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09/07/2011 - Jornal da Imprensa
Mesmo acometido por forte gripe, Arthur Rezende não se negou ao nosso convite para uma entrevista, que foi, diga-se de passagem, uma das mais animadas que fizemos.
Eu, Antônio Lessa e Carlos Brandão conversamos com ele quase duas horas na redação do Jornal da Imprensa. O rei Arthur na mesa redonda com seus cavaleiros. Conversa animadíssima, descontraída, bem humorada. Athur até cantarolou um samba, o que pode ser conferido na versão em vídeo, postada na íntegra em nossa edição On-line. Lá pelas tantas, para não perder o costume, de entrevistado virou entrevistador, intimando Carlos Bandão a falar de sua experiência como cantor no primeiro Comunica-som.
Arthur é o mais destacado colunista social de Goiás. Mas foi também, durante anos, empresário de shows e publicitário. A contribuição de Arthur ao desenvolvimento da MPB em Goiânia ainda está por ser devidamente avaliado. Ele promoveu shows de artistas locais, apresentou os Beatles à juventude goiana, trouxe grandes artistas nacionais e estrangeiros para se apresentar em Goiânia e muitas coisas mais. Porém, foi como o criador e promotor do Comunica-som que ele se consagrou. Este festival, que inventou a MPB goiana, merece capítulo à parte e será tema de reportagem especial a ser publicada na edição da semana que vem.
Aí está Arthur Rezende. Contando sua vida e desfazendo boatos. Diz Arthur que Roberto Carlos nunca falou que Goiânia é uma fazenda asfaltada; que não mandou ninguém trocar o nome da Vila Operária, que não cobra para por nota em sua coluna e que, sim, Tibério Gaspar teve uma namoradinha em Goiânia e que, por isso, virou arroz de festa na cidade. As fotos são de Diogo Garcia. Ariana Lobo editou o texto (Helvécio Cardoso).
Helvécio Cardoso: Olá Arthur, é um grande prazer recebê-lo aqui em nossa redação. Como estão as coisas?
Arthur Rezende: Tudo bem, a saúde está boa. O friozinho atacando Goiânia mais uma vez. Minha voz não está lá essas coisas não, mas a imagem está mais ou menos - não é? É um prazer estar aqui com vocês.
Helvécio Cardoso: Arthur, fale um pouco sobre a sua vida, seu início de carreira. Fale um pouco sobre você, de onde você é, enfim.
Arthur Rezende: Vamos começar então lá por Orizona, Minha família morava lá. Meu pai Arthur Rezende, alfaiate, minha mãe Benvinda dos Santos Pereira Rezende, professora. Assim minha família se constituiu e com oito anos de idade, em 1951 a gente se mudou pra Goiânia em um caminhão Chevrolet de mudança, estrada de chão, saímos de madrugada e chegamos aqui no período da tarde. Isso pra vocês verem a dificuldade e também a importância que um governador como o Íris Rezende Machado teve, porque nós sentimos na pele.
Atualmente você vai ao Orizona em uma hora e pouco de viagem, graças à pista asfaltada, a estrada asfaltada. Era muito difícil naquela época, mas hoje se vai com facilidade. Então, eu e minha família estamos em Goiânia desde o comecinho da década de 1950, e desde então eu fui estudante, fiz o colegial, o ginasial, depois fiz faculdade de direito e então enveredei por comunicação. Atuei primeiro em rádio, na rádio Difusora e depois fui pra outras emissoras, como a rádio como a rádio Brasil Central, a Anhanguera, a rádio Clube e a Independência, essas duas últimas que hoje não existe mais.
Helvécio Cardoso: Você começou no rádio dirigindo a sua atuação mais pro lado da música. Explique melhor isso pra gente.
Arthur Rezende: Exatamente. A gente tinha uma programação, eram os "disk-jóqueis" da época...
Helvécio Cardoso: Você era disk-jóquei?
Arthur Rezende: Isso. E também tinha alguns programas na Rádio Difusora, mas coisas assim, até curiosas. Quem apresentava no primeiro programa que eu fiz da Rádio Difusora, chamado Porta Voz Estudantil, que era de notícias sobre o movimento estudantil, quem apresentava comigo era o ex deputado Genésio de Barros. E quem apresentava o nosso programa com a gente era o Jorge Abrão, irmão do nosso conceituado Jackson Abrão. Ele era chamado de "a voz das oposições", tinha um vozeirão, era o Cid Moreira da época.
Então era o Jorge Abrão que nos apresentava. Esse programa era uma vez na semana, aos domingos, e a gente dava notícias colegiais, notícias sobre os estudantes, como a disputa da política estudantil. E posteriormente, tomei gosto pela coisa e resolvi fazer um programa na Rádio Difusora, que se chamou "Ritmos de Tio Sam", era o começo da era do rock.
Antônio Lessa: Arthur, nesse ponto é bom que se ressalve que você entrou em um momento histórico do mundo, pode-se dizer, porque se verificava uma verdadeira revolução na cultura mundial com a introdução da nova geração de músicos, intérpretes...
Arthur Rezende: Quebras de tabus, não é?
Antônio Lessa: Isso, verdade. E você encarnou uma figura extraordinária em Goiás, inclusive estávamos juntos na Difusora, foi quando você assumiu a liderança junto a essa juventude ansiosa, sequiosa por mudança. Como é que aconteceu isso?
Arthur Rezende: Isso não foi premeditado não, foi natural. Eu era muito jovem, quer dizer, eu era mais jovem do que sou agora, e o interesse pela música, pelo rock, geração Elvis Presley não é? E de repente estavam me chamando de líder. Não sei do que, mas eu conduzi esse programa, e já em 1961, no início da nova programação da Rádio Brasil Central, o Antônio Porto e o Luiz Rótuli me convidaram para fazer o programa da nova programação da RBC, que naquela época era um emissora que falava para o mundo, era uma coisa fantástica. E lá eu lancei um programa, bem na linha do rock, chamado "A juventude comanda", que ficou no ar durante dez anos. E teve uma fase que a gente apresentou esse programa ao vivo na TV Anhanguera durante cinco anos. Foram dez anos em rádio e cinco na televisão.
Helvécio Cardoso: Arthur, deixa te interromper um pouco para dar um testemunho. Eu era garoto ainda, e assistia a esse "A juventude comanda", e um desses programas mudou a minha vida. Você apresentou lá um conjunto novo que estava surgindo, um bando de cabeludos chamados Beatles. E ai você colocou lá a música "Help". Eu nunca tinha ouvido um negócio desses, fiquei fascinado. A primeira vez que eu vi os Beatles na minha vida foi no seu programa.
Arthur Rezende: E eu também. O que acontece nos EUA hoje nós ficamos sabendo instantaneamente, mas naquela época demorava-se um tempo para as coisas chegarem.
Helvécio Cardoso: Como que o filme "Help" foi parar na sua mão?
Arthur Rezende: Um amigo meu trabalhava numa empresa de cinema recebeu o filme, era como se fosse um documentário, ele me cedeu, eu levei pra TV Anhanguera e aquilo foi um sucesso. Foi algo muito marcante, extraordinário. E aquilo lá foi, digamos assim, o embrião, o início dos clipes de hoje. Hoje os artistas lançam uma música com o clipe, e naquela época, os Beatles, os rapazes cabeludos de Liverpool, lançavam as suas músicas com umas historietas. Eles fizeram alguns filmes também, e "Help" foi a primeira música que eu ouvi deles também.
Helvécio Cardoso: Não tinha nem disco nas lojas ainda. Eu procurei, mas não tinha disco.
Arthur Rezende: Os discos demoravam muito pra chegar.
Antônio Lessa: Eu quero dar um testemunho aqui com relação ao Arthur. A influência do Arthur junto à juventude goianiense a partir da Campininha era tão grande, que passou a disseminar-se por toda a cidade o que nós chamávamos de Soareé dançante aos domingos. E os grupos de jovens pegavam as suas eletrolinhas e levavam pra fazer nas garagens, nas calçadas, você se lembra disso.
Arthur Rezende: Nas salas de visitas também, e a bebida era ponche, vocês se lembram disso? Ou Cuba Libre ou Hi fi.
Carlos Brandão: Arthur, quem te levou pra rádio? Como você foi parar ali?
Arthur Rezende: Brandão, como eu falei, eu era líder e não sabia do quê. Mas ninguém me levou não, eu fui fuçando, querendo, escutava rádio e fui picado pela mosca azul, e de repente eu estava lá na Rádio Difusora querendo falar. E a primeira vez que eu entrei pra falar, eu senti uma emoção tão forte, uma coisa que fervilhava. Era uma coisa vulcânica. E eu tremia as pernas, ficava sem voz. E eu era muito tímido, continuo tímido na verdade, meu signo é peixes e pisciano é muito tímido. O governador Marconi Perillo também é pisciano. E ele acha que se não fosse a política ele seria muito tímido e eu se não fosse a comunicação, seria bicho do mato.
Antônio Lessa: Mas essa sua timidez não ficou revelada naquele show em que um grupo de jovens com você à frente, e eu participei desse grupo com tantos outros, em que você fez uma apresentação extraordinária no programa "Ritmos do Tio Sam".
Arthur Rezende: Bem, aquilo lá, a gente levou alguns grupos que se apresentavam, faziam dublagem. E dessa época de dublagem eu me lembro do Siron Franco, Vander Arantes, o Edvar Rezende, meu irmão, e vários outros. E eu que me meti naquele dia a fazer uma dublagem pra nunca mais!
Carlos Brandão: Naquela época era mais dublagem, não é?
Arthur Rezende: Era só dublagem dos grupos americanos e ingleses, em que o pessoal fazia aquelas micagens, porque era um mico terrível. Posteriormente na TV Anhanguera, já com o programa, iniciamos com dublagem e depois foram aparecendo os grupos e os artistas individuais, como o Vladimir Araújo, que cantava as músicas do Roberto Carlos, o Willian José, que também cantava muito bem, Ângelo Máximo, que cantava músicas italianas, Odair José e tantos outros.
E os grupos musicais, como o Zâmbis, que tinha como integrantes pessoas que hoje são muito conhecidas e bem-sucedidas. O Júnior Câmara, por exemplo, que hoje é o presidente da Organização Jaime Câmara, era o contrabaixista. Luís Fernando Rocha Lima, diretor de jornalismo da Organização Jaime Câmara, era o baterista, e um bom baterista! Tinha também o Cezinha Gordo, que era guitarrista, o Gulliver Leão, diretor da Organização Jaime Câmara que era também guitarrista e vocal, Renato Castelo, que participou durante muito tempo do Jornal de Brasília,e o Antônio Siqueira, que chamávamos de "banana", é psiquiatra e mora também em Brasília.
Então, esses eram os integrantes do Zambis, que era um dos grupos. Mas tinha também outros grupos, como o Esquema Cinco, que era o Cezinha Canêdo, o Mazinho, o Dionísio, o Alberto, O Cidinho Romão, o Rodolfo.
Carlos Brandão: Esses eram os dois grupos mais importantes não é? O Esquema Cinco, e o Zambis?
Arthur Rezende: Sim, e eles rivalizavam muito, inclusive, porque o Zambis fazia as músicas em português e o Esquema Cinco fazia em inglês.
Carlos Brandão: Arthur, tem uma frase que o Roberto Carlos teria dito que "Goiânia é uma fazenda asfaltada". Conta pra gente essa história, como surgiu essa frase?
Arthur Rezende: Pois é. Isso é uma coisa complicada. Uma fofoca aparece e acaba virando verdade. Aquilo foi muito confuso e muito complicado. E claro que todo mundo que conhece a vida do Roberto Carlos sabe que ele jamais falaria uma bobagem dessa, porque afinal de contas ele é um artista consagrado e um artista que vive do público não é? Ele não diria isso nunca. Ainda mais o Roberto Carlos que não se mete em política, não dá palpite em quase nada que vire polêmica, é um cara sério, talentosíssimo, e que gosta muito de Goiânia inclusive.
Naquela época o João de Oliveira que era o divulgador da antiga CBS, Colúmbia, que o Roberto Carlos era contratado, era muito ligado ao Oton Russo que vinha muito aqui, e ele teve que vir pra trazer uma palavra da CBS sobre essa mentira. E eu acabei sendo mais ou menos vítima, mas felizmente a coisa sanou. O próprio Roberto ficou meio "assim" um tempo e depois voltou pra Goiânia. Eu trouxe o Roberto Carlos a Goiânia treze vezes. As primeiras vezes através do Oton Russo, porque os artistas da CBS nós trazíamos todos. A primeira viagem de carreira artística do Jerry Adriani mesmo foi à Goiânia. Nós trazíamos os artistas todos da Jovem Guarda, e o Roberto, especialmente, veio várias vezes.
Então, essa história causou muito trauma, muita indignação da cidade, o que foi uma coisa natural. E até hoje muita gente acredita que o Roberto Carlos falou essa bobagem, o que não é verdade. Não tem nem um pingo de verdade.
Helvécio Cardoso: Você abordou um tema interessante da sua carreira profissional, visto que durante um tempo você foi um promotor de eventos. Em uma época em que o Teatro Goiânia praticamente não existia, era um cinema abandonado, nós praticamente não tínhamos espaço para shows e espetáculos, e você empresariou muitos shows, você trouxe muitos artistas de alto nível pra Goiânia. Fale um pouco sobre isso. Quem além do Roberto Carlos você trouxe?
Arthur Rezende: Naquela época os clubes prevaleciam. Como não tinham os grandes teatros, e casas de espetáculos, os clubes prevaleciam. O clube Jaó, o Jóquei, o Oásis, o clube já extinto Balneário Meia Ponte, e também o Goiânia Tenis Clube, da Campininha, no Setor Coimbra e que também hoje não existe mais. Esses clubes monopolizavam a vinda dos artistas empresariados por mim, e por outros também.
O Selem Domingues, que também era um grande empresário da época, e eu me associei a ele. Ele trazia artistas mais da velha guarda e eu trazia da jovem guarda, os mais jovens, que estavam aparecendo nas paradas de sucesso. Eu trouxe muitos artistas, fora os da jovem guarda que era o Roberto Carlos, Vanderleia, Erasmo Carlos, Renato e seus Blue Caps, Vanderlei Cardoso, Eduardo Araújo, todos esses artistas a gente trazia. E tinham outros que acabavam vindo também, como a Orquestra do Ray Coniff, a Orquestra do Billy Vaghn, Johnny Mathis. A única apresentação dele na vida aqui em Goiânia foi no Jóquei Clube, e tantos artistas brasileiros famosos.
Trouxe para o Goiás Esporte Clube o então presidente Melchior Duarte..., e me contratavam, eu como vilanovense, mas ele confiava no meu discernimento, na minha honestidade. Ele me contratou e eu trouxe vários artistas, como o próprio Roberto Carlos, o Chico Anísio, Roberto, três vezes, trouxe um show espetacular da Elis Regina com o Wilson Simonal. Trouxe o Chico Anísio algumas vezes, o Sargentelli com um belo espetáculo também.
Então, a gente trazia muitos shows pra cidade, o que a cidade quase não tinha porque era só televisão, e também a época em que não era TV ao vivo, era TV através dos vídeo tapes. As novelas inclusive acabavam no Rio ou em São Paulo e um mês depois ainda passavam aqui. Não terminava lá e aqui ao mesmo tempo. Então eu trouxe muitos artistas daquela época, muitos grupos, artistas de baile, como o Jorge Benjor, por exemplo.
Carlos Brandão: Você ganhou dinheiro com isso?
Antônio Lessa: Boa pergunta!
Arthur Rezende: Quando os artistas eram contratados pelos clubes a gente ganhava dinheiro e na pecuária também. Eu trouxe o Chacrinha com as chacretes para a pecuária de Goiânia várias vezes. Tinha o contratante que nos pagava. Às vezes a gente se metia também a promover o show, ai eu trouxe também o Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Betânia, Gilberto Gil. Mas quando a gente se metia a fazer o show, as vezes ganhávamos muito dinheiro e as vezes não. Aí perdíamos.
Um dos grandes shows que Goiânia teve foi dos Trapalhões no Estádio Olímpico, para os formandos de uma faculdade. Os formandos tinham muito isso, de contratar artistas para arrecadar fundos para a sua formatura. Foram os formandos de medicina da época que nos contrataram e a gente trouxe os Trapalhões. Eu me lembro que o Estádio Olímpico não cabia de tão cheio de crianças, pais, mães, era aquela confusão. E eu me lembro de lá na bilheteria ele acertar com a gente, eram assim, sacos de dinheiro para pagar os Trapalhões, pra me pagar, e pra pagar a formatura deles. Eles fizeram a formatura deles com aquele show dos Trapalhões.
Helvécio Cardoso: existem alguns boatos na cidade, que sempre correram por ai. Dois deles sempre despertaram a minha curiosidade. Você foi muito amigo do grande compositor Antônio Adolfo. Você o trouxe para o Comunica-som várias vezes não é? Depois vamos falar do Comunica-som. Mas dizem que o Antônio Adolfo em uma de suas vindas a Goiânia, arrumou uma namorada e depois não saía mais aqui de Goiânia, ficava aqui sempre. Isso é verdade? Como é que aconteceu essa história?
Arthur Rezende: Bem, não foi o Adolfo não, foi o Tibério Gaspar, que era barbudo, gordo, mas tinha uma lábia... como tem até hoje. E ele ficou muito mais bonito depois que ficou velho. Aliás, o Caetano Veloso também. Quem se lembra do Caetano Veloso da época dos festivais da Record, da época do "Alegria alegria", ele era um palito.
Carlos Brandão: Era só cabelo e osso não é?
Arthur Rezende: Nossa, ele era um palito e feio pra chuchu. O Caetano Veloso ficou um senhor bonito.
Helvécio Cardoso: Fina estampa.
Arthur Rezende: E o Tibério aspar hoje é um cara simpático, bonitão. E ele era feio pra chuchu, mas ele acabou namorando aqui com uma moça, filha de um casal muito querido, um médico e uma senhora da sociedade. Ele acabou namorando com ela, e como diríamos lá no interior, ele "se arranchou" aqui em Goiânia, e não saía mais.
Helvécio Cardoso: Mas ele não casou com ela não?
Arthur Rezende: Não, não casou.
Helvécio Cardoso: Tem um outro boato que corre por ai e que eu quero que você esclareça. Tem um bairro em Goiânia, que hoje se chama Setor Centro-Oeste, e que se chamava antigamente Vila Operária...
Arthur Rezende: Eu morava nesse setor.
Helvécio Cardoso: E você morava na Vila Operária, e quando o setor mudou de nome, começaram a dizer que você usou a sua influência de jornalista pra fazer a Câmara Municipal aprovar a lei que mudava o nome do setor. Esse é o momento de você esclarecer pro povo e desmentir esse boato.
Arthur Rezende: Desse boato eu não sabia, estou sabendo agora.
Antônio Lessa: Deixem-me fazer um registro aqui. A Vila Operária, hoje Setor Centro Oeste, foi berço do Stepan Nercessian, que está na Globo até hoje.
Arthur Rezende: Ele era vizinho nosso lá. (cantando) "Na Vila Operária tem um bar que se chama Liberdade..." Essa música é do Renato Castelo.
Antônio Lessa: Naquela região surgiu também o Zezé de Camargo e Luciano, sabia?
Arthur Rezende: Então, o Stepan era um moleque travesso... nossa, ele era terrível! A irmã dele que hoje é escritora...
Antônio Lessa: Que foi namorada do Péricles de Moura.
Arthur Rezende: Sim, mas no Rio ela se casou com o cineasta Domingo Xavier. E ela já viajou o mundo inteiro, ela tem uma ONG da área cultural, de fazer contatos de fora pra cá e daqui pra fora. Ela é uma pessoa espetacular. Mas então, o Stepan era um molecão, brincalhão, e ele participava do meu programa na televisão. Eu tinha uma gincana e ele corria, ia de bicicleta levar as coisas que eu pedia. E depois eu ficava com muita pena dele, porque ele morava longe não é? A TV Anhanguera era aqui no Centro e ele morava na Vila Operária não é? Uma vez eu dei um prêmio pra ele, no segundo lugar, prêmio de consolação.
Então, essa história da Vila Operária ter mudado de nome por minha influência é absolutamente inverídica. Quem propôs foi um vereador, eu gostava muito dele inclusive, era vizinho, mas me fugiu o nome dele agora. Sei que o sobrenome dele era Sousa. Eu acho que nessa época eu tinha até me casado e mudado de lá. Então, isso não tem fundamento. Eu até hoje chamo o setor de Vila Operária e pronto.
Carlos Brandão: Você já chegou a cantar ou a fazer parte de algum grupo de música? Ou você nunca mexeu com isso?
Arthur Rezende: Brandão, eu desafino até aplaudindo. Sou péssimo. Eu gosto muito de música, quando tem uma turma cantando eu até me atrevo, mas sozinho jamais, nem no banheiro. Então eu nunca me enveredei. A história do Comunica-som, que vamos falar mais tarde começou quando eu resolvi fazer uma apresentação de dublagem, a primeira e a última, no Festival Universitário, que foi a minha incursão pela música, no Cine Teatro Goiânia, em 1969, que foi quando a ideia do Comunica-som, do festival secundarista nasceu.
Helvécio Cardoso: Arthur, depois de toda essa sua andança pelo rádio, programas para a juventude na televisão, você, disk jóquei, você acabou aparecendo nas páginas do O popular como colunista social, onde está até hoje. Lá se vão mais de trinta ou quarenta anos de colunismo social. Mas dizem por ai que você cobra para colocar notinhas na sua coluna, isso é verdade? E quanto é que se paga?
Arthur Rezende: Olha, se eu cobrasse, eu seria hoje um cara abastado, não é? Eu seria bastante rico, porque o jornal O popular tem muita penetração, é o líder regionalmente, e eu ficaria muito rico se eu cobrasse. Eu tenho uma frase, inclusive, que eu cunhei já há muito tempo, já há alguns anos e que eu sempre falo, porque a coluna não é comercializada, e muita gente interpreta, pensa, imagina, e até pergunta quanto que cobra pra dar uma nota, pra publicar uma foto. E eu respondo assim: "O que sai da coluna é de graça, o que não sai, nem pagando". E eu vou vivendo muito bem assim.
Helvécio Cardoso: Como é que foi essa história de você virar colunista social? Você saiu da música, do rádio e foi ser colunista social. Como aconteceu isso?
Arthur Rezende: Bom, eu tive uma passagem também por agências de publicidade. Eu fui sócio de algumas em Goiânia, também tive alguns sócios. Maurício Kratz foi um deles; o Nando, o Luís Fernando Rocha Lima foi meu sócio na RBA, como o Paulo Grampola, que todo mundo aqui conheceu. Ele fez uma meia revolução aqui na cidade de Goiânia. Ele era muito conhecido. E eu tive outros sócios, participei de algumas agências. E daí para o jornal, como eu gostava também de escrever, eu fazia no O popular uma coluna chamada Informe Artístico, que era voltada ao meio artístico, e era em baixo da coluna do Lourival. E ai com a saída dele, o Domiciano de Faria, o então diretor, com a dona Célia Câmara, e o Mazinho que estava substituindo o Lourival, me chamaram e eu comecei. Isso foi no dia 4 de novembro de 1973, então lá se vão 38 anos não é?
Antônio Lessa: Quando o Helvécio falou que foi por volta de 40 anos, eu confesso que tive um impacto, porque eu pensava que fosse uns 26 ou 30. Isso porque os meus 71 me levam a esse impacto de vez em quando, quando eu encontro um contemporâneo.
Arthur Rezende: E eu tenho 38 anos de casado também. Aliás, nós estamos gravando aqui nesse dia 4 de julho não é? Estou fazendo 38 anos de casado, e bem casado.
Carlos Brandão: Você como colunista é um grande sucesso do colunismo social em Goiás, sem dúvida. E você tem uma revista e um programa de televisão em que você faz isso, você conta a história da sociedade goiana, tem uma agenda. Fale um pouco sobre essa ação toda.
Arthur Rezende: Então, como aqui em Goiás a gente tem que chupar cana e assoviar ao mesmo tempo, a gente acaba diversificando também, não é? A revista Applauso já tem 12 anos, junto com o Rogério e com a Marli Munis.
Carlos Brandão: Rogério é o seu filho não é?
Arthur Rezende: Isso, ele é o diretor. A revista tem duas capas, uma de cada lado. É só virar e pronto.
Antônio Lessa: Bem bolado.
Arthur Rezende: E tem também o programa Applauso, que já tem 8 anos, e em setembro a gente chega a marca dos 9 anos. Também cobre eventos sociais e empresariais.
Helvécio Cardoso: Bom, você estava em O popular todos os dias, mas agora parece que é só uma vez por semana.
Arthur Rezende: Então, com a saída do Lourival, eu passei a escrever a coluna dele, que era diariamente. Foram 28 anos. E há 10 anos eu me tornei o colunista de domingo. Inicialmente eu fiquei meio chateado, porque saí de uma batalha diária para uma semanal. Mas pra mim foi a melhor coisa que já me aconteceu, eu passei a ter uma melhor qualidade de vida, mais tempo para os meus amigos, para a minha família, até pra pescar e viajar também. Isso porque com a coluna diária você fica muito preso, inclusive a respeito de horário.
Antônio Lessa: Arthur, de todos esses empreendimentos que você assumiu em Goiás, e agora perante a sociedade, você tem uma marca que ficou cunhada na própria sociedade goiana, que é o evento que você promove todos os anos, e edita o livro Sociedade Goiana. Como é que isso funciona? E como é que você chegou ao ponto de estabelecer uma marca própria na sociedade? Marca esta que é referência para quem se interessa pela sociedade como um todo.
Arthur Rezende: Bom, a agência Sociedade Goiana é editada de 18 em 18 meses, ou seja, de um ano e meio em um ano e meio. Acabei de lançar uma agora em maio, você inclusive participou da festa no clube Jaó, no Soul Music Hall. E agora em outubro do ano que vem será lançada a décima quarta edição. Essa é uma agenda que destaca pessoas.
Nós segmentamos pessoas de várias atividades, pessoas que vivem e convivem em sociedade, e selecionamos. Não são todas as pessoas boas em sociedade que estão lá, mas a gente faz o máximo pra que em toda edição englobe o máximo possível. Retiramos alguns por alguns motivos, como mudança, morte, ou passaram pra página policial (risos) etc, e a gente convida outros. Hoje em dia a gente não pode por a mão no fogo por ninguém. E então nós colocamos esses convidados.
E então essa agenda se tornou uma bíblia, modéstia a parte, uma bíblia de eventos sociais, empresariais e até políticos. O governador Marconi Perillo uma vez me disse que nas suas primeiras campanhas ele utilizou muito a agenda pra fazer contatos, para fazer os seus comunicados e etc. Essa é uma agenda muito boa, fala de quem vai casar uma filha, quem vai inaugurar uma loja, e ela é muito procurada por isso também.
Carlos Brandão: Você é sucesso onde você se mete não é? Como líder de juventude, como publicitário, como jornalista, etc. Nunca nenhum partido político "namorou" você pra ser candidato a algum cargo?
Arthur Rezende: Brandão, quando o Lessa disse que eu me tornei um líder daquela época da juventude, já naquela época o prefeito Íris Rezende me convidou para ser candidato a vereador. Mas isso é uma coisa que nunca me emocionou. Eu nunca tive vontade. Pra ser político você tem que ter vontade. Eu sou um político natural, todos nós somos seres humanos políticos não é? Temos uma política em casa, com os amigos e etc. Mas a política partidária realmente nunca me emocionou. Já fui convidado para ser candidato a deputado, mas eu acho que essa não é a minha praia.
Helvécio Cardoso: Muito bem. Nós vamos agora no melhor da festa. O Arthur Rezende há quarenta anos atrás criou o Comunica-som, que foi um dos eventos culturais mais importantes do estado de Goiás dos últimos anos, das últimas décadas. Um evento que revelou músicos extraordinários, e praticamente inventou a música popular brasileira feita em Goiás, como gosta de dizer o Brandão. Arthur, como é que começou esse negócio de Comunica-som? Conte para nós como apareceu isso.
Arthur Rezende: Foi numa noite dramática, eu posso dizer, porque lá estava eu na plateia do então cine teatro Goiânia no Festival Universitário, assistindo a Maria das Graças, cantora da televisão de época, uma loirinha que cantava muito bem. Ela estava cantando uma música que era uma parceria do Carlos Nobre, que cantava muito parecido com o Nelson Gonçalves, ele tinha uma música, fizemos uma parceria e eu virei coautor dessa música. E a plateia toda vaiando, jogando papel, pipoca e maçã podre na coitadinha da Maria das Graças. E eu morrendo de vergonha e de raiva pensando o que é que eu fui fazer, pra que eu fui me meter nessa.
E então chegou um camarada, o Cícero, e disse que queria conversar comigo, porque ele estava com uma ideia de fazer um festival para os estudantes secundaristas, em escolas. E eu virei pra ele e disse: "Rapaz, mas você não desconfia não? Eu estou sendo vaiado lá no palco e você vem com uma história dessas?" A nossa primeira conversa foi assim. E então ele disse: "Não, vamos conversar, me deixa terminar", e ai quando terminou aquela noite terrível, fatídica, a música não foi classificada, e eu morrendo de vergonha da Maria das Graças, porque eu que tinha convidado ela pra cantar, e com vergonha até de pessoas amigas que estavam lá na plateia. Até eu estava com vontade de vaiar, se você quer saber, de tanta raiva que eu estava.
Então a gente saiu, fomos pra um boteco (jornalista gosta muito de boteco não é Lessa?), e lá a gente conversou, eu acalmei. Passaram-se uns dias e ele me procurou novamente, e a gente começou. O boteco era o Zé latinhas, famoso aqui no Centro, frequentado pela boemia.
Helvécio Cardoso: E existe até hoje.
Antônio Lessa: Muitos dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Então, se não acontecesse o que aconteceu com você e sua música, talvez não existisse o Comunica-som.
Arthur Rezende: Pois é, quem sabe não é? E então eu resolvi chamar o Mazinho, que é músico e um bom jornalista, e disse que eu tinha o Cícero estava querendo fazer um festival pra garotada. E tinha o CPG, que era o Centro dos Professores de Goiás, e o Bernardino Granja era o presidente. E ai a gente procurou o Bernardino pra ver se ele dava um apoio, pra gente ter assim uma referência, porque só eu, o Mazinho e o Cícero, nós não íamos a lugar nenhum.
E então nós procuramos o CPG e o Bernardino encampou a ideia. Através do CPG nós entramos em contato com as escolas, e a gente percebeu que foi como um rastilho de pólvora, e todo mundo pegou fogo com aquela ideia. O primeiro festival foi uma coisa que surpreendeu. Foi em 1971 e com o apoio também do Domiciano de Faria, que era Diretor do Departamento Estadual de Cultura, da Secretaria Estadual de Educação, e era o Hélio Mauro o seu secretário. Eles nos deram apoio, e nós fizemos o segundo, o terceiro, o quarto... na época do Leonino Caiado governador, e todos no Cine Teatro Goiânia. E foi um sucesso a cada ano. E dali pra frente nós chegamos ao último que foi em 1985 .
Carlos Brandão: O Comunica-som foi um exemplo pro Estado de Goiás, visto que festivais de música eram uma coisa necessária naquela época, e que englobou muita gente. Eu queria que você citasse alguns festivais que vieram depois do Comunica-Som e que até se espelharam no Comunica-som. E gostaria que você citasse também alguns artistas que hoje estão na ativa em todo o Brasil.
Arthur Rezende: Então em 1961 foi o primeiro. Revelamos durante esse período, até 1985, nomes como João Caetano, Marcelo Barra, Fernando Perillo, Juraíldes e o Braguinha, Lucas Faria, Pádua e tantos outros. Eu acho que a maioria ainda vive de música. O João Caetano, que foi uma das estrelas do Comunica-som nem tanto porque ele é médico, e ele não vive basicamente de música, mas vive de música também. E os outros todos que eu citei entraram na vida noturna, fizeram shows etc e tal.
Naquela época uma coisa interessante era que não tinha essa música de barzinho. Foi a partir do festival que os barzinhos começaram a contratar essa moçada que de repente começaram a animar as noites nos botecos da cidade, o que era uma coisa interessante.
E uma outra coisa também, que nos dava muito prazer era que os colégios faziam as suas prévias. Tinham alguns participantes pra escolher duas músicas pra cada colégio. Tinha colégio que tinha 10 ou 12 concorrentes, pra escolher dois. Isso já era uma festa interna no colégio, e acabou vazando para o interior. O Mazinho mesmo participo de várias prévias em Catalão, Pires do Rio, e tinham outras cidades que faziam as suas prévias pra trazer os seus colégios a Goiânia.
Era uma coisa interessante e eu acho que a gente cumpriu uma missão, que foi revelar esses artistas, trazendo de fora do eixo Rio-São Paulo os editores de música, compositores, diretores de gravadoras, jornalistas e até atores pra conhecer aquilo que era feito aqui em Goiás. Alguns deles, inclusive, ficaram muito amigos dos nossos artistas. E alguns deles tiveram até a chance de ir pra fora.
Carlos Brandão: Arthur, se defenda, porque eu acho que você tem o direito de se defender. Quem perdia sempre falava que os que ganharam compraram o júri. Você tem uma frase pra isso, que eu sei. Como eram essas acusações bobas?
Arthur Rezende: Talento é talento não é? E muitas vezes acabavam ganhando sempre os mesmos, mudavam só as posições, com algumas raras exceções. Os ganhadores sempre ficavam naquele grupo e ai aconteciam essas histórias, de que o festival beneficiava esse ou aquele artista. Teve um dos festivais, não me lembro qual, que teve uma revolução interna entre os compositores, que estavam querendo boicotar o evento. Eles estavam acusando nós da organização de ter muita proximidade com determinados artistas, com determinados compositores que estavam concorrendo.
Ai eu me lembro de falar pro Mazinho reunir todo mundo na porta do teatro, na escadaria do teatro. Eu fiquei na parte de cima com o Mazinho, eles ficaram na parte de baixo e a gente falou. Eu fui muito duro com eles. Eu falei mais ou menos assim: "Está acontecendo aqui uma insatisfação porque nós estamos ligados a determinados artistas. Vocês estão achando que nós temos ligação com esse ou aquele artista porque os pais deles estão levando para nós os compositores, artistas, diretores de gravadoras para o hotel, do hotel para restaurantes ou para o aeroporto. Mas eu gostaria que vocês que têm pais que possuem carros, fizessem isso pra gente também. Nós não temos carro. Não podemos ficar pagando táxi pra lá e pra cá. Quem puder ajudar, será muito bem vindo". E então acabou a revolução.
Antônio Lessa: Arthur, eu quero abordar um assunto que temos discutido recentemente. Eu entendo que o Comunica-som teve importância fundamental nessa mudança comportamental dos nossos compositores e músicos em geral e também os intérpretes. Goiás, a partir de então, passou a ter uma posição nacional nesse contexto artístico brasileiro. Não seria o caso do governo do Estado, no caso o governador Marconi Perillo, entenderem que Goiás está vivendo um momento importante nessa área. O Brasil todo está voltado para Goiás desde a música sertaneja, a música popular.
Arthur Rezende: Você fala pra que se possa voltar a fazer festivais como esse?
Antônio Lessa: Exatamente. Isso faz parte da história e da cultura do povo goiano. Eu considero essa sua vinda aqui oportuna pra podermos levantar essa questão, no sentido de que o governo do estado e a prefeitura assumam isso, porque não pode ser perdido.
Helvécio Cardoso: Vou aproveitar a deixa pra perguntar: Porque que o Comunica-som acabou?
Arthur Rezende: Eu acho que cansamos. Foi um cenário diferente, as coisas começaram a mudar pela própria tecnologia, pela internet, pelo computador, por telefone celular, quer dizer. As coisas mudam, e as coisas mudaram muito. E então acabou. Mas a ideia de se fazer alguma coisa pra agasalhar essa moçara que está ai e que não tem oportunidade é boa. Da parte que nos toca, nós estamos querendo fazer agora uma festa comemorando os 40 anos do primeiro festival que foi em 1971. Estamos em 2011, então são 40 anos. O Brandão participou do Comunica-som. Fala pra gente Brandão, como foi a sua participação.
Carlos Brandão: eu cantei uma música em 1972, Logos e diálogos, e tirei o segundo lugar.
Arthur Rezende: Como era a música?
Helvécio Cardoso: Dá uma palinha ai.
Carlos Brandão: Não, eu não me lembro.
Helvécio Cardoso: Aliás, apenas para esclarecer para os nossos internautas e leitores do Jornal da Imprensa: o Carlos Brandão, além de ser nosso colunista, é também um dos maiores compositores do estado de Goiás.
Arthur Rezende: Tem muitas músicas gravadas.
Helvécio Cardoso: Muitas músicas que fazem sucesso ai na voz de excelentes cantores goianos. Está feito o registro.
Carlos Brandão: Voltando ao Comunica-som, teve a noite das garrafadas. Explica isso pra gente. Como foi isso?
Arthur Rezende: Essa noite foi histórica também. Eu não me lembro em que ano foi, se o Mazinho estivesse aqui ele saberia, porque ele tem uma memória melhor. Foi uma noite terrível. Aconteceu n ginásio da Vila Canaã. Fo uma grande festa.
As torcidas também ganhavam prêmios, justamente pra ter aquele comportamento, pra vibrarem e tal. Tinha um troféu pra melhor torcida da noite. Naquela época o Colégio Objetivo e o Colégio Carlos Chagas eram antagônicos, eram rivais. E então, de repente começaram, um do lado e outro do outro a jogar garrafas. Eu não sei de onde surgiu tanta garrafa. E eu fiquei louco lá no palco, sem saber, não sabia nem o que falar. Eu fiquei pasmo.
Aí o Stepan Nercessian teve a grande ideia. Pegou o microfone e gritou para eles se acalmarem. E ai teve um policial que deu um tiro pra cima. Aí o Stepan acalmou todo mundo e inclusive o policial que deu só um tiro pra cima. E ai todos se acalmaram. No fim, o policial foi até elogiado, porque foi ele quem fez todos se acalmarem. Ninguém saiu ferido e nem nada. E essa noite foi épica.
Helvécio Cardoso: E aquela história da briga do Eduardo Jordão, que foi membro do júri e eles tiveram um desentendimento? Saiu até pancadaria.
Arthur Rezende: Ah, essa história também foi muito engraçada. É necessário explicar. O júri local fazia a peneira, eram vários dias o festival, e durante aqueles dias o júri local selecionava as músicas para a semifinal, e a final. E o Jordão fazia parte do júri local. Ele é jornalista e acho que é até compositor também.
Ele participou um dia e jogou as coisas pra cima e ninguém entendeu porque. Essa foi a primeira vez que eu vi alguém "rodar a baiana" (no bom sentido), por uma música que ele não queria que fosse classificada. Normalmente há brigas pra músicas serem classificadas. E a música lá foi classificada, ele não queria e ficou possesso. Tivemos que acalmá-lo e tudo, e acabou ficando nisso.
Helvécio Cardoso: Naquela época o grande problema era a infraestrutura.
Arthur Rezende: infraestrutura e apoios.
Helvécio Cardoso: O Teatro Goiânia não era um local muito adequado, mas mesmo assim você contava com o apoio por exemplo do maestro Oscar Lino, que conduzia a orquestra, fazia os arranjos.
Arthur Rezende: Pra ajudar os compositores não é? Os compositores aprenderam muito com ele. Tínhamos o apoio da antiga Suplan, hoje é Emop, que nos ajudavam a fazer o palco, o cenário, a gente precisava desse apoio. O Ciro ?, de saudosa memória, dono da pousada do Rio Quente (hoje Rio quente Resorts), ele nos ajudava muito porque a gente levava o júri de fora pra passar o dia na pousada, e era uma coisa maravilhosa. Eles adoravam. Isso era uma premiação pra eles. A gente contava com muitos apoios.
Helvécio Cardoso: A sociedade se envolvia nisso, não é?
Arthur Rezende: Isso. Os pais, quantas pessoas falavam: "Arthur e Mazinho, vocês estão fazendo uma coisa importante para a cidade e importante para nós, pais, porque os nossos filhos hoje estão envolvidos com a música". E isso era uma coisa importante. É claro que eles não sabiam que a gente bebia muito também.
Antônio Lessa: Segundo as suas observações, hoje Goiânia não tem a falta de locais, de espaço para um festival acontecer.
Arthur Rezende: É, eu acho que se o governador Marconi e o prefeito Paulo Garcia se interessarem, eu acho que tem um jeito de eles se reunirem, pegar até os nossos artistas e colocarem eles no júri, pra eles ajudarem os mais novos, e eu acho que poderíamos dar oportunidade para os novos talentos sim.
Carlos Brandão: Arthur, fala pra gente dessa festa de 40 anos do Comunica-som. Você quer fazer no Niemayer e parece que em outro local. Explica pra gente.
Arthur Rezende: A ideia é fazer no Niemayer no dia 21 de outubro uma grande festa. Nós não sabemos ainda como vai ser, mas os principais que ganharam estariam no palco, e a gente faria uma grande festa, convidar muita gente, e comemorar os 40 anos do Comunica-som. E através do Rinaldo Barra, que tem um estúdio, gravaríamos um cd, quem sabe até um dvd pra formatar isso e deixar pra história o festival Comunica-som, que só teve um Lp gravado naquela época, um vinil, e o João Caetano que gravou também um compacto. E também o Marcelo Barra que teve a música "Araguaia" gravada pela Fafá de Belém.
Além disso eu soube de outros interessados, como Shopping Flamboyant, que estaria interessado em fazer um evento lá. E então a gente vai estudar isso.
Helvécio Cardoso: Bem, estamos chegando no fim da entrevista. Arthur, você gostaria de acrescentar mais alguma coisa? Algo que poderíamos ter perguntado e não perguntamos? Fique a vontade.
Artur Rezende: Falamos a beça não foi? Mas eu estou satisfeito, espero que vocês que estão nos assistindo e lendo tenham gostado dessas histórias. Falamos muito sobre a jovem guarda, A Juventude Comanda, sobre a minha vida como profissional da coluna social, a agenda da sociedade goiana, a revista, o programa Applauso e o Comunica-som. Acho que é isso aí. Faltou dizer que eu sou vilanovense sofredor, e sou flamenguista também.
Helvécio Cardoso: Vamos pular essa parte. Eu também sou vilanovense, mas vamos esquecer essa parte mais triste da entrevista. Bom, nós vamos ficando por aqui, agradecemos ao Artur por ter atendido ao nosso convite, agradeço também ao Brandão e ao Lessa que participaram aqui com a gente, e até a próxima.
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