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TV paga cresce, mas perde qualidade

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15/08/2011 - *Solange Noronha

Brasil superou o México e, de acordo com a ABTA, é o maior mercado do setor na América Latina. O respeito com os assinantes, porém, faz o caminho inverso e cai a cada dia.

 

Têm sido muitas as notícias positivas a respeito do mercado de televisão paga no Brasil. Segundo a ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura), que realizou feira e congresso esta semana, em São Paulo, o primeiro semestre fechou com a presença do serviço em 11,1 milhões de domicílios e a expectativa do setor é de chegar a 12,5 milhões até o fim do ano. Ou seja, batemos a Argentina e até mesmo o México, graças, entre outros fatores, ao aumento do poder aquisitivo da classe C e da competitividade no setor com a expansão das operadoras de tecnologia DTH, que transmitem o sinal via satélite e já superam as de TV a cabo, cuja cobertura é mais limitada.     

Tudo isso seria mais que ótimo caso se revertesse também em um serviço de melhor qualidade para o espectador pagante. Somos hoje os maiores consumidores do produto na América Latina, dizem os poderosos das Comunicações. A questão é: o que ganhamos com isso? Uma rápida zapeada no controle remoto mostra que até pode ter aumentado a oferta de canais, mas a programação e o público vêm sendo tratados com descuido.    

 

Esquizofrenia linguística

 

Entre as reclamações mais lidas e ouvidas por aí, várias estão relacionadas ao nosso idioma. Podemos ter ultrapassado o México e a Argentina em número de assinantes, mas os responsáveis por muitas emissoras pagas parecem ainda achar que somos “hispanohablantes como nuestros hermanos”. Há também os que acreditam sermos incapazes de entender e aceitar qualquer som que não seja o do Português. E há os que creem que engolimos qualquer coisa e fazem uma miscelânea que beira a esquizofrenia linguística e inclui até o bom e velho portunhol — às vezes com erros nas duas línguas usadas na salada. Querem um exemplo? “Retratos de una obsessao” (assim mesmo, com “una” no lugar de “uma” e “obsessao” sem o til) era o filme anunciado no FX para a quinta-feira, dia 11. Embora ainda exiba atrações com som original e legendas, o canal começou a exibir sinais da febre da dublagem, mal que se alastra na TV por assinatura de forma epidêmica. Por que não seguir o exemplo da coirmã Fox e disponibilizar as três opções? Se o dinheiro está entrando, não dá para bancar o recurso da tecla SAP, mais dublagem e legendação?

 

As legendas, aliás, são outro problema constante: ou não aparecem, ou entram na hora errada, ou vêm cheias de erros, ou… Nem por isso os espectadores pagantes que gostam de ouvir as vozes originais dos atores (ou narradores, apresentadores etc.) devem ser privados desse prazer. A solução, mais uma vez, é pôr à disposição de quem paga tudo o que a tecnologia permite e não, simplesmente, sair dublando toda a programação. Temos bons dubladores, sem dúvida, mas mesmo os canais infantis deviam dar ao público a função SAP — afinal, fala-se muito, hoje, da necessidade de se aprender desde cedo um segundo idioma e há pais que pagam caro para garantir esse privilégio. Além disso, nem crianças deviam ser submetidas a constrangimentos como o de ver desaparecer todo o trabalho de Johnny Depp para compor o Capitão Jack Sparrow numa voz que em nada lembra o irresistível protagonista de “Piratas do Caribe”. Ou será que a língua enrolada do personagem, sempre bêbado, foi censurada pelo Disney Channel, que tem nome em inglês, mas só fala português?    

 

O fantasma da censura    

 

Mal que parecia morto e enterrado por estas bandas e ressuscitou com força total (vide o caso de “A serbian film”, que foi comentado aqui e parece estar longe de acabar), a censura também assola a TV por assinatura. Quem já conhecia “Entrevista com o vampiro” e viu a versão do TNT, por exemplo, sabe que toda a cena do teatro de Armand (Antonio Banderas) em Paris desapareceu, devido à nudez da mulher que é seduzida e sugada no palco, para deleite da plateia, que acredita estar assistindo a uma encenação. A tesoura não respeita obra ou público. E não há nada que justifique o corte, especialmente porque a TV paga permite o bloqueio das emissoras que os pais não querem que os filhos acessem — ou será que apenas adultos sem crianças em casa assinam os canais eróticos das operadoras?

 

Resumo da ópera tosca (não confundir com a de Puccini, por favor): se o lucro só faz crescer, que tal aumentar a qualidade na mesma proporção? Uma subtração que pode vir para somar é a dos intervalos comerciais. Quem paga merece. (Solange Noronha/Site Opinião e Notícia)  

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