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ÂNGELO LIMA: "Nós vamos crescer"

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11/06/2011 - Carlos Brandão

Ângelo Lima é um dos caras mais conhecidos no meio cultural goiano, um dos caras mais batalhadores, literalmente, pois briga muito pela arte feita em Goiás. Com filme inscrito no XIII FICA, o diretor, ator e documentarista Ângelo Lima é sempre apontado como favorito. Aliás, ele tem sido premiadíssimo naquele festival.

Na semana passada ele visitou a redação do Jornal da Imprensa, e concedeu a Carlos Brandão a entrevista que se segue, que pode ser vista também em nossa edição online, onde são exibidos trechos dos melhores filmes do cineasta.

 

 

Ângelo, você está com um filme novo: Diga trinta e três e concorrendo no FICA. Como é que você vê o FICA nessa nova fase com a nova Agepel e me fala um pouquinho desse seu filme, pois parece que ele é meio polêmico, não é?

 

É, na realidade eu acho que o FICA precisa de uma reestruturação  em termos de apoiar mais, no sentido dos cineastas goianos. O que eu sempre achei um absurdo é que o FICA, se gasta 5 milhões, ou 4 milhões, eu não sei qual é a verba realmente, porque eu não trabalho nem no TCU, nem no TCE, mas eu acho que o FICA deveria priorizar o artista goiano. Não sei se é uma nova fase, acho que são novas pessoas que estão no comando, nessa nova fase. Mas na realidade eu acho que deveria priorizar...E ontem eu estava  discutindo justamente sobre isso, sobre o FICA, porque no FICA acaba a premiação, em todo festival quando acaba a premiação, então acaba o festival. No FICA não acaba o festival, no FICA continua, aí tem um grande show. Eu não tenho nada contra a música, entendeu?!

Cinema é música, teatro é música, tudo é música, mas a gente finda se perguntando: quanto se gasta num show desses como o de Rita Lee ou qualquer artista que venha?. Podia pegar esse dinheiro e investir em produção goiana, porque quanto mais cinema tiver, melhor pra nós, quanto mais música tiver, melhor pra nós, quanto mais literatura tiver, melhor pra nós, teatro, melhor pra nós. Nós vamos crescer, o estado vai crescer e vai melhorar muito.

 

Os músicos locais reclamam que os cachês para músicos de fora são altíssimos e para os locais são baixíssimos...

 

Pois é, a verba atualmente é de 6 mil reais, aumentaram um pouquinho. Antes era de 3 mil reais e agora aumentaram um pouquinho, foi para 6 mil. Num montante, a gente foi fazer uma conta, não dava nem 180 mil reais para os músicos, que é um cachê de um cara que vem de fora. Eu acho que a gente precisa tirar um pouco essa bandeja do Anhanguera , pois já foi a "onda" do cara tocar fogo no álcool e achando que tá tocando fogo na água. Ninguém mais é bobo, entendeu? Nós precisamos investir na cultura, não tenha dúvidas. Essa é a minha batalha, uma batalha muito grande nisso, porque...ninguém vai ficar rico não, sabe? Mas  a gente vai produzir mais e conseguir levar as coisas adiante.

 

Fala pra gente sobre o filme: Diga trinta e três

 

Diga trinta e três é um nome muito engraçado, porque as pessoas ficam perguntando: diga o quê? Diga trinta e três? E nessa as pessoas já falaram o nome do filme três vezes. Eu parto sempre de nomes como: O pesadelo é azul, Icologia, Diga trinta e três, a Próxima mordida.... E Diga trinta e três surgiu porque antigamente o médico ia escutar o pulmão da gente, e ele falava assim: Diga trinta e três, o que é um mistério, porque além de ser um número simbólico para os cristãos, porque Cristo morreu aos trinta e três anos, e essa história toda. É um número também que mexe com toda essa questão do pulmão da gente, e é isso, Diga trinta e três, então eu falo sobre isso que é uma doença silenciosa e que é provocada pelo pó da pedra, que se chama sílica. Então, eu escutei isso, indo muito à Pirenópolis eu escutei muito essa história.

Não tenho nada contra a pedra de Pirenópolis. Eu acho que tem que produzir a pedra, mas eu acho que tem que se tomar muito cuidado com essa história do ser humano, porque, cada vida que se perde, cada vida que entra no hospital. Tem "neguinho" que fala: "ah, eu não uso cinto de segurança, eu acho que é bobagem". Então, o cara entra no hospital e quem paga a conta somos sempre nós, né? Nós temos que tomar cuidado. Então, é sobre isso que fala o filme, a doença que se chama silicose, não é silicone.

 

A questão do amianto, a própria empresa, lá de Minaçu comprou um espaço no programa do Paulo Beringhs pra falar, pra defender o amianto. Você acha que seu filme pode abrir uma

 

Já abriu uma discussão muito grande. Na verdade já se abriu uma discussão no jornal, e eu também peguei esse filme através de várias matérias do jornal da cidade. Então eu fiz esse roteiro, fiz essa história. Me aproximei das pessoas, as pessoas sentiram firmeza em me dar depoimento. Porque não é depoimento pra cada um, né? As pessoas tem que sentir firmeza no que você vai falar realmente. Se você vai colocar a verdade, ou então a história dele mesmo. Um personagem num filme é uma coisa tão séria, que um dos personagens do filme, já morreu. Era um cara jovem. Jovem que eu falo é 48 anos de idade, uma pessoa bem jovem ainda.

 

Mas morreu por causa dessa doença?

 

Morreu por causa dessa doença sim. Tem uma história de que você vai perdendo a força. Você não tem mais força pra trabalhar, você não tem mais força pra andar, você perde o apetite. Então você começa a gerar várias doenças, você começa a se estressar, e o remédio você sabe que às vezes ajuda aqui e atrapalha ali. Então, a coisa é mais ou menos por isso!

 

O filme é inédito ou já foi mostrado em outros festivais?

 

Não, não é inédito, já foi mostrado em outros festivais, a gente já ganhou três prêmios. Já ganhamos uma menção honrosa em Portugal, ganhamos o festival de Cine Pacoti, ganhamos uma menção honrosa aqui no Festcine Goiânia. Ele é um filme que tá no Cine Sul. É um filme que tem uma carreira, porque eu gostei muito de ter feito o Diga trinta e três não pelo tem, mas porque, primeiro eu trabalhei com um grande músico que é o Fausto Noleto. Eu peguei o filme e disse: Fausto faz uma música pra esse filme, e ele fez. É uma música do pulmão, ele toca saxofone. Eu falo que a música é trinta ou quarenta por cento do filme. O Fausto é um profissional fantástico e foi muito legal ter feito, ficou muito bonito.

 

Essa mostra do FICA tem um dia exato?

 

Vai ser dia 16, às 17 horas. É um horário legal, é um horário bem legal. Tem gente que fala: "Ah, você é rato do FICA". Não, eu sou um cara que tá preocupado com o meio ambiente. Não é mais nem por mim, é mais pelos meus filhos, meus netos, pelas pessoas que estão vindo por aí. Tem que conservar um pouco mais esse planeta. E uma coisa interessante é que é o 13º FICA e eu já fui selecionado em nove FICAs, já ganhei duas vezes juntamente com meu pé de sorte, meu amigo de sorte, o Diogo, que os dois filmes que fizemos juntos foi o Icologia e a Próxima mordida, que o Diogo dá uma força fantástica, ele resolve. Eu não gosto de entrar na ilha, então eu mando resolver, o editor resolve.

 

O Diogo tá aqui de olho no Ângelo, fiscalizando o que ele tá falando.

 

É a gente precisa trabalhar em conjunto. As pessoas falam muito mal do FICA, mas eu gosto do FICA.

 

Seu filme anterior a esse, foi o do Jorge Braga?

 

Não, foi A próxima mordida. É um filme sobre ataques de tubarões em Pernambuco.

 

Fala um pouquinho dessa sua carreira de cineasta. Começou como?

 

Começou a muitos anos atrás, começou quando eu fui expulso do cinema. Antigamente tinha o lanterninha e ele expulsava você do cinema. Então, quando eu fui expulso do cinema, comecei a amá-lo mais. Nunca mais me esqueço: "a História de Ruth", é um filme antigo. Então eu fui expulso do cinema e meu pai tinha um negócio de dar castigo pra gente, daí ele falava assim: "ah, você vai passar um mês sem ir ao cinema". Olha só, um cara em 1963 ficar sem ir ao cinema, nossa, era duro. A criança não tinha quase nada pra fazer, então a matinê era uma coisa fantástica.  Então a causa virou efeito, eu comecei a amar o cinema, eu comecei a trabalhar com cinema. Na minha carreira eu tenho três longa-metragem, que é uma coisa de peso. Tem ao todo trinta obras que são, três longas e vinte e sete curtas. Onze filmes meus são premiados.

Participei mais de duzentos festivais, e ganhei um prêmio agora em San Petersburgo. Não é puxando a "brasa pra minha sardinha", mas eu acho que é isso mesmo, a gente tem que fazer uma história no cinema, para que as pessoas possam ver que o cinema é uma coisa seríssima. Então, eu tenho batalhado muito, as vezes eu produzo três filmes por ano. Agora estou fazendo um filme sobre Gustav Hitter. Acabei de fazer um filme sobre grafite que se chama: Grafita que eu gosto, que tá num festival do Ceará.

 

Você vai pegar a história do Gustav Ritter, que tá esquecidinho, né?!

 

Esquecido totalmente. É um cara que depois de trinta anos foi homenageado, no ano passado. Eu sou um pouco goiano e tenho essa liberdade, mas tem gente que fala: "ah, você não é Goiano". Realmente, eu sou de Pernambuco, mas estou aqui desde 1959, então eu me sinto muito goiano pra falar certas coisas. A gente tem mania de esquecer as pessoas e não valorizar as pessoas da terra. Nós temos que valorizar as pessoas que estão fazendo arte, porque é uma batalha tremenda pra você se levantar e fazer arte neste Estado, pra bater na porta dos empresários, ou então você não bate na porta de ninguém por você ter amigos pra te ajudar. Que você chega e fala: "oh, me empresta um dinheiro que depois eu te pago". Então você pague mesmo, senão ele não vai mais ajudar. È importante fazer arte aqui em Goiás, não só o cinema, mas o teatro, e o teatro tá crescendo de mais aqui, tá ganhando prêmios. Então, eu acho que a gente tem que investir nisso. Acho que é essa a batalha do dia-a-dia mesmo.

 

 

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