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Paraguai: GOVERNO DE CENTRO-ESQUERDA

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26/04/2008 - Hugo Costa

 A eleição do ex-bispo Fernando Lugo para a Presidência do Paraguai deve marcar a implementação de um governo de centro-esquerda no país sul-americano, avalia o professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), Osvaldo Dehon.
“Há de se imaginar que o bispo vai implantar uma política de centro-esquerda em consonância e coalizão com vários governos da América do Sul”, afirmou. “Dificilmente, tendo em vista as ligações do bispo com toda a corrente da Igreja Católica que clama por justiça na América do Sul, o governo dele poderia ser caracterizado como de direita ou de centro-direita”, complementou.
Fernando Lugo e seu partido, a Aliança Patriótica para a Mudança, chegam ao poder depois de mais de 60 anos de hegemonia da Associação Nacional Republicana (ANR), o Partido Colorado. A alternância de poder, opina o professor, representa a renovação no “pesado” quadro político paraguaio.
“Significa muito [a eleição de Lugo] porque são ventos de mudança em consonância com uma série de governos novos que se articulam hoje na América do Sul. A herança do Partido Colorado é muito pesada e o regime político no Paraguai tem uma série de problemas. A mudança política com a eleição do bispo Lugo traz ventos de renovação.”
Apesar da expectativa de mudanças, Dehon ressaltou que a campanha de Lugo apresentou problemas nas articulações e que faltou clareza nas propostas apresentadas para as políticas interna e externa.
Nas relações internacionais, o professor destaca que alguns setores da elite paraguaia classificam o Brasil como vizinho “imperialista”. Uma das razões para tal concepção, segundo ele, está relacionada ao acordo sobre a utilização da energia gerada na Usina Hidrelétrica de Itaipu. O reajuste da energia vendida pelo complexo binacional ao Brasil foi bandeira comum aos candidatos à Presidência no Paraguai. 




 

Assunção (Paraguai) - O cientista
político Domingos Rivarola dá entrevista


Não se pode prever com segurança conseqüências políticas da eleição de Lugo 

Ana Luiza Zenker

Assunção (Paraguai) - Uma recomposição do cenário político cujas conseqüências ainda não podem ser previstas com segurança é o que espera o sociólogo Domingo Rivarola no primeiro momento depois da eleição do ex-bispo Fernando Lugo para a Presidência do Paraguai.
Rivarola também é cientista político do Centro Paraguaio de Estudos Sociológicos e diretor das Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso Paraguai).
Pela primeira vez na história do país o poder vai passar de um partido para outro sem um golpe de Estado. Além disso, Rivarola destaca que foi a eleição com menos incidentes e maior participação popular desde a queda da ditadura do general Alfredo Strossner, em 1989. De acordo com os dados da contagem prévia dos votos, mais de 65% da população foram às urnas.
“O resultado dessas eleições marca um processo evidentemente de recomposição do perfil da população votante do país”, afirmou o cientista. De acordo com o especialista dois processos sócio-políticos estão em andamento agora.
Um é a crise interna da Aliança Nacional República, Partido Colorado, que vai deixar o poder depois de 61 anos. As denúncias de fraudes nas eleições internas que definiram a candidata do partido, Blanca Ovelar, indicada e apoiada pelo presidente Nicanor Duarte, racharam a liderança partidária.
Segundo Rivarola, o grande problema neste momento “é reconstruir uma unidade de partido, o que não é fácil pela dureza da confrontação interna, que se agravou mais nestas eleições”. Ainda assim, Rivarola afirma que o partido continuará poderoso no cenário político paraguaio, especialmente no Congresso, caso haja uma aliança com a União Nacional de Cidadãos Éticos (Unace), do ex-general Lino Oviedo, terceiro colocado nas eleições presidenciais.
O outro processo que se inicia com a eleição, segundo o professor, se dá dentro da própria Aliança Patriótica para Mudança (APC, na sigla em espanhol), que elegeu Lugo. De acordo com Rivarola, a APC é formada basicamente por três forças políticas.
A primeira e mais tradicional é o Partido Liberal Radical Autêntico, opositor histórico do Partido Colorado, com bases populares de classe média, um quadro efetivo com experiência política e orientação de centro-direita.
A segunda base é formada pelos partidos e movimentos de esquerda “que são fragmentos muito pequenos, muito ativos, de presença na vida pública, mas que não têm poder político na estrutura parlamentar”.
A terceira força, que surge depois da eleição é a Unace, uma dissidência do Partido Colorado surgida em 1993, que está bem compactada e é uma força que “tratará de jogar com alianças oportunistas ou respondendo a uma estratégia de longo prazo”.
Com essa fragmentação, Rivarola explica que a principal, dúvida é sobre como a APC vai conseguir manter uma unidade de consenso para cumprir as promessas de campanha e chegar a políticas concretas nas quais se tem “uma gama que vai desde desapropriar terras a propostas muito mais conservadoras de uma social-democracia”.

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