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Wood Allen em Paris

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13/07/2011 - Efraim Mellara

O mundo perde um cineasta e o departamento de turismo ganha um genial funcionário

(Paris) O mundo perdeu seu mais importante cineasta. E o departamento de turismo da cidade mais visitada do planeta ganhou seu mais brilhante empregado. Assim poderia ser resumido o resultado do último filme de Woody Allen, "Meia-noite em Paris". A mais popular revista dos EUA sobre cinema publicou na última semana uma relação dos mais importantes vinte e cinco cineastas vivos. Não incluiu o nome de Woody Allen. Recebeu uma chuva de protestos. Mas Woody não precisa de listas.

 

Que cineasta conseguiu construir uma filmografia própria de mais de quarenta títulos fora de Hollywood, sem fazer grandes concessões, sem abrir mão de ser o galã, mesmo baixo, tímido, gago e vesgo? Que cineasta conseguiu inverter a lógica da apologia aos "vencedores", aos "fortes", aos super heróis do stablishment, levando para as telas assaltante trapalhão, neuróticos diversos, derrotados de todos os matizes? Quem inventou o ser humano no cinema, sem as dentaduras falsas, as perucas, as poses ensaiadas? Quem pode se dar ao luxo de ter os maiores nomes de Hollywood, de diversas gerações, à espera de um convite para trabalhar, até de graça? Que cineasta tem uma estatua em tamanho natural na cidade de Orviedo, Espanha? Qual cineasta hoje, em fim de vida que pode ser esticada até os cem anos, pode se dar ao luxo de ver as Cidades mais belas do mundo disputando para ser cenário de um seu próximo filme do ano?

 

Woody Allen é o Shakespeare do cinema. Os meios ambientes cultivam uma profunda inveja daqueles anormais que conseguem escapar do fatalismo (a dependência dos estúdios de Hollywood), de um certo condicionamento estético e físico, das regras do jogo e, ainda, sobreviver, acumular respeito ao longo do tempo em todos os espaços onde conseguem chegar. Woody Allen é este cineasta anormal. Sempre me questiono sobre verdades que repito. Ao assistir ontem um documentário sobre a vida e a obra de Stanley Kubrick, me questionava: por qual motivo tenho que acreditar que Woody Allen é o mais importante realizador, para utilizar a palavra francesa, do cinema? Eu assistia a apologia ao trabalho de Kubrick até o momento em que em uma entrevista ele cita Woody Allen. Ele já morreu. Woody Allen filmou ano passado em Paris, filma este ano em Roma. E até o Rio de Janeiro faz um lobby para ser cenário de um filme de Woody Allen. Virou uma espécie de Copa do Mundo.

 

Quando Woody Allen estava filmando aqui seu "Meia Noite em Paris", eu e o amigo Gerho Brasile, de Brasília, que passava uns dias na cidade, fomos ao Bristol Hotel para falar com ele. No meio do caminho, tive uma diarréia, corri para um parque. Cheguei alguns minutos depois e a recepcionista disse: "ele acabou de sair". Acompanho o jovem septuagenário cineasta desde os anos setenta. E encontrá-lo na cidade, em que sonhava viver desde aquela época, seria um daqueles momentos raros que, de tão raro, não aconteceu.

 

Mas o filme "Meia-noite em Paris" de Woody Allen é a mais bela, a mais eficaz propaganda de turismo já realizada no mundo. A sua Paris anda nas margens do rio Sena, se hospeda no Bristol Hotel, o mesmo em que ele ficou e que usa na historia;a sua Paris parou nos anos vinte, a sua Paris exibe os cartões postais badalados e conhecidos de todo o mundo. Para quem conhece a cidade e um pouco da historia da cultura dos séculos XIX e XX, o filme é um festival de clichês. Para os que ignoram a cidade e a cultura daqueles dois séculos, pode ser um "não entendi muita coisa" ou uma abertura para grandes descobertas.

 

O filme de Woody Allen passa longe da Paris que é o mais extraordinário laboratório da humanidade, onde convivem desde a elite de um sofisticado capitalismo, até os trabalhadores mais conscientes e mobilizados, além de um caldeirão de fugitivos do subdesenvolvimento, que incluem africanos, asiáticos de todos os matizes, órfãos do leste europeu, latinos etc. 

 

A Paris que não está nos filmes de Woody Allen pode não ser a mais bonita, mas pode ser a mais interessante. Em resumo, Woody pagou o fato de que a França, ao comprar muitos de seus filmes encalhados nos EUA, colaborou decisivamente para que a sua carreira vitoriosa não fosse golpeada pelo status quo yanque. Woody pagou e paga bem o afago que a Europa sempre lhe fez, a ponto de ele ser considerado o mais europeu dos cineastas norte-americanos. E mesmo um anúncio publicitário de Woody Allen é melhor do que qualquer grande filme hollywoodiano. Assisti três vezes com três amigas diferentes. Como se assiste uma boa propaganda. Vai colaborar para que a cidade continue a ser um inferno de turistas de tudo quanto é lado, principalmente nesta época do ano.  

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