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01/10/2011 - Antônio Lessa e Antônio Lessa Junior
O presidente da Câmara Municipal de Goiânia, vereador Iram Saraiva (PMDB), visitou a redação do Jornal da Imprensa e, aos jornalistas Antônio Lessa e Antônio Lessa Júnior, fez uma retrospectiva de sua vida profissional e política. O parlamentar foi aluno do Lyceu de Goiânia, depois bacharel em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e História pela Universidade Católica de Goiás (UCG). Professor desde muito jovem, nas áreas de História e de Ciências Jurídicas, entre elas o direito constitucional e eleitoral. Em sua trajetória política, Iram já ocupou cargos importantes na vida pública: vereador em Goiânia em 1972; deputado estadual, em 1974; deputado federal, em 1978. Neste período, acidentou-se em uma de suas viagens à Brasília. Eleito novamente deputado federal 1982 e senador 1986. De 1994 a 2003 ocupou o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) e nas eleições de 2008 foi novamente eleito vereador da nossa Capital. A íntegra da entrevista, em áudio e vídeo, também pode ser conferida na TV e Rádio Jornal da Imprensa: www.tvjornaldaimprensa.com.br e www.radiojornaldaimprensa.com.br
Antônio Lessa Júnior - Presidente, obrigado pela sua presença em nossa redação!
Iram Saraiva - Quem deve agradecer sou eu, porque aparecer no Jornal da Imprensa é realmente estar pronto para falar com toda sociedade. Inicialmente eu quero dirigir a você, Júnior, os meus aplausos e ao Antônio Lessa, esse jornalista guerreiro na história da imprensa goiana. Quero dizer que o trabalho que vocês fazem é muito importante. Com a retomada da democracia, a partir de 1988, não precisamos de nada melhor do que esse trabalho que vocês fazem jornalisticamente. Meus parabéns e muito obrigado pelo convite
ALJr.- O senhor tem uma carreira política invejável. Já foi vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, ministro e vice-presidente do Tribunal de Contas da União. Como é que começou essa carreira política.
IS - Em 1972, e o Antônio Lessa lembra-se disso muito bem, fui convidado a filiar-me ao antigo MDB, e aceitei. Já era professor há alguns anos, de história e também professor de processo penal, na Faculdade Anhanguera. A partir daí me filiei e foi a primeira eleição que disputei em Goiânia. Eleito, fiquei dois anos e em seguida me candidatei a deputado estadual em 1974. E a história é como você já resumiu aí. Para mim foi um prazer imenso disputar porque enfrentei um período negro, onde poucos queriam, na imprensa, na política, no noticiário, peitar uma ditadura. E nós fizemos isso e com muita alegria conseguimos. E foi assim que começou a minha história.
Antônio Lessa - E nesse particular da sua candidatura a deputado estadual, me lembro bem que nos encontramos numa casa de montagem de som de carro, na rua nove. Isso prova a sua luta e a sua dificuldade, porque você apareceu lá, como eu, pra montar o serviço de som, quero dizer, pessoalmente você se dirigia a esses meios para conseguir aquilo que pretendia como deputado estadual.
IS - Eu costumo brincar que sou um dos últimos românticos. Nós fazíamos tudo: éramos os motoristas, anunciávamos, falávamos, era a grande atração e era o candidato. Ali você não ouvia falar em corrupção, compra de votos. Nada do que tem hoje existia naquela época. Então, acho que fazemos parte de uma história que é dignificante. E a democracia existe hoje porque éramos poucos, mas aguerridos, corajosos e mudamos a história do Brasil.
AL - Estive há poucos dias, de 12 a 14 de setembro, no Congresso Nacional das Associações de Imprensa (ENAI), promovido pela FENAI/FAIBRA e da Associação da Imprensa de Pernambuco (AIP). Tive, inclusive, a oportunidade de dirigir algumas palavras, como palestrante e convidado especial, nesse conclave de jornalistas. Quero usar a imagem que vi lá para justificar esse momento histórico seu lá de 1974. Naquele tempo a gente sonhava. Hoje, o povo não sonha mais. A juventude parece que está consumida por esse imediatismo de tudo. Então, naquele tempo você sonhava. E você sonhou e chegou lá.
IS - Na verdade eu acho que a tecnologia beneficia o homem. Ela avança, ela leva para dentro de nossas casas o que há de melhor. Naquela época comprávamos livros caríssimos, livros importados. Hoje não. Hoje você clica ali na internet e o google e os outros te mostram tudo, e tem também o twitter. A comunicação mudou. Eu costumo dizer que hoje o cidadão, com um celular na mão, ele é cinegrafista, radialista, artista de televisão, faz tudo. Na nossa época não tínhamos isso. Agora tem um detalhe: avançamos muito, crescemos muito, mas, no entanto, nós colocamos dentro de casa também todos os crimes. Você pode observar que aumentou muito o índice de alcoolismo, do crack e etc. É preciso agora a família retomar os sonhos de antigamente e começar a controlar seus filhos, pois agora está tudo numa tela: basta a pessoa clicar e ver. Então vejo o perigo disso proliferar, mesmo a internet sendo rico em tecnologia, em cultura, em informação e você não saber utilizar isso. E isso, pra eu que sou educador e você Lessa, que é jornalista, nos preocupa. E o que fazer com a informação? Ela, chegando distorcida, a pessoa vai usar mal. E usando mal vai desaguar no que está desaguando: de repente a família desagrega, fica sem força e a escola inexiste. Acho que agora chegou o grande momento da família aproveitar tudo isso que a tecnologia nos deu e começar a dar uma nova visão, uma nova roupagem para o que a ciência nos coloca dentro de casa.
AL – Agora seria é o grande momento da família e das escolas?
IS - Exato, porque a escola é uma sequência da família.
AL - Você vai me permitir lembrar o momento glorioso, do seu tempo enquanto professor e dos tempos do professor Leôncio que fazia e declamava poesia e encantava a juventude.
IS - Era outra maneira de pensar, outra maneira de analisar. Hoje eu vejo que há poesia, mas parece que é uma poesia encontrada na calçada, na rua. O rap, por exemplo, acho o som gostoso, mas o que se coloca versejando é aquilo que você trabalhou numa madrugada, depois de um pileque, ou seja, o aspecto intelectual, romântico precisa ser retomado. Você pode até protestar, mas de forma inteligente. Você pode até não concordar, mas de forma inteligente. Ou você pode aderir a uma coisa absurda, mas de forma inteligente. Acho que tá na hora de começar a usar isso.
ALJr. - O senhor foi senador constituinte e daquela época, em 1988, pra hoje, já se passaram vinte e três anos. A Constituição está adaptada para os dias de hoje?
IS - Olha, a pergunta é interessante e instigante. Eu, como constituinte, diria: a obra é perfeita. Mas você sabe que a obra humana não é perfeita. Ela sempre tem que ser modificada. Sabíamos que algumas correções de rumo seriam necessárias. Tanto é verdade que colocamos no próprio texto, que em cinco anos teria que ser feita uma revisão. E na revisão não conseguimos fazer bem feito, porque aí já estava um Congresso que não era constituinte, e sim um Congresso ordinário, e ele não entendeu de fazer as reformas. Toda vez que tínhamos dificuldades na elaboração do texto da Constituição, e tinha que arremeter a uma legislação ordinária, ou complementar, era um buraco negro. E quando jogamos isso para o legislador ordinário e não o constituinte, abrimos um boqueirão enorme para não terminar a Constituição. Até hoje tem muita coisa a ser terminada, decidida. Acho que uma revisão agora, não no sentido da essência, não no sentido de tirar da população os direitos conquistados, os direitos sociais, direitos individuais, direitos trabalhistas, não. Mas no sentido de adaptar, por exemplo, questões orçamentárias, financeiras, econômicas. Precisamos mexer para dar uma melhor qualidade de sustentação legal para que a sociedade não fique sempre preocupada em saber que a qualquer hora pode surgir um golpe. E não é um golpe armado, não. É um golpe no sentido da aplicação da própria lei.
ALJr - Uma das questões que mais se discute hoje é com relação à redução da maioridade penal. Como é que o ex-senador constituinte, Iram Saraiva, analisa isso?
IS – Sou totalmente contra. O problema não passa pela idade. A idade biológica já foi definida: 16 anos para entrar no eleitorado, 18 para o crime, 21 para outros atos. Agora vamos refletir bem: se fosse problema de fixação de limite de idade, e que já vem reduzindo, bastaria baixar um ato para o feto. Por quê? Porque à medida que eu vou abaixando, vejo que a criminalidade cresce. Hoje não se fala mais que a criminalidade começou aos dezoito anos ou aos vinte e um. É com dez, nove anos. Acho que já punimos a criançada ao tirar-lhes a escola, o lazer, o acompanhamento familiar. A sociedade não pode ser hipócrita e dizer que vai resolver o problema diminuindo a idade. Não vai! Porque se fosse assim, já havíamos abaixado esse índice e teríamos resolvido o problema.
ALJr - Mas na questão eleitoral já houve essa diminuição para os dezesseis anos.
IS - Quando foi pra essa decisão, e que aderi a ela, uma das minhas propostas na Assembleia Constituinte era o PENSAR. Por exemplo, cheguei à política aos quatorze anos de idade no grêmio Félix de Bulhões, no Lyceu. Cheguei à faculdade de direito, jovem, de menoridade, mas preparado pra isso. Então, o que nós pensamos, ao fixar dezesseis anos para a pessoa participar como eleitor, é pra ele ir se preparando pra saber escolher e depois se preparar para, quem sabe, ser um eleito. Essa foi a grande situação que nos levou a colocar a maioridade eleitoral aos dezesseis anos. Este é o motivo para a prática eleitoral, mas ela não é obrigatória. Tem esse aspecto democrático, ou seja, ele vota se quiser. Essa é a hora da escola e da família começarem a orientá-los a escolherem bem.
AL- Eu tenho um ponto de vista muito pessoal em relação à própria Constituição de 1988 que, a meu ver, faltou algo mais para preparar a consciência nacional como cidadão brasileiro e a família, para o bem que essa Constituição iria proporciona a todos nós, após o período negro da ditadura. Percebi, de 1988 para cá, que nos distanciamos de uma coisa muito importante: da história e da cultura erguida pelos grandes vultos deste país. Parece-me que há um hiato entre a população atual, sobretudo a juventude, e esse passado que nos ajudou a chegar até aqui de uma forma ou de outra.
IS - Concordo em gênero, número e grau. Na primeira parte da sua pergunta você me enseja a uma colocação interessante: nós nem tivemos tempo, porque ao convocar a Assembleia Nacional Constituinte, havia uma ânsia nacional pós ditadura. Todos queriam para ontem. O homem do campo, sentindo-se inseguro, o trabalhador no sindicato sentindo-se inseguro, o estudante ainda sido penalizado com cassações, com violência, o político desaparecendo. Tínhamos que trazer a democracia imediatamente. É como se eu estivesse no deserto e em vez de me entregarem uma gota d’água, me entregaram um balde cheio de água e eu bebi de uma só vez. Não tínhamos tempo porque era uma ruptura feita via processo democrático. Não era na “bala”, não era na baioneta, e tinha que ocorrer da forma como nós fizemos. Tínhamos que entregá-la rapidamente para que a as pessoas pudessem eleger prefeitos das capitais, governadores e não estávamos tão preparados para isso. Estávamos preparados para o chicote, para a violência da ditadura. Realmente esse hiato que você coloca foi um problema, pois tínhamos que entregar uma decisão: ou isso para o povo, ou nada e a ditadura perpetuar. Por outro lado, nós constituintes não tínhamos outro caminho. Não havia como você colocar no texto uma forma que não fosse rapidamente. Tanto que uma das redações, minha também, várias aconteceram, da aplicação imediata dos direitos garantidos individuais. Tanto que quando ela aconteceu, os tribunais encheram de ações. Não estávamos preparados, a Justiça não estava preparada, as advogados não estavam preparados para atender a tantos direitos num só tempo. Foi por isso, inclusive, que se abarrotaram os escaninhos dos juizados até hoje. Pois as pessoas estavam procurando direitos que em vinte e um anos foram negados pela ditadura.
ALJr - O que fazer para mudar a imagem dos políticos no Brasil a partir do Congresso Nacional, por conta de maus políticos?
IS - Eu acho que vai ser até agressivo o que eu vou dizer: estamos numa República e ela é Presidencialista e o grande defeito está aí. O presidencialismo é ditatorial por formação. Na Constituição você pode observar que governo são o poder Executivo e o poder Legislativo porque um faz a lei e o outro executa. Ora, se os dois são poder alí no artigo 2º da Constituição, tinha que ser cumprido, caminharem independentes e harmônicos. E isso não é verdade porque sendo o Executivo o detentor de quem age, de quem tem o cofre, de quem abre o cofre e que aplica, ele muitas vezes torna o outro um pouco subserviente. Isso é um vício do sistema presidencialista. Quando você observa esse caminhar anacrônico, eu posso dizer pra você que o regime faliu e está falido.
ALJr - Então o senhor defende o sistema parlamentarista?
IS - Eu sou parlamentarista por origem exatamente por isso. Onde foi que começou a democracia e a liberdade do mundo? Quando o rei teve o seu poder dividido com o parlamento. Onde que o povo começou a aparecer na história? Quando as primeiras constituições apareceram lá com o João sem-terra? Em 1200 na nossa era, já na Inglaterra. A partir daí você observa: qual é o poder? O poder popular no parlamento. E ele está aqui no poder popular, mas não detém aquela situação. Daí o povo começa a defender o que ele quer, como por exemplo: programa de governo. Se eu perguntar para o povo qual é o melhor programa de governo, o povo vai falar: eu quero casa, eu quero comida, eu quero transporte, eu quero saúde. Então eles ficariam em quatro pontos. Hoje não, porque o presidente da República ou o prefeito ou o governador elege prioridades que eles acham mais eleitoreira. E está tudo errado. Agora, a culpa é do cidadão? Claro que não! É do sistema. Então nisso ele falha, nisso ele peca. Embora a Constituição não tenha chegado à perfeição, mas ela atingiu o seu ideário para o propósito que veio. Agora cada poder tem que saber a sua posição e reestudarmos, se é possível, esse presidencialismo brasileiro, ou do contrário, ele já perdeu força e sustentação.
AL - Eu trago comigo uma imagem do sistema presidencialista, no final dos anos 50 e até mesmo no início dos anos sessenta. Dizia-se que o Executivo tem o poder supremo porque ele tem as chaves do cofre e a chibata. Quer dizer, ele decide o que fazer e determina como fazer. Nesse ângulo, o parlamentarismo seria uma grande experiência para nós também?
IS - Eu acho que sim. O Brasil não é um país qualquer, um continente. São Oito milhões e meio de quilômetros quadrados, vinte e seis estados e um distrito federal. São vinte e sete unidades com extensão territorial que, em alguns deles, cabem cinco estados europeus. Então a aplicação disso é que me preocupa e não estamos culturalmente preparados. Temos que começar um processo de escolha diferente do que está aí. Por exemplo, o voto deveria ser distrital. Com ele você aproxima o eleitor do seu representante e este eleitor próximo do representante e as teses que o povo quer, esse representante terá que seguir. Vou mais distante: cobraria neste voto o recall do voto, ou seja, aquele voto dado pelo eleitor, o eleitor teria o mesmo poder de tirar do mandato. Não é igual aqui onde o mandato é de quatro, oito anos e você não encerra o procedimento de punir aquele que não cumpriu o desejo popular. Então o recall do voto seria isso: dar uma moção de desagravo, dar uma moção de agravo. Não quero, e tomar daquele eleito o mandato e convocar outra eleição imediatamente. O exemplo de parlamentarismo que tivemos foi mitigatório, foi para “quebrar galho”. Por exemplo: cai um presidente da República e repõe. Isso não é absorvente para aparar sangramento. O sistema tem que vir com base, começando pelas câmaras municipais, assembleias legislativas, o Congresso Nacional. Agora, quando você adere a um sistema desses, o povo tem que estar preparado para isso. É um ponto que você bateu agora mesmo: cultura, vontade de fazer. Por que eu digo isso? Porque se nós, na própria Constituição entendemos que governo é o Executivo e o Legislativo, o melhor modelo que assenta nisso é o parlamento, porque o povo elege os parlamentares e os parlamentares escolhem os gabinetes para governar. E esse gabinete não é eterno e não tem aquele mandato cuja raiz está no exercício. Porque se eu não votar segundo o que o povo quer, cai o gabinete. Se não cai o gabinete, derruba-se o parlamento.
AL - Se o presidencialismo e o parlamentarismo se confrontam dentro dessa estrutura, não haveria uma saída para um misto de governo entre parlamentarismo e presidencialismo? Eu digo pelo seguinte: nós sofremos de um mal maior em termos históricos no país. É que o poder centrado numa só pessoa, no caso, na figura do Executivo, eu sempre digo que o poder embriaga, entorpece, seduz a mente humana, seja quem for. Há muitos casos em que os governos passam a ter o poder que lhe é dado pelo povo como algo particular. A pessoa sai do seu mandato popular para gerir a coisa pública como coisa sua, propriedade particular. Como você analisa essa situação?
IS - Você pegou os anos de 1950, pegamos o período de Vargas. O presidencialismo é típico de Caudilho, de mandatário de partido, de ditadura. Ao assumir a posição de “eu mando”, é extremamente perigoso, porque o governo, ou ele é: tripartido, e tripartido na sua essência técnica, que é a finalidade de cada um que são funções, por exemplo: o Executivo age por ofício. Ele abre o cofre, executa, mas ouvido. O parlamento, antes, com a mesma força, com a mesma condição de ascensão ao poder, e o judiciário que equilibra ao observar o exagero que existe entre um e outro. O que não acontece no presidencialista. Veja que nós estamos montados em cima de uma ditadura. Uai, mas você vai me perguntar: mas não tem democracia? Aí está o twitter, a internet. Não é verdade! Deu-se as condições das pessoas trabalharem e se manifestarem, mas continua ainda e eleição de prioridades desatentas e não atendendo ao interesse popular. O povo está insatisfeito. O exemplo que vimos no Egito, onde derrubaram o governo rapidamente, com raras comunicações entre as pessoas nessas redes sociais, que estão acontecendo rápido. E agora começou-se a levantar a meninada aqui no Brasil, e isso é uma prova que não se aceita mais essa tese. E quando você me disse no início da sua pergunta inteligente: não há como compor o parlamentarismo com o presidencialismo.
AL - Com base no voto distrital...
IS - Houve um erro que cometemos na Assembleia Nacional Constituinte. A maioria dos parlamentares era parlamentarista. Montamos um texto para a Constituição de 1988 parlamentarista e fomos caminhando bem. Tanto é que buscamos na Itália a Medida Provisória. Porque a medida provisória no parlamentarismo é correta. Por quê? Porque o gabinete é que pertence ao Congresso. Numa hora em que está fechado ou numa hora de crise ele entra com a Medida Provisória. Que são assuntos tratados de extrema situação, raríssimos. E lá ficou essa porcaria chamada “Medida Provisória”, que é o instrumento do parlamentarismo usado pelo presidente. Foi aí que ele aumentou o tamanho do chicote.
AL - O saudoso jornalista José Asmar certa vez escreveu uma obra fantástica e eu me prendo por uma frase, salvo engano, de Alfredo Nasser: a oposição também governa. Quando é que a oposição governa?
IS - Ela governa estando presente. Ela governa como braço da minoria. Ela governa por instrumentos importantíssimos no parlamento, como nós temos as chamadas Comissões Parlamentares de Inquérito, que podem ser convocadas com um terço só dos membros do parlamento. Ela tem quer ser eficiente. Ela não precisa estar compondo o governo, mas ela tem que estar presente porque ela significa aquela voz democraticamente e eu faço isso na câmara, quero dizer, a minoria tem todo direito de se manifestar. Ora, e a própria Constituição já fez isso: quando você pega o conselho da República, ele é composto de quê? Da maioria, da minoria, do presidente da República, do Congresso, mas põe lá: as bancadas menores e as bancadas maiores. A minoria tem assento. Então, isso prova que ela tem que ser respeitada. Agora não dá para ela manietar a maioria. Ela não pode fazer isso também. Porque a maioria governa, ela vota e decide. Agora a minoria é participativa e é onde leva o protesto por não concordar muitas vezes, com um grupo tão maciço e unânime. E unanimidade não existe dentro do cemitério, e nós sabemos disso.
ALJr – Presidente, neste primeiro ano o governo Dilma Roussef passou por uma série crise ministerial, culminando aí com a queda de vários ministros. Como o senhor vê isso?
IS - Vejo com naturalidade sem me espantar. É comum ela estar dentro de um processo que precisamos avaliar. Ela entra no governo Luís Inácio da Silva e depois foi eleita por ele. Portanto, há uma estrutura política de base eleitoral montada por ele e não poderia ser diferente. E ele também tem a participação no processo eleitoral, de um partido muito grande, muito forte, que é o PMDB. E tem todo partido como aliado nessa composição. Ela mesmo, se que quisesse pensar diferente, teria caminho porque o processo eleitoral andou por essa formação. Montado isso começam a surgir às crises. Ela que vai ter agora a competência não só como técnica que é e, diga-se de passagem, preparadíssima como técnica, vai se saindo bem. A crise vem de vários locais, de varias matizes. Isso realmente cria o problema, mas me parece que vem sendo construída uma ideia interessante: não está permitindo que a crise prolifere e cresça. Ela tem procurado buscar o saneamento disso. Tudo isso faz parte da democracia. O que não pode é todo o governo continuar assim porque senão ela não vai governar nem dirigir.
AL - Presidente, diante desse quadro exposto pelo Lessa Junior e tão bem explicado pelo senhor, eu pergunto: o que fazer para acabar com a corrupção no País?
IS – Olha, tem que acabar com o homem e o mundo, porque a corrupção existe quando o homem surgiu. E não sei se você se lembra, mas deve se lembrar e o Júnior, sabemos que a criação humana gerou um cataclismo na cabeça de quem criou, que foi Deus. Em Gênesis, no capítulo 6º, versículo 6º, Deus se arrepende de ter feito o homem, porque ele fez o homem e depois falou assim: você é livre! Nesta hora ele abriu a grande perspectiva que agora somos responsáveis por corrigir. Deu a liberdade, mas não a liberdade em excesso, e sim a liberdade de optar, de escolher. O homem escolheu sempre pelo lado mau. Não sei se é mais fácil ou é aquela historia de poder que você falou, do poder que embriaga. O cara escolheu a cachaça que embebeda e escolheu governar depois de bêbado. Está tudo errado!
AL - Existe aí um arrependimento de Deus, na minha visão um pouco bíblica e mundana, mas Deus também criou um instrumento cruel, ele se vingou do homem estabelecendo a morte, o limite.
IS - Aí o ruim é que já é fatal. Não dá para corrigir. Aí seria o quê? O purgatório? Se ele existe, para quem existe ou o inferno. São opções bárbaras. Acho que o que realmente está faltando é isso. As pessoas saberem aproveitar melhor a seriedade das coisas. Como é bom ser honesto né? Como é bom ver as coisas sendo bem aplicadas. Eu não entendo porque nesse gigantismo do Estado existe uma lei já precisando ser modificada. Falamos da Constituição, mas a 8666, que é a lei de licitação de contratos. Temos que melhorá-la porque muitas vezes ela é imbecil. Ela se perde em permitir que façamos melhores contratações, porque o que existe é a facilidade e a impunidade quando acontece um fato. Se eu não deixo fazer na minha casa porque eu tenho que fazer dentro do poder público? Acho que agora está passando muito por essa questão mais ética de retomarmos o que começamos aqui no inicio da entrevista, que é a família começar a entrar e falar “olha, não entre lá como governante pensando em levar porque vai faltar depois, vai faltar escola, vai faltar à saúde, vai faltar o transporte coletivo. Acho que está faltando mais agora é uma massificação no sentido de quê não é vergonhoso ser honesto. Rico é aquele cidadão que entende que o caixão não tem gaveta. Você morre e não leva fortuna. Você tem que aplicar aqui e bem. E aplicar entregando pra sociedade o que é dela.
AL – Presidente, e Goiânia?
IS - Ah, Goiânia é uma maravilha! Nasci aqui e por isso que voltei como vereador. Minha mulher falou assim “oh, ficou velho, ficou caduco, perdeu o juízo, voltou à política”. Essa minha eleição, antes que vocês me perguntem, é uma eleição de agradecimento. Sou um homem feliz! Já realizei tudo o que eu quis. Goiânia me proporcionou isso, você participou, me conheceu a vida inteira. Tudo o que sonhei como ser humano, chegar a algum lugar, eu cheguei. Se não Goiânia eu não chegaria. E Goiânia é essa cidade que eu amo prezo e que estou aí como vereador brigando pela população, ao lado do prefeito Paulo Garcia, pra ver se a gente consegue fazer uma administração que o povo merece, porque o poder público nunca alcança as necessidades da população. É isso que estamos querendo.
ALJr - O prefeito Paulo Garcia vem sofrendo cobranças por parte da população e por parte da mídia, em relação ao zoológico, na área da saúde, e especialmente na questão da reforma do parque Mutirama. Como o senhor vê isso como presidente da Câmara Municipal e como aliado do prefeito?
IS -Vejo como uma questão natural. O prefeito assumiu um mandato dificílimo, que é substituir Iris Rezende Machado, que é uma coisa excepcional, porque o Iris é um obreiro, um homem que trabalha. Estamos observando que Goiânia está cheia de obras por todos os lados. Onde você anda tem uma obra, um viaduto, tem a reforma e a revitalização do Mutirama, e isso é uma dinâmica maravilhosa. Não víamos isso a algum tempo. E ele, como vice de Iris, segue no mesmo diapasão. Essas histórias a gente tem que apurar, porque ninguém é a favor, mas para isso tem o Tribunal de Contas dos Municípios, olhando. O que não pode, absolutamente, é penalizar as crianças, a sociedade. O Mutirama tem que sair. Aquilo é nosso, é um grande parque da população. Agora, se existe algo errado comprovado isso, pune-se quem participou e quem fez o ato de denegrir uma obra que é muito importante.
AL - Eu não tenho conhecimento íntimo com o Paulo Garcia. Já nos cumprimentamos, mas não o conheço no íntimo. A mim me parece ele ser uma pessoa decente. Agora, eu pergunto: diante dessa balbúrdia que nós vivemos no país e no mundo, porque que um homem decente tem dificuldade de aparecer melhor nas avaliações de opinião pública?
IS - O Paulo político é um Paulo mais novo, é de agora. Mas o Paulo médico, quando você conversa num ambiente em que ele trabalha, no ambiente em que ele vive, aí você vê uma pessoa doce, um excelente profissional de respeito. Agora, quando você tira esse homem da sua residência, do seu habitat profissional e o coloca no mundo político, ele demora um pouco mais. Mas você observa aquele jeitão mesmo, de pessoa sóbria, tranquila, que em nenhum momento perdeu o equilíbrio. E olha que fizeram ataques horrorosos como se ele tivesse alguma coisa e ele nunca perdeu o equilíbrio. É isso o que frisamos, já é a visão do estadismo. E eu posso te afiançar pelo que eu já conheço e pelo que eu já trabalho com ele, é um homem de bem, e a cidade só tem a ganhar. É trabalhador e se a mídia não consegue ainda mostrar é só olhar e ver que Goiânia nunca tinha sido mexida dessa forma. Precisamos de um transporte coletivo barato, de um transporte coletivo subsidiado e isso é o tempo que vai fazer e precisamos de um governador do lado, o prefeito e a presidente da República. E isso é um problema nacional, é um problema de todos, e ele vai buscar isso. Agora, essa defesa que eu faço, não é uma defesa apaixonada. É uma defesa de quem está dentro do poder e vendo com toda democracia. Para você ver, a oposição lá comigo, ela fala a hora que quer, ela denuncia quando pode. Porque nós estamos apurando.
AL - Existe uma base aliada em todos os níveis. A base aliada municipal em torno do prefeito Paulo Garcia parece um pouco desarranjada, muito pouco alinhada com o projeto que está aí para 2012. O que fazer para unir essa base aliada e especialmente o PMDB, em torno desse projeto de 2012.
IS - Não há desarticulação. O que existe é a falha do sistema presidencialista. As maiorias, dentro dos parlamentos, aqui, nos Estados Unidos, é eventual. Quero dizer: pra cada votação, uma maioria diferenciada, e isso no parlamentarismo não existiria. Porque lá você faz as alianças em cima de programas. Aqui você faz as alianças em cima de nomes. Por exemplo, como é que se vota no Brasil: você vota no Marconi Perillo, você vota no Lula, você vota no Iris Rezende, você vota no Iram Saraiva, mas não se vota num programa de governo. É aí que está o erro. E aí você cria um mito e esse mito, na maioria das vezes, é de “pé de barro”, porque na hora em que ele precisa de uma estrutura ele tem que fazer a composição. É isso o que vem acontecendo. A presidente Dilma vai sofrer isso, o governador Marconi vai sofrer isso, e o prefeito Paulo Garcia não seria diferente. E ele tá sofrendo isso. E todas as vezes que ele precisou de uma votação maciça, ela apareceu!
ALJr - Quais são as expectativas da reeleição do prefeito Paulo Garcia? E o senhor buscará reeleição ano que vem?
IS - Não. E eu já vou anunciando que eu tenho que agradecer a minha cidade pelo mandato de quatro anos. Espero não estar descumprindo o que prometi em praça pública. Quero, não só como vereador, e agora como presidente, fazer um trabalho sério, um trabalho em que a casa se engrandeça e que o povo sinta que valeu a pena que eu voltasse num agradecimento à sociedade. Então, eu não sou candidato à reeleição. Quero trabalhar pela reeleição, ou eleição primeira, porque ele (Paulo Garcia) está sucedendo a Iris Rezende. É um compromisso que eu tenho nacional. Por exemplo, se o meu PMDB está composto com o PT de Paulo Garcia para eleger Dilma, por que nós teríamos que ter uma conduta diferenciada aqui? Então, acho importante, nesse primeiro momento, que essa unidade permaneça. Não estou aqui me fazendo covarde diante de nada, mas estou diante de uma situação interessante: se ele foi um homem sério, equilibrado, vice de Iris e serviu para ser vice, por que é que um peemedebista não serve para ser vice de Paulo Garcia? Essa é a grande questão que deve ser posta, e não discussões menores. E as discussões menores e as maiores devem ser tratadas dentro do partido. Porque o partido é que não pode se perder numa série de fantasias. Então se ele continua uma administração que foi boa, que não há críticas a essa administração, pontua-se umas situações, mas no macro a administração vai bem, porque não há nenhuma frente de trabalho que não está continuando. E dá o luxo ainda à imprensa de muitas vezes cobrar, porque se falou que inauguraria uma praça dia cinco, e ela vai ser inaugurada dia dez, aí eles cobram: “ah, mas porque não inaugurou dia cinco?”
AL - Um detalhe importante nesse processo Paulo Garcia é que ele está tendo dois anos do governo Dilma e seja quem for o eleito em 2012 vai ter dois anos do governo Dilma...
IS – É um raciocínio inteligente, de estadista, ou seja, quem olha atrás do morro tem que ver que está se armando uma estrutura para que haja uma sintonia entre os poderes, e que de resto, isso é descer do palanque: é governar. Porque o Paulo tem ido toda semana buscar recurso em Brasília, e estão sendo aplicados aqui. É aquilo que eu falei, porque ele sozinho não tem condições.
ALJr - Presidente, Câmara Municipal de Goiânia: como é que estão os embates, os entraves entre os vereadores?
IS - Vejo com a maior democracia. Naquele horário, por exemplo, de expediente, horário livre, os vereadores vão, colocam e defendem as suas posições partidárias, as suas posições dentro do município. E eu acho uma inteira democracia. Temos uma maioria respeitável que nunca massacrou a minoria, que é a oposição. Acho que vai correndo bem e o foco da Câmara é este mesmo, trabalhar nesta linha e permitir que a casa vote aqueles projetos que interessem à população. Lá estamos fazendo política, debatendo política. Mas quando estamos legislando, estamos legislando e quando estamos fiscalizando, estamos fiscalizando. A Câmara tem dado bons saltos de qualidade nesse trabalho que temos feito nestes últimos anos.
AL - Eu queria só fazer uma colocação, que eu fiz, inclusive ao ex-prefeito Iris Rezende, e fui até ao governador Marconi Perillo em 2003, e sugeri que se chamasse para uma mesa redonda, como esta, o então governador Joaquim Roriz, para que se estabelecesse um plano de trabalho e até de salvação dos interesses goianos junto ao governo federal. Essa ideia, que naquela época eu passei para eles, seria oportuna nesse momento para lideranças maiores discutirem as suas posições diante dos graves problemas que afrontam o estado de Goiás?
IS - Eu só vou te corrigir no tempo do verbo: não seria não, é! É interessante, e não só interessante como necessário. É aquilo que eu te falei: não podemos ficar, depois da eleição, em cima de um palanque, partidarizando as questões. Veja que isso faz parte do nosso sistema democrático e da própria composição nossa. O Brasil é um país de Congresso bicameral: Câmara dos Deputados e Senado. Por que o senado? O senado é aquela casa que vem pra decidir. Isso é coisa de estadista. Então se o senado mostrou que é a casa que representa o estado, que direito tem um governador, um prefeito, um presidente da República de se chocar quando o interesse é comum? Essa é a discussão de alto nível. E isso não significa um levar um prato para o outro colocar a comida, não significa adesão. É preciso o povo e os políticos terem consciência de que foram eleitos pra isso. Na hora aprazada, o partido mais organizado assume o poder. Ou se faz isso, ou vamos voltar à idade média, ou talvez até à pré-história. É preciso consertar essas questões, e acabar com esse espaço: se perdi, eu espero a minha próxima; se ganhei, eu tenho que ter o equilíbrio de entender que o meu adversário não foi derrotado, não. O meu adversário é a falta de comida, é a moradia e o transporte que não existe. E estes é que devem ser os adversários dos poderes.
ALJr - Queremos agradecer sua presença e fique à vontade para as considerações finais.
IS - Eu é que agradeço Lessa Júnior, você que tem uma escola, você que tem um berço não só familiar, mas político e jornalístico. Quero agradecer a oportunidade e dizer que o seu programa vai caminhando sempre de vento em polpa. Mas é porque tem o pai, que é o Antônio Lessa, e eu sou suspeito de dizer, porque é um amigo fraterno e conseguimos fazer uma belíssima amizade que não acaba. Nós não nos encontramos todos os dias, mas nos amamos como seres humanos. E eu quero agradecer a oportunidade de poder voltar a ser aquele político romântico que sempre fomos. E lá na câmara municipal contem comigo que eu contarei sempre com a imprensa vigilante como sempre foi. Parabéns a vocês!
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