. Fui até criticado porque todo mundo votava no Bertolt Brecht e não votava em mim. Não é ironia não, é sério. Em 1982 eu fui candidato a vereador, em 1988 fui candidato a vereador, em 1986 fui candidato a deputado pelo PT. Dei uma trégua em razão do problema de saúde da minha esposa que infelizmente faleceu. E depois voltei, fui candidato pelo PSOL em 2006 para deputado federal, depois a vereador e agora fui candidato a deputado estadual. Mas então você fala que eu estou sempre participando e não ganhando. Lembro-me de um debate do Lula com o Maluf, em que o Lula disse que ele era incompetente porque ele competia, competia e não ganhava. Mas não é assim.
Bem, eu acho que eu tenho que participar. Se o PSOL precisar de um candidato a prefeito de Goiânia, a governador do estado, a presidente da República ou a associação de bairros, não tenho problema. Eu não faço política porque eu tenho que ter um mandato. Eu como professor aposentado e que volto à sala de aula, hoje eu estou em dois colégios ainda, eu fico satisfeito em poder contribuir com isso. Sempre usei os escritores goianos nas minhas campanhas como texto. Lembro-me uma vez que eu juntei material de vários poetas, ai me perguntaram se eu era candidato a vereador ou estava fazendo propaganda de poesia. E eu respondi que era as duas coisas, porque o que é a política? A arte política, desde Aristóteles, o homem é um animal essencialmente político, prega que nós temos que ter a pureza. Mas não é a pureza de quem diz que é puro e os outros não. É a pureza da honestidade com os nossos princípios. Eu sempre digo que o jornalista é o historiador do dia-a-dia. Eu posso não concordar com Armando Aciolle, por exemplo, mas eu não posso desconhecer que ele é jornalista. Então é por isso que eu sou candidato. Nas minhas campanhas, faço barulho nas ruas, gritando Raul Seixas, "viva o Vasco", "viva o Goiânia", "viva a poesia", chego no chorinho e digo que o Brandão falou pra eu ler uma poesia, e então dizem que eu não estou no script, mas que script? Ele falou, falou. Ai as pessoas pensam que eu sou louco, maluco beleza. Mas não é assim. Eu acho que estou fazendo política dentro de uma concepção filosófica de vida. Eu não posso querer ser eleito pra depois perguntarem quem está por trás da minha campanha. Eu tenho o partido, minhas ideias e o pouco dinheiro que eu sempre tive.
Se eu fui atropelado? Eu acho que é difícil fazer campanha quando se sabe que empresas (o que a lei permite, inclusive) dão uma enorme quantidade de dinheiro pra candidatos que chegam lá e ficam quatro ou oito anos quietinhos. Vou dar um exemplo aqui, porque eu acho que citar nomes não tem problema, visto que o Supremo inclusive tem processo, como no caso do ex-deputado Tatico, que ficou tanto tempo lá que ninguém nem sabia que ele era deputado. Mas tem outros casos escabrosos de pessoas que foram eleitos a deputados, vereadores, e até senadores da república e que chegam lá e ficam quietos. Então eu não fui atropelado, eu acho que eu continuo correto, os que talvez estão errados, são eles.
Por que você deixou o PT? Qual é a sua crítica ao PT, ao governo Lula e ao governo Dilma?
Eu não faço política com problemas pessoais, muito pelo contrário. Eu tenho princípios socialistas, tenho uma concepção marxista de vida, apesar de não dizer que o que Marx falou está falado, até porque senão eu não seria professor. Eu discuto a questão do Oriente respeitando quem está na sala, palestinos, judeus, muçulmanos, espíritas, católicos e evangélicos. Até porque a minha esposa que faleceu era evangélica e eu sou marxista por concepção.
O PT surgiu dentro de uma camada rica da sociedade, sindicalistas, a teologia da libertação da Igreja Católica Apostólica Romana, liderada pelo Leonardo Boff, e o sindicalismo liderado pelo Lula. O PSOL foi uma das várias vertentes que participaram da luta armada. Quando o Lula foi candidato em 1989, depois em 1994 e em 1998, quando ele decidiu ser candidato pra ganhar, foi feita uma mudança do ponto de vista filosófico do PT. O PT defendia uma alternativa socialista. A carta que foi assinada pelo Lula no seu primeiro mandato dizia de forma clara: "nós vamos deixar de ser socialistas". É óbvio e natural que dentro do PT tenha setores socialistas, dentro do PDT tem, e até dentro do PMDB tem. Mas eu acho que naquele momento o PT deixou a bandeira do socialismo.
Então seria um cinismo muito grande da minha parte, e por isso que eu tenho amizades muito grandes dentro do PT e em outros partidos, mas se eu defendo o socialismo desde os meus 10 anos de idade, se eu tenho uma concepção marxista de vida, se dentro do PT eu participei da corrente marxista, quando o partido como partido abandona a bandeira socialista, é óbvio que eu não poderia ficar. Isso por questões de princípios, não é porque eu tenho críticas pessoais a ninguém. Eu tenho críticas sim ao que o Lula fez, mas o que me deixou mesmo contrariado foi o PT ter abandonado os princípios socialistas.
Pantaleão, os dois candidatos para prefeitura de Goiânia serão o Demóstenes Torres e o Paulo Garcia. Você ficaria com quem?
A princípio, com o PSOL. O PSOL vai lançar candidato a prefeitura de Goiânia, nós temos candidatos.
E no segundo turno?
No segundo turno eu não decido pessoalmente por nada. Eu sou partidário, tanto que tem pessoas que me chamam de petista até hoje. Mas eu acho que o PSOL não vai fazer campanha nem para Paulo Garcia e nem para o Demóstenes Torres, apesar de termos um respeito muito grande por eles. Vou dar o exemplo do Plínio Arruda, que foi nosso candidato à presidência. No segundo turno o PSOL fez um documento de direção nacional dizendo aos aliados, que seria melhor votar na Dilma do que no Serra. Mas formalmente nós não apoiamos a Dilma. Demos um apoio crítico. Mas eu não tenho uma concepção fechada. O que o partido decidir eu apoio.
O PSOL está desenvolvendo um projeto político que é uma tentativa de unificar em uma única coligação os partidos, a esquerda do PT em Goiânia. Seriam o PSOL, o PSTU, o PCB, e outras legendas desse espectro ideológico, para lançar um candidato único em uma única coligação. E vocês estariam pensando, ao invés de lançar um candidato dentro do quadro partidário, lançar um notável. Eu gostaria que você explicasse essa ideia pra gente, já que esse vai ser um fato inédito.
O deputado federal Chico Alencar levantou uma questão interessante na revista Caros Amigos. Ele disse que se a esquerda não tem capacidade de unidade como é que nós vamos fazer? O lançamento de uma candidatura pelo PCB, PSTU, PCO (Partido da Causa Operária), PSOL e o PV (que hoje tem o professor Everaldo Pastore, que foi sempre lutador pelas causas populares e socialistas).
Eu defendo o princípio de que nós temos que tentar unificar todo mundo. Quem seria o candidato a prefeito? Martiniano, Elias, Pastore, a Jaqueline, eu ou a Marta Jane? Eu acho que nós temos que ter a compreensão de ir buscar pessoas até mesmo fora desse quadro partidário que tenha a compreensão do socialismo e que não tenha as mãos sujas, nem os pés sujos, e nem a cabeça suja e nem o corpo sujo. Porque ai não é questão de moralismo, é questão de princípios. Já que eu estou criticando isso não posso lançar um corrupto à candidatura por um princípio de esquerda.
Eu acho que seria interessante um professor universitário, um jornalista respeitado, um ecologista respeitado. Mas alguém poderia dizer que dessa forma não estaríamos respeitando os princípios de esquerda. Não é isso. Essa seria uma tentativa de aglutinar a sociedade que hoje está desmoralizada, e mais grave ainda, apática. Eu acho que seria um bom momento para se debater Goiânia, porque o candidato a prefeito de Goiânia tem que saber o que é Goiânia. Por isso que eu defendo a ideia de que esses partidos que eu citei poderiam fazer um grande esforço para buscar alguém mesmo que fora, mas que tenha os princípios socialistas da evolução política e do ser humano. Eu acho que isso não seria algo tão desconexo não. Mas é óbvio que essa é uma questão pessoal minha, que eu tenho levantado com alguns intelectuais de Goiânia, e acho que seria interessante.
Vamos discutir um pouco sobre literatura goiana. O professor Reinaldo Pantaleão é um aficionado dos escritores goianos, a quem ele divulga por todos os lugares onde passa. Pantaleão, quem é o melhor escritor de Goiás?
Antes de falar quem é, porque às vezes eu posso até cometer aqui alguma injustiça, eu acho que há uma literatura riquíssima em Goiás desde os primeiros momentos da nossa literatura. Eu tenho alguns nomes, e posso contrariar muita gente, que fazem parte da literatura goiana, nacional e internacional. Nomes como Carlos Bernardes, Bernardo Élis, Miguel Jorge, Heleno Godoy, José Godoi Garcia, Hugo de Carvalho Ramos, José Mendonça Telles, Alaor Barbosa, e eu poderia citar aqui milhares, mas esses nomes são referência estadual, nacional e internacional.
Vou dar um exemplo. Eu estava em Curitiba nos anos 80, participando de um debate sobre história e literatura. E lá eu citei um texto do Brasigóis Felício. E o livro dele estava sendo usado pelo vestibular do Paraná. E então se levantou uma professora e disse que nós em Goiás cometemos um suicídio, por que temos nomes fantásticos, grandes escritores, e vocês não dão nem oportunidade pra eles. Então eu acho que há a necessidade de que isso seja divulgado. Em 41 anos de sala de aula eu sempre divulguei o escritor goiano. Fiz isso em Goiânia, Catalão, Inhumas, Anápolis, Ribeirão Preto, Uberlândia e em muitas outras cidades.
Mas como você me fez uma pergunta pessoal, devo responder que eu adoro, adoro mesmo a literatura de Miguel Jorge. Acho que ele é um escritor fantástico. e eu acho que o Heleno Godoy é um escritor muito além de Goiás. Eu não citei o J. Veiga, apesar de achar que ele é um dos maiores, porque boa parte da literatura dele foi feita fora daqui, no Rio de Janeiro. Ele foi representante da BBC em Londres, mas tenho que dizer que esse é um nome fenomenal.
A literatura em Goiás parece que parou, os medalhões têm 50 ou 60 anos. E tem uma molecada fazendo um movimento de poesia e literatura na cidade, de vinte e vinte poucos anos que eu acho que é interessante. Você que é um cara eternamente jovem, já foi convidado para algum desses saraus, ou dessas baladas literárias, como eles chamam?
Eu sempre estou participando, desde a época do Pio Vargas, nosso querido Pio Vargas, que infelizmente faleceu, Gilson Cavalcante, que hoje está no Tocantins, Juraídes, enfim, todo o pessoal que participou e participa dos saraus. Mas isso às vezes não é divulgado até porque não tem muito interesse na divulgação.
Eu não só participo como dou a minha contribuição. Fiz um poema para o índio Patachó Galdino que foi assassinado em Brasília e que ganhou o primeiro lugar de um prêmio de teatro popular no Paraná, que eu nunca divulguei. O Eurico Barbosa está sempre me cobrando pra eu publicar minhas poesias, eu participei de vários movimentos literários. Eu acho que esses saraus têm muito valor. As escolas cometem um erro primário. Esse tipo de coisa tem que ser divulgada e ampliada. Outro dia eu dei um exemplo do Carlos Brandão, que reuniu as maiores tendências do rock e da literatura em Goiás e levou para o Martim Cererê. Esse foi um trabalho herculano, foi fantástico. Então eu acho que o sarau deveria ser feito como nós fizemos em 67 e em 68 com o novo GEN, nós andávamos nos colégios de Goiânia todos divulgando a poesia. A juventude de hoje é muito criticada, dizem que a juventude não quer nada, mas não é assim. A juventude foi vítima de um processo d, é diferente dentro do contexto histórico.
Mas eu acredito que os saraus deveriam ser incentivados. Já que foi levantada a questão de dinheiro público na área dos esportes, por que a Secretaria Estadual ou Municipal, juntamente com as universidades e escolas não fazem todo fim de semana um sarau nas escolas, como por exemplo tem no Paraná. Por isso que o Dalton Trevisan que é um dos maiores escritores do Brasil e é do Paraná diz que a poesia do Paraná é muito rica porque a juventude participa desde momentos antes da própria literatura.
A ENTREVISTA CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO....
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