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Relações Brasil-Japão ficam mais estreitas

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24/05/2008 - Cristiane Bonfanti

 No ano em que se comemora o centenário da imigração japonesa no Brasil, o embaixador do país asiático, Ken Shimanouchi, traça uma perspectiva otimista para as relações entre os dois países. Ele afirma que o mundo vive a terceira grande onda das relações nipo-brasileiras e que esse estreitamento é visível tanto no nível diplomático, quanto no comercial, cultural e esportivo.

"Esses novos intercâmbios são os alicerces para desenvolver as relações. O Brasil passou a manifestar plenamente suas potencialidades e o povo japonês está bastante animado com o centenário", explica o embaixador. Ele ministrou a palestra Relações Bilaterais Brasil-Japão, na tarde de terça-feira, 13 de maio, no Auditório da Universidade de Brasília.

REFLEXOS

Segundo Shimanouchi, as duas primeiras ondas das relações entre o Brasil e o Japão foram a da imigração e a dos investimentos japoneses em grande escala no Brasil, respectivamente. A primeira ocorreu entre os anos 1920 e 1930 e logo após a Segunda Guerra Mundial. De fato, por meio de movimentos como esse, a população vinda da terra do sol nascente no Brasil tornou-se enorme. Aqui vivem mais de 80 mil japoneses natos e cerca de 1,5 milhão de descendentes, segundo levantamento feito pela embaixada.

Com isso, a cultura japonesa já deixou reflexos no cotidiano brasileiro das mais diversas maneiras. Está presente nas lutas marciais, nos desenhos animados, nos mangás, nos banhos relaxantes de ofurôs e até mesmo nos karaokês. Já a segunda grande onda foi nos anos 1960 e 1970. "Lamentavelmente, essa onda não durou muito tempo e seguiu-se durante cerca de 20 anos em uma fase de estagnação das relações econômicas bilaterais", observa o diplomata.

AGENDA GLOBAL

No entanto, ele aponta que, com o avanço político e econômico do Brasil, a tendência é que as relações fiquem cada vez mais estreitas. "O Brasil passou a manifestar plenamente suas potencialidades e tem aumentado sua presença no cenário internacional. Além disso, o esforço pela abertura econômica e pelas reformas estruturais já começou a dar resultados", diz. Ele cita, por exemplo, o intenso trânsito de executivos de grandes empresas privadas, como a Toyota, a Petrobras, a Mitsubishi e a Toshiba, entre outras organizações.

Ele considera que, agora, os países devem intensificar a parceria na busca de soluções para a agenda global. São questões como desarmamento, desenvolvimento sustentável, consolidação da paz, combate ao terrorismo e proteção dos direitos humanos. "Eles devem continuar na estreita cooperação em prol de uma reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas que reflita a realidade da comunidade internacional do século 21", ressalta o embaixador.

 

 

 

 

Artigo

Japão-Brasil: fluxo e refluxo imigratório

Lytton Guimarães

Em 2008 comemora-se o centenário da imigração japonesa no Brasil. Por decisão dos dois governos, este será também o Ano do Intercâmbio Brasil-Japão, em que serão realizados vários eventos nos dois países. Mas não só a chegada de japoneses no Brasil deve ser lembrada neste ano. Atraídos por oportunidades de trabalho, milhares de nipo-brasileiros foram para o Japão a partir da década de 1980. Portanto, é oportuno examinar brevemente o fluxo e o refluxo imigratório entre os dois países e as suas contribuições.

Conflitos de interesse sobre a Coréia e a Manchúria provocaram a guerra sino-japonesa de 1894-95 e a guerra russo-japonesa em 1904-05. O Japão venceu as duas guerras e aumentou sua influência regional e internacional. Porém, o resultado foi conseguido com enormes sacrifícios, que conduziram o país a uma grave crise econômica. A alta taxa de crescimento demográfico piorava ainda mais as condições de vida. Diante desse quadro, o governo passou a estimular a emigração. O Brasil, com escassez de mão-de-obra, surgia como uma opção.

O primeiro grupo, de 165 famílias japonesas, desembarcou do navio Kasato Maru no porto de Santos no dia 8 de junho de 1908. Muitos desses eram camponeses e pequenos comerciantes, oriundos de regiões pobres do Japão, que vinham trabalhar nas fazendas de café. A partir de então, o Brasil tornou-se o principal destino desses imigrantes na América Latina.

Até o início da 2ª Guerra Mundial, mais de 190 mil japoneses vieram para o Brasil e fixaram-se principalmente nos estados de São Paulo e Paraná e na Amazônia. No começo, os imigrantes enfrentaram preconceito e muitas dificuldades: a língua, os costumes, o clima e a alimentação eram muito diferentes. Os primeiros imigrantes eram dekassegis - trabalhadores que planejavam ganhar dinheiro e, após alguns anos, retornar ao Japão. Entretanto, aqueles que tentavam regressar eram impedidos por seus empregadores. Nessas circunstâncias, muitos deles permaneceram, alcançaram sucesso e contribuíram para o desenvolvimento econômico e o enriquecimento cultural do País.

O movimento emigratório para o Brasil, interrompido durante a 2ª Guerra Mundial, teve novo fluxo entre 1952 e 1993. Durante esse período, vieram para cá mais de 52 mil japoneses. Portanto, fixaram-se no Brasil cerca de 250 mil japoneses nos dois períodos. A colônia nikkey multiplicou-se, e hoje possui mais de 1,5 milhões de nipo-brasileiros. É a maior comunidade de origem japonesa no exterior.

Muitos membros das cinco gerações de nipo-brasileiros tornaram-se famosos por suas relevantes contribuições em diversas áreas: na pintura, na arquitetura, no cinema e nos esportes. O empresariado de origem japonesa desempenha importante papel na economia e na sociedade. Profissionais de origem nipônica destacam-se nas mais variadas atividades: na área acadêmica, na pesquisa científica, na medicina, nas profissões liberais, na política, na diplomacia, na carreira militar e na área jurídica.

Graças à recuperação econômica do Japão e aos altos índices de crescimento da economia brasileira, os anos 1960 e 1970 foram de cooperação entre empresas brasileiras e japonesas. Grandes projetos foram desenvolvidos por joint-ventures. A presença no Brasil de uma grande comunidade nikkey contribuiu positivamente para o dinamismo e êxito desses projetos. Com sua rápida recuperação, a partir de meados de 1980, a economia japonesa apresentava escassez de mão-de-obra. Por outro lado, os anos de 1980 representaram uma década perdida para o Brasil, marcada por baixos índices de crescimento, altas taxas de inflação, moratória e escassez de investimentos.

Essa conjunção de fatores, coadjuvada por modificações das leis de imigração japonesas, incentivaram um fluxo migratório de nipo-brasileiros e suas famílias para o país oriental. Hoje vivem naquele país cerca de 300 mil dekassegis de origem brasileira, a maioria dos quais trabalha em funções que não são atraentes para os japoneses, recebem salários relativamente mais baixos e enfrentam preconceitos e condições muitas vezes precárias - experiência similar a de seus antepassados em terras brasileiras. Mesmo assim, conseguem remeter regularmente parte de seus rendimentos para o Brasil e desse modo contribuem para o desenvolvimento do País. Contribuem também para a difusão da cultura brasileira no Japão e para maior aproximação entre os dois povos.

Lytton Guimarães é professor e coordenador do Núcleo de Estudos Asiáticos (Neasia) do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam) da Universidade de Brasília (UnB). É Ph.D, doutor e mestre pela Michigan State University.

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