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26/09/2011 - J. B. Donadon-Leal
Palestra proferida pelo e professor de Semiótica no Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto, J. B. Donadon-Leal (foto), no 15º Encontro Nacional de Associações de Imprensa (Enai), em Recife (PE)
Como editor de um jornal cultural há onze anos, o Jornal Aldrava Cultural, e professor de Semiótica no Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto, busco formas de mostrar que o jornalismo cultural pode ir além da mera função de divulgar acontecimentos do cenário das artes em alguma região ou de repercussão de abrangência nacional ou internacional. O jornalismo cultural como espaço privilegiado da liberdade de expressão pode ser reflexo da criatividade própria das culturas e não apenas veículo de sua divulgação. Em muitos casos, o que se entende por jornalismo cultural constitui mera agenda de espetáculos e divulgação de resenhas publicitárias de livros, discos, xous e exposições. Para além disso, proponho um jornalismo que seja livre das agendas comer ciais, para expressar a voz da liberdade que emana das artes.
Esta palestra, neste 15° Encontro Nacional das Associações da Imprensa Brasileira (ENAI), nesta Comemoração dos 80 anos da Associação da Imprensa de Pernambuco (AIP) e neste 10° Ciclo de Conferências da Imprensa Brasileira é ao mesmo tempo uma apresentação de um panorama da iniciativa de publicação livre do Jornal Aldrava Cultural ao longo dos seus onze anos de existência e uma pincelada nas perspectivas de um jornalismo cultural livre no Brasil. Num país refém da esperança, que substitui o exercício da vida presente pela espera do milagre futuro, as práticas de liberdade são acanhadas, até mesmo nas instâncias em que a liberdade é por ofício inalienável, como no jornalismo, que se deixa abater diante de clamores autoritários dos que ainda não se convenceram de que, sabendo da forma e das prerrogativas éticas, tudo se pode dizer; dos que ainda não se desapegaram dos desmandos de uns e do ordenamento político-policial inspirado na disciplina punitiva.
Eis que para falar da liberdade de expressão inicio falando dos cerceamentos, das punições e da nossa cultura da punição, paradoxo próprio das sociedades subjugadas por longos períodos de costumes autoritários, seja no histórico doutrinamento religioso restritivo à prosperidade (rico não vai para o céu), seja no histórico doutrinamento político que beneficia a cultura da troca de favores.
A masmorra invertida do Panóptico de Bentham no séc. XVIII, em que a visibilidade e não o confinamento é o castigo, bem ilustra a vida prisioneira dos nossos tempos, não no sentido de explicação da origem dos mecanismos de vigilância e punição, como o fez Foucault, mas no sentido de nos vermos em uma sociedade essencialmente sedenta pelo aprimoramento dos mecanismos de punição. Estamos todos expostos, em lugares iluminados, mas vigiados por câmeras em todos os lugares. A exposição nos intimida, a exposição nos castiga e nos modela a disciplinas. No entanto, a nossa cultura disciplinar não é positiva, não é recuperativa, não é educativa; a nossa cultura disciplinar é essencialmente punitiva.
O senso comum compreende que o Código Civil Brasileiro não é suficiente para disciplinar, por exemplo, o exercício da expressão livre, seja para o cidadão comum, seja para o jornalista; que o Código Penal Brasileiro não é suficiente para propor penas para quem comete algum ilícito ou crime através da expressão incauta ou irresponsável da linguagem. Há um partido político e há também jornalistas que requerem a elaboração de um código de regulação da atividade jornalística, porque entendem insuficientes as disciplinas previstas na Lei, ou, pior que isso, não compreendem a supremacia do título primeiro da Constituição Federal, que garante a expressão livre a todos os cidadãos. Querem reinventar o Panóptico de Bentham para transformar em prisioneiros a queles que produzem jornalismo e colocá-los em celas superiluminadas para vigiá-los sistematicamente.
No Brasil do século XVIII a pena capital encontra ápice na Conjura Mineira com a morte espetacular do alferes Tiradentes, em exposição pública para exemplar fim de quem conspira. Aos poetas condenados a primeira possibilidade de punição foi efetivada, com banimento e deportação.
Ao punido cabe cumprir a pena imposta. Ao povo, porém, cada punição dada como exemplar instala um discurso de ordenação da punição, como fim compulsório de todo e qualquer que vier a cometer crime semelhante. Trata-se da criação da cultura da punição, cuja cobrança será não mais do poder instituído, mas do corpo social. O Estado, embora distante, busca cumprir o papel de impor o discurso da autoridade que pune e mostra que a todos se deve a incumbência de vigiar e cobrar a punição. Esse discurso político de criação dessa vontade de punir com justeza e exemplar deixa-se acontecer não só na preleção oficial, mas também na poesia da Arcádia Ultramarina.
Para que nenhum estranhamento ocasione o fato de eu buscar tais evidências numa documentação literária, poética, há de se ficar claro que a ceara artística é um lócus privilegiado ou texto, no qual cabem envelopados quaisquer tipos de discursos. No período do evento inconfidente de Minas Gerais, o Arcadismo Ultramarino, a literatura constituía a mais eficaz forma de divulgação de ideias; portanto, os discursos políticos, jurídicos e publicitários eram veiculados, sem dúvida, pela poesia. (JAC, 2004)
No Brasil de hoje, a marcha do dia 7 de setembro em Brasília foi um marco de que a cultura pela ordem e pela punição está, de fato, na consciência coletiva dos brasileiros, especialmente porque a punição no Brasil é “sempre” para pobres e “nunca” para políticos. É preciso ter clara noção disso, para que a postura ética do jornalista e o fazer jornalístico não sejam tomados pelo senso comum que deseja punição pela punição e não a punição como uma ordem jurídica a ser determinada pelo poder judiciário, com base nos preceitos legais e para todos, sem distinção; ao jornalista cabe a ordenação da responsabilidade de poder fazer saber o que as evidências mostram, sem temor e sem constrangimentos impetrados por possíveis implicados nas matérias.
O procedimento jurídico como rudimento da irracionalidade de ponto de vista dos familiares de vítimas, para quem a “lei de Talião” é a única possível, não pode viger numa nação livre e democrática. Em Minas Gerais, por exemplo, o motorista que se recusar a soprar o bafômetro numa blitz é multado como se cometesse uma infração gravíssima, em torno de 970 reais. O Congresso Nacional já aprovou Projeto de Lei que proíbe o transporte de bebidas alcoólicas no interior das cabines de veículos. Estes são apenas dois, entre outros tantos exemplos, do processo de inconstitucionalização do estado por que passa a nação brasileira, em função de ações irrefletidas advindas do desespero de entes de vítimas a levar à comoção parlamentares despreparados para a função legislativa. O Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e câmaras de vereadores têm produzido e aprovado “Leis Inconstitucionais”. As propostas que surgiram no Congresso Nacional de uma Lei de regulamentação das mídias têm tomado esse rumo da inconstitucionalidade e do atentado ao direito inalienável da liberdade da expressão.
O Brasil conquistou a liberdade pela reconquista da democracia, mas ainda não aprendeu a ser livre e agir com liberdade. As armadilhas dos mecanismos de controle ainda rondam instituições e atitudes. A postura de esperar um comando superior para agir ainda tolhe iniciativas e mantém o medo como parâmetro para ações cuja prerrogativa seria a coragem.
Que nos retumbem neste encontro histórico as palavras do emérito professor Celso Cunha no discurso proferido como paraninfo da 1ª turma de bacharéis em Jornalismo da Universidade do Brasil, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 16 de dezembro de 1950:
Fazei que os detentores do mando compreendam que, ‘se é difícil governar com a imprensa livre, sem ela é impossível’, porque a imprensa não é, propriamente, a fábrica da opinião pública, mas o seu eco; não a forma, quando muito traz à tona o que já vivia latente no espírito do povo. (“Jornalismo e universidade”. In: Sob a pele das Letras. Nova Fronteira/ABL, 2004:405)
Como a função poética da linguagem é algo próprio do espírito humano, que se governa livremente para as suas próprias deliberações linguísticas e estéticas, não se faz necessário pensar jornal cultural como formador de opinião, mas como espaço livre que congregue opiniões heterogêneas no vasto universo da criatividade. Que as burocracias aprisionem outros cadernos nos jornais, não o cultural!
É nessa esteira de liberdade, grito pioneiro dado pelos poetas inconfidentes de Minas Gerais, que escritores e artistas visuais de Mariana, a primeira vila, primeira cidade, primeira capital de Minas Gerais, em novembro de 2000, assumiram a voz livre de fazer produção e divulgação cultural sem as amarras burocráticas do jornalismo prisioneiro das grandes redes editoriais do eixo Rio – São Paulo. É na esteira da Revolução Pernambucana de 1817, da qual fez parte frei Caneca “com sede de liberdade”, em que encontramos o primeiro brado brasileiro específico à liberdade de imprensa, nos espelhamos para fazer um jornalismo cultural como a própria voz da criação artística.
Para falar do jornalismo cultural, vou retomar um exemplo que publiquei no Jornal Aldrava Cultural, 82, Fev/2010:
Há no fundo do meu quintal um enorme granito de seis toneladas. Coloquei um anúncio nos classificados de um jornal local, para comercialização desse granito. Um primeiro interessado veio, avaliou o granito e propôs sua compra depois de verificar que com ele poderia produzir, depois de serrado e laminado, dada a nobreza da pedra, pisos e bancadas de pias de cozinha. Um segundo interessado, olhou a pedra em sua bruteza e, depois de considerá-la pobre, propôs sua compra, num valor que corresponde 50% da oferta do primeiro, para transformá-la em brita para a construção civil. Um terceiro interessado, confessando-se incapaz de cobrir qualquer oferta monetária dos empresários da indústria graniteira, disse desejar esculpir na pedra uma bela obra de arte, dada a sua localização no pé de uma encosta de montanha de mata preservada, cujo valor tornar-se-ia incomensurável. (pág. 08)
Com quem ficamos? Com a grana ou com o sonho do artista?
Um jornal cultural pode ser avaliado conforme o interesse de quem o projeta. Mas, como será que leitores idealizam um jornal cultural?
Como editor de um jornal cultural há onze anos, o Jornal Aldrava Cultural, um jornal que não concorre e nem pretende concorrer com grandes conglomerados de mídia, e professor de Semiótica no Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto, dediquei-me a produzir ensaios de forma a mostrar que o jornalismo cultural pode ir além da mera função de divulgar acontecimentos do cenário das artes em alguma região ou de repercussão de abrangência nacional ou internacional. O jornalismo cultural pode ser expressão da criatividade própria das culturas e não apenas veículo de sua divulgação. Em muitos casos, o que se entende por jornalismo cultural constitui mera agenda de espetáculos e divulgação de resenhas publicitárias de livros, discos, xous e exposiçõ es. Além disso, os redatores dos cadernos de cultura são reféns dos diagramadores, pois o planejamento visual pré-determina espaços fixos para os textos livres entre o que sobra dos espaços pagos.
Mas, é possível pensar um jornal como espaço para voz do criador de cultura e não como uma concessão do jornalista?
O Jornal Aldrava Cultural apostou nessa possibilidade e preconizou a tendência do seu destino no primeiro manifesto aldravista:
Sem a pretensão de superar tendência alguma, esta proposta busca aproveitar todas as portas discursivas abertas pelo pós-modernismo, muito embora este tenha ainda privilegiado o texto. Mas, dos textos saltam discursos heterogêneos, e é justamente esses discursos que nos interessam. Trata-se de saber usar os textos devolutos. Na verdade, todos o são, pois o texto nada mais é do que um envelope, dentro do qual colocamos os discursos. Discursos são fluxos de ideias que habitam as cabeças dos sujeitos caminhantes, ditando os passos, as condutas, as manifestações todas da atividade humana. São uma espécie de alimento da alma, e ditam as condições de produção dos fazeres sociais e, consequentemente, culturais. Alimentam novos discursos, realimentam-se de nov idades e possibilitam a geração ininterrupta de ideias. Tomar todo e qualquer texto, moderno, concreto, livre, preso, longo, curto é, para o aldravista, um motivo para tematizar qualquer discurso com a audácia dos pedintes – batendo à porta. (Manifesto Aldrávico, JAC, março, 2001:3)
Restrições estéticas seriam encontradas, mas a diagramação desse jornal estava (e continua) a serviço do texto; e não seu oposto. Restrições conceituais intensas obnubilam o conceito de jornalismo cultural, a começar pelas imprecisas noções de gêneros jornalísticos. Encontramos em Pena (Teorias do Jornalismo. Contexto, 2006:68) alguma referência distante de jornalismo cultural como gênero na classificação alemã, em que o folhetim (resenha cultural), a crítica, o recreio e espelho cultural (contos, versos, etc.) fazem parte de um gênero denominado “ameno”. Por outro lado, os campos teóricos dos estudos culturais voltam olhares para os estudos da recepção e das identidades. Ainda que relevantes, os estudos culturais tomaram rumos acadêmicos e se entrincheiraram nos centros de pesquisas de universidades, fazendo circular seus produtos textuais e reflexões acerca da cultura, da sociedade e do papel das mídias em cadernos especiais de revistas e jornais, destinados a notáveis. Dessa forma, tanto no viés teórico, quanto na produção jornalística, o jornalismo cultural produz exclusão, uma vez que, cada vez mais, faz circular a reflexão acadêmica complexa de especialistas para especialistas. Ao grande público resta a agenda cultural ou a matéria paga sobre a vida privada de um pop-star.
Por outro lado, o grau de autonomia e de iniciativa dos jornalistas, conforme se lê em Traquina (Jornalismo: questões, teoria e estórias. 1993), atribui a eles independência na produção em relação a proprietários de empresas jornalísticas, e pode alavancar projetos de jornalismo cultural desagregados dos vínculos propagandísticos de editoras e produtoras de xous ou da indústria fonográfica e cinematográfica.
Trata-se de dizer aquilo e daquilo que cada grupo social construiu como valor simbólico para satisfação de seus anseios de saber e de lazer. É a coesão intrínseca dos valores simbólicos construídos, preservados e modificados conforme a aceitação e incorporação de novas tecnologias pelo grupo social. Cada um deles busca institucionalizar seus valores artísticos conforme suas convicções e seus critérios de coesão. O poeta do bairro, o repentista, o cantor, o contador de história, a bordadeira, o instrumentista, o compositor ganham notoriedade em seu ambiente social. No entanto, o crítico e o jornalista não têm tempo nem espaço para dar voz a essas celebridades do quarteirão ou do bairro.
Com a web e as redes sociais, o jornalismo atinge um grau de quase onipresença, e faz valer a máxima da multiplicidade de vozes e/ou a concessão de voz a quem é o legítimo autor dos fazeres culturais. Cabem nas mídias on line todas as iniciativas de veiculação de informações, de opiniões e de divulgação. O produto cultural (arte e artesanato) pode passar a ter visibilidade de forma direta e humanizada, sem a interferência de marqueteiros ou de mídias comerciais.
Claro, a socialização dos agrupamentos humanos tem a contribuição compulsória da ideia de disciplina. A disciplina, por sua vez, resulta da reiteração e do exemplo. Para pequenos agrupamentos, a reiteração de procedimentos pode ter seu efeito educativo, mas a grandes agrupamentos a espetacularização dos procedimentos assume o papel da escola da disciplina. A execução de criminosos em espetáculos públicos na antiguidade e no Brasil do século XVIII assumia o caráter didático de convencer os demais membros da sociedade que as condutas são ordenadas e quem não as cumpre tem seu destino marcado.
A espetacularização nos dias atuais, nas suas mais diversas faces, também tem caráter didático. Programas infantis matinais e os programas informativos das tardes na televisão aberta brasileira assumem feições educativas via exposição dos males sociais, recortados pelo sensacionalismo, para que a sociedade sinta na visualização das dores alheias a possibilidade de se estancarem esses males, seja via política, seja via policialesca. É o sensacionalismo, pela exposição exacerbada da violência, assumindo contornos da ficção, do inacreditável, do impactante. Tem o mesmo poder aterrorizante das execuções públicas no antigo império romano ou das fogueiras da inquisição.
Comportamento didático é perigoso, pois puxa para si a postura de quem sabe e para o outro empurra a sua fórmula do conhecimento. O espetáculo pode ter face menos impositiva que a da via sensacionalista. O espetáculo pode ser artístico, original, propositivo.
O jornal Aldrava Cultural tratou, ao longo desses onze anos de existência, sem pretensão didática, de fazer jornalismo cultural como proposição de novos horizontes às expressões artísticas – inicialmente na literatura e posteriormente nas artes visuais. Essa modalidade criada pelo Jornal Aldrava Cultural o faz num espaço não de crítica ao produto canonizado ou dos ditos grandes nomes das artes, mas num espaço de ordenamento de uma nova expressão, numa demonstração de que é possível apresentar ao público novas formas de criação e de divulgação de arte.
Os passos iniciais foram os de conduzir os engenhos criativos para uma elaboração que privilegiasse a metonímia, uma vez que os olhos humanos não são olhos que tudo veem, mas olhos seletivos, que escolhem pontos, fragmentos, detalhes, a partir dos quais expande suas compreensões para um sentido que represente o universo que contém aquele ponto, fragmento ou detalhe avaliado. A poesia e a arte visual publicadas nesses onze anos do Jornal Aldrava Cultural representaram espaço dessa busca metonímica, especialmente de autores e artistas que não circulam pelas colunas dos mais consumidos tablóides ou revistas das grandes redes editoriais.
O investimento aldravista considera o discurso artístico como aquele capaz de retratar fatos ou estados de coisas pela linguagem, sem que a ligação entre esses fatos ou estados de coisas com a linguagem tenham que compreender uma integralidade jurídica. Se isto assim fosse, teríamos apenas linguagem ordinária, cotidiana e não linguagem artística, considerando a retratação dessa realidade pela linguagem como proposto por Wittgenstein no Tractatus Logico-Philosophicus. A proposição aldravista empreende discursividade apenas em porções de provocação de sentido, para que o leitor seja imbricado no processo de discursivização e seja protagonista da construção de sentido e não seu mero espectador.
O poeta aldravista joga com as estruturas consolidadas da construção da estética e da forma poética, para, mesmo sofrendo o constrangimento das normas da poética, quebrar com as regras que pressionam e oprimem. O poeta aldravista é Sujeito e busca sacudir o Sujeito que há em cada um na busca de uma tomada de posição diante das referências do mundo. Para criticar algo, antes é preciso saber de seu funcionamento. Para derrubar alguma coisa, antes é preciso conhecer sua resistência. Para abrir uma porta, que tal bater na aldrava! (JAC, 18, Ago/2002:03)
O conceito de discurso que subsidia o fazer cultural é o de que o sujeito assume as vozes determinadas pelos papéis sociais que protagoniza nas suas interações sociais. A cada papel social a ser protagonizado, o sujeito deve buscar em seu repertório de informações e de modalidades textuais e discursivas aquelas que melhor se adéquam ao momento. O artista, além de estar autorizado a escolhas livres de modalidades textuais e discursivas deve sentir-se também autorizado a criar novas modalidades.
O jornalismo cultural, dessa forma, tem que se abrir para a recepção de incursões pelo inusitado, pelo não canonizado, pelo novo. Trata-se de encontrar um caminho que se diferencie do habitual jornalismo cultural que, a exemplo dos centros de pesquisa em artes visuais e literárias, centra-se no canônico, no clássico, na crítica acadêmica de eleitos resultantes de crivos embasados em critérios qualitativos, normalmente deslizantes numa escala entre o bom e o ruim com seus extremos: ótimo e péssimo. Sair dessa escala de julgamento de produtos culturais deve ser meta de um jornalismo de promoção da cultura sem os preconceitos compulsórios implicados nos pólos bom e ruim.
Percebe-se, desta forma, que o compromisso do jornalismo cultural está para além de julgamentos de valor, pois ele deve se fundar na valoração do sujeito que produz cultura em sua heterogeneidade constitutiva, em sua multiplicidade ímpar. O compromisso do jornalismo cultural também não é o de checar a veracidade das fontes, antes ele é a incessante busca pelo sujeito criativo, pela obra original e de comprovada unicidade. Uma vez constatada a obra em exibição ou em análise o seu caráter de originalidade e sua unicidade, constata-se seu valor artístico. O critério de análise deixa de ser qualitativo, que nos leva aos paradigmas do bom e do ruim, para ser analítico. Não importa, portanto, se sua origem está no grupo social A ou B, se ligada à instituição A o u B, se filiada ao estilo A ou B; importa, sim, se esse produto cultural pode ou não ser considerado em sua originalidade e se constitui peça única naquele universo discursivo de objetos do mesmo gênero.
Quem sabe, possamos, com a aplicação deste modelo de análise, superar os paradigmas preconceituosos com que nossa sociedade está viciada a visualizar seus bens culturais. E assim, o jornalismo cultural possa deixar de ver com idolatria a arte denominada erudita e deixar de ver com piedade ou desdém a arte popular.
Neste contexto motivacional, a busca aldravista percorre a vereda da reflexão sobre as artes visuais e suas possibilidades de superação efetiva do conceito de tolerância e conquista do respeito pelo outro e pelo substrato de seu esforço artístico e intelectual. Aquele que tolera apenas suporta o peso de algo de que não gosta.
Quem respeita reconhece o valor do outro e do substrato do seu esforço intelectual, independente das preferências pessoais; reconhece o lugar e a importância do outro no seio de um dado grupo social, pois esse grupo reconhece a relevância dos seus membros e pode até atribuir destaque a alguns.
Nesses onze anos, poetas, contistas, cronistas, ensaístas e artistas visuais tiveram a oportunidade de mostrar trabalhos no Jornal Aldrava Cultural, incluindo, nesse rol, crianças que puderam ver valorizada a vontade de fazer arte e tiveram o talento reconhecido, condição para o desenvolvimento dos processos criativos.
Os próprios escritores-poetas, criadores do Jornal Aldrava Cultural, puderam, por meio do Jornal Aldrava Cultural, divulgar a criação de uma nova forma de poesia, a aldravia; poema de seis versos univocabulares. Em seis palavras um poema síntese. Em seis palavras uma metonímia de alguma visão específica do vasto universo. Conforme publiquei no Jornal Aldrava Cultural em dezembro de 2010:
Que novidade os aldravistas poderiam deixar para as gerações futuras? Além da vasta produção já obtida nesses onze anos de estrada, além da promoção de talentos e de investimento na criatividade infantil, os poetas aldravistas poderiam apresentar uma nova forma poética. Não fazia parte do empreendimento inicial, pois é possível brincar com a liberdade utilizando-se das formas poéticas consagradas. O grande investimento aldravista é no conteúdo metonímico – pouco importa a forma. A forma é apenas textual, é apenas envelope dentro do qual os discursos se depositam em sua fecundidade ilimitada, disponíveis aos olhares de espectadores que alcançam alguma porção discursiva a partir da qual expande sua compreensão e interpretação.
Trata-se de um poema sintético, capaz de inverter ideias correntes de que a poesia está num beco sem saída. Essa forma nova demonstra uma via de saída para a poesia – aldravia.
Eis alguns exemplos de aldravias, esses poemas sintéticos de seis palavras, criados pelos aldravistas:
De Andreia Donadon Leal:
salto
de
cova
nascimento
do
artista
De Gabriel Bicalho:
não
fazer
poesia
de
alma
vazia
De J. B. Donadon-Leal:
minhas
porções
diárias
metonímias
de
mim
De J S Ferreira:
sigo
cigano
em
busca
da
poesia
O jornalismo cultural é espaço de criação, de ousadia, de invenção. Como dizia José Martí, “o jornalismo deve desobedecer os apetites do bem pessoal e atender imparcialmente ao bem público”. A cultura é pública, a cultura é patrimônio social e o jornalismo cultural não pode estar a serviço de interesses particulares ou empresariais; ele é e está a serviço da promoção da criatividade social. Assim, aqueles que criam suas próprias formas de arte, suas próprias técnicas devem ter espaço de exposição no jornalismo cultural, para que os próprios artistas se sintam motivados para o crescimento.
Não importa a área do saber; sem conhecimento profundo do que se faz, não há possibilidade de crescimento. Mais do que nunca a doxa é real: educação é tudo. O poeta que conhece a história da poesia e todas as suas tecnologias tem mais possibilidade para criar seu próprio modelo de produção e se justificar diante dos demais poetas como criador de sua própria senda. Isso parece ser válido para os produtores das demais artes. (JAC, 87, Out./2010:03)
Quanto à formação do jornalista, muito me preocupa a ênfase que as escolas de jornalismo dão ao ensino da técnica e o desdém com que tratam a teoria. Digo sempre: dê ao seu aluno teorias que ele será capaz de criar suas próprias técnicas; dê a ele técnicas e faça dele um escravo. Jornalismo não é técnica, jornalismo é conhecimento. Com muita técnica e sem conhecimento não se escreve nada que possa ser publicado!
Como não é possível dizer de tudo, falar sobre tudo e representar a totalidade do universo de algum tema, os aldravistas concebem a discursivização pelas metonímias, descrevendo os fragmentos possíveis, as visadas possíveis; aquilo que, no momento da produção da análise que resulta no texto em construção, se faz visível.
Em suma, embora a cultura da punição nos cerceie tremendamente, embora os parâmetros preconceituosos de avaliação e crítica cultural sejam subsidiados na preconceituosa escala de valores entre o bom e o ruim, embora o jornalismo cultural seja comercial e dedique seus espaços para as empresas produtoras venderem seus xous e seus artistas contratados, é possível, sim, pensar um jornalismo cultural que seja livre, que promova as iniciativas de quem produz alguma novidade, não importando a que grupo social pertença e que, acima de tudo, seja espaço da voz livre de artistas e de suas artes.
*J. B. Donadon-Leal (José Benedito Donadon-Leal) doutor em Semiótica e Linguística pela USP, pós-doutor em Análise do Discurso pela UFMG, professor de Teoria da Comunicação e Semiótica no Curso de Jornalismo da UFOP, editor do Jornal Aldrava Cultural desde sua fundação, em novembro de 2000. Membro da Diretoria da Federação das Academias de Letras, Artes e Cultura de Minas Gerais. Membro da Academia Marianense de Letras. Membro da Academia de Letras do Brasil. Membro da Academia de Letras do Brasil - Mariana. Membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais. Membro Honorário da Academia Maceioense de Letras. Membro efetivo da Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores. Autor de Dô- caminho (1992), Marília - sonetos desmedidos (1996), Jardim & Avenida (1997), Gênese da poesia e da vida (1997), Sáfaro (1999), Aldravismo -a literatura do sujeito (2002), Leituras - ciência e arte na linguagem (2002), brejinho - senda 04 de nas sendas de Bashô (2005). Reflexões: a linguística na sala de aula (Org.) 2007. Relatos de Experiência - a linguística no ensino da língua portuguesa (2008). Vereda dos Seixos (2008). Ventre de Minas (2009). Germinais – aldravias {uma nova forma de poesia} (2011)
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