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20/06/2011 - Da Redação
Publicamos aqui a segunda parte da entrevista com o professor Reinado Pantaleão. A primeira parte foi publicada em nossa edição anterior. Pela importância dos assuntos abordados, e pela autoridade de quem o aborda, decidimos que a entrevista deveria ser publicada na íntegra, sem retoques. Daí a divisão dela em duas partes.
Falamos de Pantaleão na edição passada. Não custa repetir.
Ele é um vetereano das lutas democráticas em Goiás. A bem dizer, começou sua militância anti-ditadura já no ano de 70. Naquela ocasião, ele pregava o voto nulo como forma de protesto. Votar era coonestar a ditadura. Mas, em l974, ele mesmo se candidata a deputado estadual pelo MDB. Candidata para ajudar a luta democrática, já que poucos se dispunham a sair candidato pela oposição.
O MDB tem uma grande vitória em l974. Começa, ali, a derrocada do regime militar. Em l978, ele vai a luta pelos candidatos emedebistas e, sobretudo, pela eleição a senador de Henrique Santillo, a quem, ainda hoje, admira e cuja memória defende. Naquele ano, ele, ao lado de João Divino Dorneles, já falecido, funda o Comitê Goiano pela Anistia. Um movimento que, apesar de boicotado pela grande imprensa, contribuiu para expandir a consciência democrática em nosso Estado.
Hoje em dia, muita gente por aí anda falando que ajudou a fundar o Comitê Goiano pela Anistia. Cuidado, peralvilhos! Os arquivos implacáveis do professor Pantaleão podem desmascarar vocês. Pantaleão é dono de um dos maiores arquivos políticos de Goiás. Há anos ele guarda, zelosamente, todo tipo de papel relacionado à luta política. Tem toneladas de recortes de jornais.
Um desses documentos é a relação de nomes dos que participaram da fundação do Comitê. Ele tem a foto. A lista foi datilografada por ele, secretário ad hoc do evento, e assinada por João Divino. O próprio João Divino acrescentou, de próprio punho, os nomes de alguns fundadores que, chegaram atrasados à reunião. Portanto, somente as pessoas cujos nomes estão nesta lista podem se arrogar a glória de ter fundado o Comitê Goiano pela Anistia.
Pantaleão foi, ainda, co-fundador do PT goiano. Passou pelo PC do B, pelo PCB e, hoje, milita no PSOL, sendo um de seus destacados dirigentes. Eis a entrevista.
Mudando um pouco o rumo dessa conversa, por que os partidos de esquerda abandonaram a revolução? Por que ninguém mais fala em revolução? Todos viraram reformistas?
Não. Eu até gostaria de fazer uma observação. O SBT está levantando a novela Amor e Revolução, e eu acho que eles deveriam ter cuidado mais do contexto histórico. Muitas coisas que eles estão falando que são do governo Costa e Silva ou do governo do Castelo Branco acaba confundindo quem está assistindo. Acho que o autor poderia ter feito um melhor trabalho do ponto de vista do contexto histórico.
Bem, eu vou falar algo que pode até assustar os meus amigos da esquerda, mas eu não acredito em processo eleitoral para fazer revolução. O processo eleitoral é um momento de trabalhar ideias e concepções políticas. Mas não é porque eu sou marxista que eu estou defendendo isso não. Se você pegar ao longo da história qual revolução, tanto no campo burguês, quanto no campo socialista foi feita eleitoral e pacificamente, você vai ver que nenhuma foi.
Os partidos de esquerda no Brasil estão dentro do campo eleitoral, isso porque eles não defendem a revolução, eles defendem a participação eleitoral. E uma revolução dentro dos moldes eleitorais é muito difícil de ser feita. Eu posso até estar falando uma heresia, mas se faz revolução clandestinamente. Essa é a grande questão.
Mas por que que os partidos como PCdoB, PCB, PSOL, PSB e setores das esquerda não têm clamor popular? É porque muitas das vezes a nossa linguagem acadêmica, intelectualizada, cheia de preconceitos, não chega ao povo. As vezes a população nos vê até como traidores. Vou falar isso, mas é com respeito a todo mundo: Tem setores da esquerda que depois que assumiram o poder, ficaram piores do que a direita. Então assim eu não acho que é correto ficar falando que fulano é corrupto, ladrão, e depois um amigo meu que participou das lutas lá nos anos 60, assume qualquer cargo e no outro dia você vê o cara nas manchetes de jornais como milionário. Ele tem direito de ficar milionário, claro, é o capitalismo. Mas eu não acredito em processo eleitoral leve à revolução.
Participo do processo eleitoral desde o MDB antigo e até hoje porque eu acho que eu estou dando a minha contribuição. Por ter dado aula em vários cursinhos famosos do Brasil, eu já fui convidado para ter a minha campanha financiada por donos de escolas. Mas eu faço educação política, eu não faço mercantilismo.
Um registro histórico é que você foi professor de dois rapazes que hoje fazem história no nosso meio político: Demóstenes Torres e Marconi Perillo.
Isso. Marconi Perillo foi meu aluno no colégio Premédico, era um rapaz jovem, inteligente, um bom aluno, veio lá de Palmeiras junto com seu primo Fernando Perillo, poeta, escritor e músico. Demóstenes foi meu aluno no curso Objetivo. Os dois foram alunos muito bons, e eu não tenho nenhum puxão de orelha.
Mas e puxão de orelha de hoje?
O contexto de hoje é diferente do contexto de quando eles foram meus alunos. Primeiramente, ninguém pode desconhecer que Marconi Perillo foi discípulo de Henrique Santillo. Ele é esperto, preparado, sabe jogar muito bem até mesmo com as palavras e com a mídia. Eu acho que o Marconi representa o que nós chamamos de neoliberalismo aqui em Goiás, que começou com o Collor, passou pelo Fernando Henrique Cardoso, e pra mim o Lula foi um neoliberal moderado. Ele não foi tão exagerado nas privatizações, mas ele não mudou o quadro do ponto de vista econômico. Até eu digo que o plano do governo Lula foi copiado um pouco do Serra.
Bem, o Marconi é um bom orador, um bom batedor, mas ele representa a fina flor do capitalismo neoliberal, e faz exatamente o que o sistema estabelece pra ele. O Demóstenes Torres é tido hoje na imprensa atual, como um dos poucos bons senadores que nós temos. Aliás, como registro, eu acho que em Goiás nós tivemos três grandes senadores: Domingos Velasco, Henrique Santillo e Demóstenes Torres. Eu acho que eles estão dentro de uma linha que eu não concordo, embora respeite, e obviamente, para derrota-los não é fácil.
Você falou sobre Henrique Santillo, gostaria que você falasse mais um pouco sobre ele, você que conviveu com ele, que é um dos maiores políticos que a cidade já teve.
Bem, foi feito um vídeo sobre o Henrique Santillo, e eu acho que o autor poderia ter feito uma pesquisa melhor. Porque o Henrique Santillo, além de ter sido um dos poucos políticos do Brasil que morreu pobre, era um intelectual de primeiríssima qualidade, foi o primeiro aluno no curso de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, participou dos movimentos estudantis da década de 60, foi um orador respeitadíssimo e injustiçado. Eu convivi com Henrique Santillo, e ele tinha objetivos claros e definidos. Ele não era marxista, não era comunista, ele era um progressista humanista. O Henrique Santillo foi violentamente boicotado pelo governo federal, pelos ministros do governo federal.
Mas eu acho que nós poderíamos recordar um pouco da história, porque o Henrique Santillo, juntamente com o João Divino Dornélis, são sem dúvida nenhuma figuras que merecem de nós um pouco de pesquisa..
O PMDB do Íris boicotou o Henrique Santillo?
Sem dúvida nenhuma. O Íris tem uma plataforma conservadora, populista, que eu respeito, mas esse grupo do ex-governador e ex-prefeito de Goiânia fez um boicote as posições de Henrique Santillo. E até muitos amigos de Henrique Santillo pularam para o outro lado também. Mas o Henrique Santillo foi um dos poucos políticos em Goiás que eu posso dizer para você com toda a honestidade foi um baluarte, um progressista, corajoso e preparadíssimo. Foi um bom prefeito, um bom deputado e um excelente senador. Ele teve dificuldade no governo porque foi boicotado.
Voltando à questão da revolução. Nós sabemos que toda revolução é precedida por uma revolução cultural, com a criação de uma nova consciência. Agora, para que isso aconteça é necessário que se inicie os debates e os questionamentos. E hoje, dentro dos partidos políticos nãos e discute nada de substancial, ou de interesse da sociedade. As grandes discussões hoje estão ocorrendo dentro das ONGs e as vezes nem dentro delas. Mas recentemente, por exemplo, o professor Fernando Henrique Cardoso iniciou um debate sobre a liberação das drogas. Você, como cidadão, militante, como você encara isso?
Eu concordo plenamente com você. Os partidos de esquerda estão se perdendo no eleitoralismo, e não se faz um debate sério com relação à conjuntura estadual, nacional e internacional. Esse é um ponto. Segundo, é que a nossa juventude as vezes é muito atacada, mas nós vivemos em um contexto diferente, eu vivi em um contexto de Che Guevara, Betles, Mao Tse Tung, Roling Stones. Honestino Guimarães, Aldo Arantes e etc.
Hoje não dá pra se pregar uma concepção de esquerda, marxista, sem olhar o problema da violência, das drogas, do aborto, da ecologia e do meio ambiente. Isso porque não existe nenhuma compreensão marxista que não aborde isso. Quando Marx escreveu, ele vivia o contexto dele, é lógico que hoje algumas coisas que ele escreveu têm que ser reparadas. Marx não é o dono da verdade, ele tem um método de análise que eu acho que é muito válido e por isso eu sigo. Mas eu acho que essa é uma questão que poderia ser abordada.
O Fernando Henrique Cardoso, como sociólogo respeitadíssimo, que mandou até que a gente não lesse o que ele escreveu, e depois voltou a escrever. Ele tem um texto bom, escreveu um livro sobre dependência que é fantástico. Ele levantou uma polêmica, que se chama descriminalização da droga. Eu acho que ele levantou um problema porque como desconhecer a questão da droga? Como você pretende acabar com as drogas? Matando os outros? A questão das drogas é uma questão de educação. Agora a questão hoje do tráfico, o narcotráfico está veiculada a que?
É por isso que essa questão da descriminalização da droga deveria ser discutida pelos políticos, deveria se tornar algo público. A questão do aborto, por exemplo. A campanha do Serra e da Dilma se baseou fundamentalmente em pregação sobre quem é contra ou a favor do aborto. O Supremo Tribunal vai decidir agora questão do aborto. Essa tem que ser uma questão profunda, não é uma questão do aborto pelo aborto.
É como a questão, por exemplo, da violência. O mundo é violento porque quer? É óbvio que não. Eu não sou médico, mas a pessoa pode nascer patologicamente violenta. Mas a violência vem da falta de dinheiro na educação, a falta de incentivo à cultura... por que isso não é feito pelo poder público?
A juventude vai se educar na medida em que ela tem informação. Não adianta eu querer pregar aqui o que eu fiz nos anos 60, 70 ou 80. Não. Eu apenas continuo fazendo a mesma coisa, mas com outros olhos. Eu não dou uma aula que eu dei nos anos 70 porque hoje nós temos outra realidade.
A juventude de hoje tem tecnologia mais avançada do que eu tive. E eu acho que a questão é que (e eu falo isso com muita tristeza) é que a esquerda não está debatendo os grandes temas da nossa sociedade. Não só em Goiás, como no Brasil, e no mundo. Por isso esse vazio. Por isso que me chamam de político poeta. Eu diria que eu sou um cancioneiro, e como todo cancioneiro, ainda quero a minha canção.
Pantaleão, essa questão das drogas, do homossexualismo, do aborto, tudo tem sido discutido com base em muita rasteira, basicamente porque a bancada evangélica acaba comandando essas discussões ou interferindo muito nelas. Como você vê isso?
Primeiro eu vou te falar a verdade. Eu sou um dos poucos professores em Goiás que convivi com homossexuais dentro da sala e com professores homossexuais, inclusive morreu um professor de literatura, que eu fui visitar no hospital quando ele estava com AIDS e depois eu fui discriminado, totalmente abandonado pelos colegas só porque eu fui visitar um companheiro de sala de aula que estava com AIDS.
Eu acho que a questão do homossexualismo é uma questão que tem que ser analisada sim. Não dá pra desconhecer isso. Isso é uma hipocrisia, um cinismo, pois se você pegar lá de Alexandre Magno, passando pela Grécia, pelos filósofos, pelo Império Romano, e até hoje, você vai ver que essa é uma questão que sempre existiu. Agora eu acho que falta coragem pra poder assumir isso.
Eu sou totalmente a favor de que se legalize tudo. Porque se você legaliza tudo, você está dando oportunidade para as pessoas discutirem os seus problemas. Não adianta eu matar alguém por ser homossexual, como estão fazendo em São Paulo e no Rio, ou matar porque é prostituta, ou matar porque é drogado. Não. O problema é que nós temos que discutir isso com honestidade. Se isso sempre existiu, por que agora nós temos que criar essa imagem? Por que não se discute isso?
Eu, por exemplo, convivi com minha esposa que infelizmente faleceu que era evangélica, e eu por compreensão sou ateu. Mas eu convivi e nunca discuti com ela. Eu ia na igreja com ela, adoro as missas gregorianas. Vou em cultos, sou amigo de pastores, e tudo. Eu não vou brigar com as pessoas por causa de religião. Eu acho que eu tenho é que aprender.
O marxismo, eu acho que é as vezes mal compreendido. Eu sou amigo do professor Niso Prego, que é um grande espírita. O que eu aprendi e ainda aprendo com ele são coisas fantásticas. A gente que é marxista poderia tirar um pouco do dogma. Marx não pregou o absurdo pelo absurdo. Ele pregou humanismo quanto aos fundamentos filosóficos.
Nós começamos essa entrevista com futebol, e vamos encerrá-la com futebol. Eu quero que você analise a questão das torcidas organizadas. Isso está acabando com o futebol ou não? Você acha que deveriam acabar com elas?
Primeiro, as torcidas organizadas são incentivadas pelos times de futebol. Segundo, é que o futebol hoje é o futebol força, não é o futebol arte. E com isso ele dá ênfase à violência, que não é só das torcidas organizadas, pois essa violência reflete na sociedade. Em Goiânia hoje se mata mais do que em São Paulo e mais do que algumas guerras que existiram no mundo, e isso são dados que foram recentemente publicados.
Eu acho que os times de futebol deveriam organizar sim, mas em torno de cultura, de saraus... Eu sou do Goiânia e chamei o Pádua, grande poeta, e falei "Pádua, nós precisamos fazer um sarau das torcidas". Isso proque eu acho que as torcidas organizadas são fruto da sociedade violenta que nós temos. A nossa sociedade é violenta, as pessoas não dão oportunidade para as outras pessoas.
É óbvio que eu não sou nenhum maniqueísta de achar que isso é errado ou isso é certo, mas eu acho que as torcidas organizadas vêm acabando com o futebol. E não há nenhuma campanha para educar as torcidas, eu não estou vendo nenhuma campanha sobre isso. Todo mundo xinga, mas por que que não se educa?
Nós vamos encerrando essa entrevista com o professor Reinaldo Pantaleão, agradecendo a sua presença no Jornal da Imprensa, e agradecendo também a presença do Carlos Brandão que participou aqui dessa entrevista. E quero aproveitar, Pantaleão, para que você faça as suas despedidas aos nossos internautas.
Primeiro eu quero agradecer essa oportunidade, porque eu acho que essa oportunidade é uma oportunidade que a gente tem oportunidade de falar, não é? (Esse tanto de oportunidade ficou bom não é? É que eu sou poeta). Mas eu acho que é interessante, porque eu estou do lado de um jornalista, escritor e poeta, pessoa de um caráter fantástico, que é o Brandão. E também estou com meu amigo Helvécio, que conheço de longas datas. Quero agradecer ao jornal, estou sempre à disposição. E eu digo com toda a tranquilidade que enquanto nós pensarmos diferentemente de outras pessoas que querem explorar e não levarmos o que a gente pensa pra um debate, nós não vamos ter uma sociedade pelo menos mais humanista. E eu gostaria de terminar levantando o velho Tiago de Melo: "Faz escuro mas eu canto, pois a manhã da liberdade vai chegar". Obrigado.
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