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Análise de Conjuntura: Diversidade contemporânea, direitos humanos e homocultura

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03/04/2009 - Wilton Garcia

Nós somos muitos e temos olhares distintos. Acreditamos em diversos credos, deuses, teorias e instituições. Torcemos para times (e escolas de samba) diferentes. A paixão é um gosto particular, como o tom diversificado que atenta às atrações e aos interesses específicos por pessoas, plantas, animais, objetos, coleções, fetiches ou coisa parecida.
A esse leque de variáveis (dis)juntivas, talvez, possamos chamar de diversidade. É um movimento flexível de ampliação dos ideais em dissimilitudes.
Ela, a diversidade, implica um diálogo emergente entre alteridade e diferença. O que pode ser marcante, nesse contexto, se opõe em opiniões que nem sempre são as mesmas. Ou seja, trata-se de (re)considerar as estratificações que constituem a sociedade, sobretudo nos aspectos econômico, sociocultural e político.
Hoje, a diversidade diz respeito à variedade e convivência de idéias, características ou elementos diferentes entre si, em determinado assunto ou tema. Demonstra um leque cada vez mais amplo de variantes possíveis, porque é do confronto de posicionamentos diferentes que surgem "novos/outros" resultados. Um adeus à inércia com essa dinâmica é potencial de múltiplas combinatórias em sua pluralidade: o que consegue elencar e abarcar uma máxima expressão.
Pensar a convivência humana é garantir que posições distintas possam ser estudadas e compreendidas com os embatimentos necessários, porém capazes de lidar com alternativas inerentes à diversidade. Nesse caso, o outro se torna "semelhante" quando passa a convergir pontos distintos, que podem ser complementares ou opositores. O estado da diversidade legitima a existência do outro.
Trata-se da referência que se deve ter do outro e isso serve de parâmetro para que o outro tenha de mim como o reflexo do espelho. Num processo de leitura e mediação que realinha e retroalimenta, é saber lidar com o próximo.



A partir dessa condução, fica mais fácil pensar um mundo de possibilidades, longe de uma ação reguladora, normativa do sistema hegemônico (mainstream – como tendência controladora, da maioria), que proporia barrar, castrar, diminuir, eliminar, excluir. Ao instaurar tal afirmação, instiga-se a reflexão crítica sobre o que é ser parte de qualquer padrão dominante e tentar melhorar nossas performances.
O que se espera da diferença? O que é ser ou estar diferente? Qual imagem eu tenho de mim ou do outro? A Declaração Universal dos Direitos Humanos indica que somos todos iguais e a Igreja Católica acrescenta que somos todos iguais perante Deus.
No entanto, a desigualdade social é grande no país, pois a miséria e a pobreza ainda retratam bem a cultura brasileira. De fato, a exceção parece ser uma arma constante para os "ditos" privilegiados quebrarem a regra e obter vantagem, em busca de benefício próprio.
Nota-se que nossa sociedade tem apanhado bastante com os descasos governamentais sobre a diferença humana. Não é se apoiar como vítima, é buscar justiça. Parece que o princípio notável da democracia, em seu estilo grego, ainda não foi devidamente implantado, visto que lamentavelmente o discurso político acaba acobertando qualquer tentativa de ação mais crítica, efetiva ou realista acerca da cidadania. Todos merecem respeito.
De modo estratégico, tenta-se desenvolver políticas públicas para amenizar situações (im)postas, cada vez mais críticas. Mas, por enquanto, são apenas pequenas tentativas.
É fato: aprendemos em casa e na escola que não se deve tratar mal as pessoas, com indiferença. Pelo contrário, qualquer ser humano deve ser visto pelo seu destaque, numa tentativa de criar articulações entre todos. Assim, o senso da diferença é o senso da liberdade (sem utopia) e estabelece uma razão à exceção comprometida de um "outro" – o sujeito.
Deleuze, Derrida, Guattari e Foucault, por exemplo, investigaram artimanhas filosóficas que reinstauraram a diferença e a repetição – o que reitera ao ser refeito, revivido. O lugar da diferença pontua-se pela estratégia que reúne em si um modo intrínseco da diversidade. A diferença, então, não seria uma absoluta alteridade, mas antes se vê marcada pelo movimento metonímico da repetição, numa estranha e oscilante armadilha identificatória. Nessa complexidade, a diferença do Ser elege uma percepção imprevista e surpreendente em seu próprio estranhamento de excepcionalidade. Na plenitude do diverso, viva a diferença!
A qualidade e a intensidade inscritas pela diferença podem (re)dimensionar o valor pensante de agenciamento e negociação, visto sob manifestações consensuais ou conflitivas. Esse critério, entendido como área de tensão e conflito, mostra um posicionamento agudo, constituído do que desestabiliza o controle do sistema, criando entrechoques. Denominada por seu caráter peculiar, não seria uma imagem irregular de um ethos sobreposto ao normativo, mas a mediação profunda que se ocupa da instabilidade no sistema, naquilo que não se tipifica, porque não se acentua.
A produção do conhecimento e os estudos contemporâneos devem evidenciar uma escritura forte que demonstre possibilidades de agenciamento/negociação, apreendidos para além dos campos da diversidade e da diferença. Agora, assiste-se ao interesse das pessoas e, consequentemente, à passagem da ideologia para a tecnologia. São ações circunstanciais que utilizam interstícios da nossa realidade em singularidades inerentes aos objetos, imagens, representações e contextos.


Os direitos humanos objetivam proteger as pessoas da (o)pressão no enlace da sobrevivência, cuja diferença está longe de ser um mero modelo de normas para ficar num livro ou numa vitrine, ou, ainda, qualquer derivativa de particulares e relativos ao apontar a complexidade do pensamento contemporâneo. A diferença, hoje, passa a ser pesquisada no deleite da diversidade, isto é, alternativas que movimentam os eixos do que se enuncia entre estranho, esquisito, diferente.
Paradoxalmente, sem a intenção de especificidades, entre a unidade e a universalidade, expõe-se o peculiar e a singularidade que assinam como traços identitário, sociocultural e/ou político. No agenciamento de questões transideológicas atreladas à expectativa de identidade cultural, a diversidade torna-se uma recorrência híbrida e instaura fundamentos para a elaboração de estratégias discursivas, o que se inscreve relevante nessa perspectiva conceitual.
"O amor que ousa dizer seu nome" (Oscar Wide). Esta é uma máxima dos afetos entre iguais. Uma posição de mundo!
No âmbito da diversidade sexual, por exemplo, o direito precisa caminhar muito mais com o trem da história, que está atrasado – para não dizer fora dos trilhos. São contextos que envolvem desdobramentos sobre a homocultura – o homoerotismo e seus diversos aspectos. Faltam projetos sólidos para lidar com a questão da homofobia, ou seja, a discriminação e o preconceito contra comunidades gays, lésbicas, bissexuais e transgêneras – as chamadas minorias sexuais. A diversidade se estende e uma resposta orgânica/direta do povo é a visibilidade!
Eis também uma questão emblemática: a orientação sexual não pode ser confundida com a opção sexual, porque o desejo é proeminente aos processos biopsicossociais, para além de uma mera escolha particular e, por isso, urge a dignidade da diversidade sexual/cultural.
Para essa tarefa tornar-se um enfrentamento mais positivo, a universidade precisa fomentar a produção de conhecimento interdisciplinar sobre os direitos humanos e a homocultura no país. Com isso, organizar e disponibilizar para consulta um fundo documental, bibliográfico, da memória homocultural brasileira. Com essa dupla vertente, inauguraria núcleos de referência intelectual no espaço universitário/acadêmico brasileiro.
Cazuza, em um programa de televisão, certa vez, perguntou para Ney Matogrosso: "Ney, por que somos assim?", e ele, rápido, respondeu: "Simplesmente somos o que somos e pronto!".


Wilton Garcia é artista visual e doutor em Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.


 


 


 

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