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07/11/2011 - *Solange Noronha
Muito se falou nos últimos dias da facilidade do brasileiro de esquecer o passado, ou fazer brincadeira com coisa séria (não de mau gosto, por favor). De onde vem isso?
Os escândalos políticos da vez e a doença do ex-presidente Lula suscitaram farto troca-troca de mensagens na internet — via e-mail, Twitter, Facebook, etc. — e algumas conversas em torno do jeitinho brasileiro de ser. Com razão, criticaram-se as piadas de mau gosto. Também foram alvo de comentários na rede nossa velha falta de memória, o hábito de acender uma vela para Deus e outra para o Diabo e umas tantas coisas mais, a maioria pouco lisonjeira.
Muito já se falou e especulou a respeito e há pelo menos uma escritora brasileira — de ascendência portuguesa, com certeza — que tratou muito bem do tema, de diferentes formas, em mais de uma obra. Em seu romance de estreia, “Mil anos menos cinquenta”, lançado em 1995, Angela Dutra de Menezes conta a saga de uma família que termina dando com os costados no Brasil e por meio da qual resume a história de Portugal — e o nosso proverbial perfil.
Angela Dutra de Menezes
Dependendo do lado para o qual sopram os ventos, os integrantes do clã rezam para Deus, para Jeová, ou para Alá. Não se trata de ser dissimulado, pura e simplesmente, para enganar os poderosos da vez; trata-se, isto sim, de sobreviver e garantir a posteridade. E são as mulheres — sem demérito algum — que, geralmente, lançam mão dos mais variados ardis que estão nos primórdios do jogo de cintura nacional, uma vez que descaradamente protagonizam o belo livro da autora.
A História e as histórias
Que ninguém se assuste com o título ou as epígrafes dos capítulos, encimados, cada um, por um versículo da Bíblia ou do Alcorão. “Mil anos menos cinquenta” pode parecer um tempo infindável, mas todos esses séculos são contados de modo fluido e sucinto — e o leitor, envolvido pelas tramas pessoais e apaixonadas da família da história, quase nem se dá conta de que, sutilmente, está aprendendo História, com “H” maiúsculo.
O tema fascina a autora, que voltou a ele cinco anos depois, de forma mais leve — e, ao mesmo tempo, mais histórica. Em “O português que nos pariu”, o mesmo caldeirão em que fomos forjados é remexido no sentido anti-horário, em historietas engraçadas que são (ou mostram) a cara do país — como “Reconquista ou onde nasceu o cordial temperamento brasileiro”, “Gente fina é outra coisa”, “O pombal dos jesuítas” e “Bê-a-bá dos tratados econômicos”.
A tônica, aqui, é o bom humor — e que ninguém se engane, achando que, por usá-lo a mancheias, Angela Dutra de Menezes trai suas (nossas) raízes ou ofende nossos patrícios. Ao contrário, ela identifica muito bem o que deles herdamos — e se identifica com a alma lusitana que trazemos no peito. Não à toa, este mês a jornalista e escritora toma posse numa cadeira da Academia de Artes e Letras de lá. E seus temas continuam atuais e pertinentes, como a internet está aí para provar. (*Solange Noronha/Opinião e Notícia)
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