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Cobrança indevida

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09/07/2011 - .

Não se cobra de quem não deve. O governo da União não tem obrigação nenhuma de salvar a Celg da débâcle financeira a que ela chegou por obra exclusiva dos goianos que a dirigiram nos últimos anos. Não foi o governo federal, nem particularmente a Eletrobrás, que prejudicaram a Celg. Foram os goianos que a dirigiram nos últimos anos. Todos os governos lesaram a Celg, exceto o de Alcides Rodrigues. Esta é uma verdade que não poderá jamais ser calada.

 

Não ajuda a solução para o problema da Celg a cobrança que o governador Marconi Perillo fez, semana passada, ao governo federal. Verdade é que a cobrança, com um viés de queixa e de protesto, foi verbalizada em termos elevados, com o uso de palavras educadas, como convêm a uma alta autoridade. Mesmo assim, a crítica não procede e não tem pertinência.

 

O governador Marconi Perillo deveria, quem sabe, refletir sobre o comportamento que adotou em relação à Celg, nos últimos tempos, e proceder a uma autocrítica. Talvez percebesse que ele também é parte do problema. Uma reflexão que o leve a compreender com lucidez a natureza política da questão. A partir desta compreensão, re-elaborar sua estratégia.

 

É preciso aceitar os fatos como eles são. A vida é cruel. Dirigentes da Eletrobrás já deixaram claro que o negócio com a Celg não é algo vantajoso. Ela tem pouco a ganhar. Do ponto de vista comercial, para a Eletrobrás tanto faz a Celg quebrar como se recuperar.

 

Durante quatro anos, Alcides negociou com o Governo Federal uma solução para a Celg. Foi uma negociação difícil, mas, afinal, concluída. No exato momento em que seria implementada, o então senador Marconi Perillo, governador eleito de Goiás, interferiu no caso de modo a impedir que os empréstimos fossem liberados. Não o acusamos. Apenas relembramos um fato que o próprio governador já admitiu publicamente, de forma até jactanciosa.

 

Essa intervenção acabou prejudicando o Estado e criando dificuldades para o governo do próprio Marconi. Dificuldades que ele, no entanto, prefere atribuir ao "governo anterior".
 

 

À época, de uma maneira soberba, o governador eleito alegava que tinha alternativa melhor para a Celg, o tal "Plano B". Hoje, seis meses depois, vê-se que o "plano B" era uma quimera, ilusão à toa. Tanto isso é verdade que, hoje, o governo goiano se volta para o governo federal esperançoso de encontrar ali a salvação.

 

O governador Marconi Perillo quer saber se o negócio feito com Alcides ainda está de pé. Ocorre que não está. O negócio feito com Alcides foi bancado pelo presidente Lula. Foi graças a empenho pessoal de Lula que alguns entraves técnicos foram superados. Era uma questão acima de tudo política, e política se faz com base em confiança recíproca. O presidente Lula assumiu com Alcides, em praça pública, o compromisso de soerguer a Celg. Prometeu e cumpriu. Se a coisa não chegou a bom termo, não foi por culpa dele. Nem por culpa de Alcides.

 

Agora é irrelevante procurar culpados. Há que se buscar solução para o problema. Como o próprio governador Marconi afirmou na semana passada, existe boa vontade por parte do governo federal. Então, não convém desnaturar esta boa vontade com declarações impensadas.

 

O governador insinuou que estaria havendo ingerências políticas para atrapalhar o negócio. Quem estaria trabalhando contra os interesses de Goiás? O próprio Marconi afirma não ter provas. Se não tem provas, deveria abster-se de manifestações que em nada vão contribuir para superar os problemas. Quando tiver as provas, acuse, e dê nome aos bois, e conte com o apoio deste Jornal da Imprensa.

 

Sabemos das dificuldades que o governador Marconi Perillo vem encontrando para obter tratamento especial em Brasília. Seria ótimo para Goiás se Dilma Roussef dispensasse a Marconi o mesmo tipo de atenção preferencial que Lula dedicou a Alcides - algo mais além do prosaico "relacionamento institucional". Para tanto, é preciso tato e habilidades diplomáticas. É preciso paciência e é preciso saber cultivar a relação. É preciso, sobretudo, restaurar a confiança perdida. O governo federal não confia em Marconi. E Marconi, pelo visto, não confia no governo federal. É uma verdade doída, mas que precisa ser dita. Ninguém constrói uma relação baseada em confiança mútua fazendo declarações que reforçam a desconfiança.

 

Sejamos realistas, ainda que isso possa ferir nosso orgulho de goianos. Apenas cortesia e favor a Eletrobrás colocará dinheiro de seus acionistas num negócio sem atrativo comercial e cuja única finalidade será salvar a Celg, e não por necessidade sua. Sendo assim, tenhamos claro que favor a gente pede, a gente não exige; depois agradece, e não apenas passa recibo.
 

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