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16/07/2011 - Antônio Lessa Júnior
Há sete meses fora do poder, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não perdeu seu jeito carismático de ser. É um mestre no discurso. Sem meias palavras, fala o que o povo quer ouvir. Muitas vezes os discursos dos políticos são recheados de falácias e verborragia que chegam a dar sono, vontade de ir embora. A oratória de Lula é diferente e suas explanações parecem hipnotizar a platéia.
Quando era presidente, o cerimonial colocava o discurso de Lula (impresso) sob a bancada pela qual falaria ao público. O então presidente praticamente ignorava o texto. Na base do improviso, que sempre lhe foi peculiar, é que ele transmitia a sua mensagem. Raramente o ex-presidente lia um discurso. Somente em ocasiões especiais é que ele fazia uso do texto. Muitas vezes nem a bancada ele usava. Zanzava de um lado para o outro, com microfone sem fio em punho. Em inaugurações ou inspeções de obras seus discursos faziam a diferença. Aqui mesmo, em Goiânia (fevereiro/2010), durante a inauguração de barragem do Córrego João Leite, Lula falou sobre o status que o Brasil tem hoje junto aos países mais ricos do mundo.
"Eu não quero enganar ninguém, mas não quero ser enganado. É essa relação que o Brasil estabeleceu com o mundo. E é por isso que o Brasil é respeitado. É por isso que o Brasil é importante no G20, é importante no G8, é importante no G13, é importante no G4, é importante no G3. Cria um G que o Brasil está lá dentro. Por isso, não tem país mais preparado para encontrar o ponto G do que o Brasil."
As pessoas presentes ao evento caíram no riso pela forma simples e o duplo sentido exposto pelo então presidente. Logo em seguida, em sua mesma fala, que durou cerca de 40 minutos, Lula destacou que a lei de licitações deveria ser modificada para permitir uma maior rapidez na conclusão das obras. Entretanto, este é um passo que somente poderá ser dado na próxima gestão federal. "Não quero, de forma alguma, diminuir as exigências da Lei de Licitação", afirmou.
Com o objetivo de exemplificar, ser mais explicito sobre a questão, o presidente contou que as obras de um túnel da BR-101 no Sul do País precisaram ficar seis meses paradas em razão de um anfíbio que foi encontrado no local. Segundo o presidente, haviam suspeitas de que o animal poderia pertencer a uma espécie em extinção. Somente após meio ano é que se foi descobrir que o anfíbio não corria o risco de desaparecer. "Graças a Deus, porque uma perereca não pode se extinguir nunca", disse.
Alguns intelectuais condenam a forma como Lula age em cima de um palco. Muitos entendem que quem ocupa o cargo de presidente da República precisa manter a postura. Claro, é importante isso, mas depende da situação, do público alvo. Ao meu ver, seja como presidente, ex-presidente ou um simples cidadão, Lula exerce seus direitos constitucionais em sua plenitude. "Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido", é o que diz o parágrafo 1º da Constituição Brasileira. Foi assim que ele agiu quando presidente. Era o próprio povo no poder.
Agora, como ex-presidente, no 52º Congresso da União Nacional dos Estudantes (COMUNE), realizado em Goiânia na última semana, Lula não foi diferente. Em seu discurso já foi logo relaxando os presentes dizendo: "Eu estava com saudades deste bichinho", disse apontando para o microfone. "Não via a hora de falar no microfone", e exclamou: "Há quanto tempo não faço um discursinho".
Outro momento de identificação com os expectadores foi quando disse: "Sou a evolução do meu próprio governo. Quando entrei falava "menas laranja". Hoje falo en passant, factível, exequível. Tudo chique!". Alí, com certeza, muitos estudantes voltaram ao passado, quando começaram a entender e pronunciar o sentido das palavras não só nos livros que lhes foram indicados, mas também no dicionário da vida.
A forma como Lula se comunica afasta qualquer hipótese de retaliação, de manifestação contrária aos seus pensamentos, as suas idéias, seus pontos de vista. Suas tiradas de improviso fazem dos seus discursos uma atração a mais. É um fator positivo que muitos políticos deveriam seguir. Caso contrário, ficarão a mercê da mesmice, do ramerrão que incomoda os ouvidos das pessoas das quais não se identificam. Se os políticos não se espelharem em Lula, sem dúvida alguma, nunca na história deste país haverá um presidente tão identificado com o povo.
No último dia 15, foi lançado na internet o Instituto Cidadania. Será através dele que o ex-presidente irá se comunicar diretamente com os internautas. Em seu primeiro vídeo ele já da o recado, ao seu modo. Pra conferir basta acessar o endereço http://www.icidadania.org/2011/07/lula-da-boas-vindas-aos-internautas . É por essas e outras que, no evento da UNE, Lula foi ovacionado com os gritos de "Lula, guerreiro, do povo brasileiro".
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