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11/11/2011 - *Hugo Souza
Os estudantes que ocuparam a reitoria da USP não são uma vanguarda e o movimento estudantil está a mercê de partidos eleitoreiros, mas...
Os desdobramentos e a repercussão dos acontecimentos correntes na Universidade de São Paulo (USP) envolvendo estudantes, polícia e reitoria têm mais a ver com entorpecentes questões político-partidárias e tóxicas razões eleitoreiras, e menos com maconha.
PT e PSDB, que estão prestes a se engalfinharem mais uma vez pela prefeitura de São Paulo, colocaram o bloco do falso moralismo na rua e disputaram quem seria mais valente no trato com os manifestantes da USP.
De um lado, o governador tucano Geraldo Alckmin disse que alguns estudantes da USP precisavam ter aula de democracia, e mandou a tropa de choque da polícia militar ensinar a lição com fuzis em punho, helicópteros e cavalos, em uma operação que resultou em 73 pedagógicas prisões.
De outro, o ministro da Educação petista Fernando Haddad, pré-candidato à prefeitura de São Paulo, primeiro morde, dizendo que o protesto estudantil na USP foi autoritário, e depois assopra, ressaltando que a PM não pode tratar o campus como a cracolândia.
No caso de Haddad, valeu até negar as ocupações estudantis de reitorias e prédios públicos três vezes antes de o galo cantar, desqualificando um tradicional instrumento de pressão estudantil que até não muito tempo atrás era apoiado pelo PT.
Proteção ou provocação aos estudantes?
Surfam ambos, Alckmin e Haddad, no noticiário da Globo e da Veja, segundo as quais os estudantes que ocuparam a reitoria da USP defendiam o “passe livre para o uso de drogas” — emissora e revista honrando a tradição dos grandes veículos de imprensa do país de açular a opinião pública contra quem se organiza para reivindicar, seja uma distância segura da polícia, seja um aumento de salário, salvo inofensivas exceções.
A despeito do esmero da Globo e da Veja em tratar o público como o Homer Simpson, tentando dividir o mundo estudantil entre drogados e estudiosos, a prisão de três alunos da USP que portavam maconha no estacionamento da universidade foi o fator detonante de uma profunda crise interna na instituição, da qual a ocupação da reitoria foi apenas o começo, ou pelo menos o começo que a mídia viu.
Trata-se de uma crise que se anuncia há tempos e cujo pivô é o convênio assinado entre o reitor João Grandino Rodas e a PM paulista depois que um estudante morreu baleado em uma tentativa de assalto na Cidade Universitária, em maio desse ano.
Acima de tudo, "manter a ordem"
Inúmeras denúncias dão conta de que, na prática, o convênio USP-PM se traduz em revistas arbitrárias de estudantes na porta da biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e grêmios estudantis invadidos sem ordem judicial, em um cenário no qual a prioridade da polícia seria mais a intimidação cotidiana dos universitários e menos a proteção efetiva dos alunos.
A própria presença de um corpo policial militar historicamente, digamos, irreconciliável com o movimento estudantil em um local de embates ideológicos e efeverscência política, como é a universidade, é vista por parte dos estudantes como uma provocação por si só.
Os estudantes que ocuparam a reitoria da USP não são propriamente uma vanguarda revolucionária e as entidades do movimento estudantil estão a mercê de partidos eleitoreiros, que no geral conduziram-nas ao peleguismo programático e ao adestramento político.
Mas é curioso como os que enchem a boca para falar de “democracia” — autoridades, jornalistas e sociólogos frequentadores da TV sempre prontos para justificar o convite ao estúdio — são os mesmos que promovem e aplaudem a cena de jovens magricelas e cabeludos sendo rendidos, algemados e presos por agentes fardados, enquadrados em “desobediência”, sob a perigosa justificativa de que acima de tudo é preciso “manter a ordem”. (*Hugo Souza/Opinião e Notícia)
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