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04/09/2009 - ROSEMEIRE SOARES TALAMONE
Popularidade de Lula está diretamente ligada a fatores econômicos, em especial à oferta de emprego, mostra pesquisa
Os altos índices de aprovação do presidente Lula e as hipóteses apontadas para essa popularidade, ora atribuída ao bom desempenho da economia, ora ao carisma do presidente, despertaram a curiosidade de dois pesquisadores da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, Alex Ferreira e Sérgio Sakurai.
Após uma análise rigorosa dos índices mensais de popularidade de Fernando Henrique Cardoso, em seu segundo mandato, e de Lula, associados a variáveis econômicas e ao cenário político do País, os pesquisadores chegaram à conclusão de que a popularidade do governo está diretamente vinculada a variáveis econômicas, mais especificamente ao item desemprego. “Os resultados qualitativos preliminares concluem que não há dúvida de que a aprovação de um presidente está diretamente vinculada à economia, tanto doméstica quanto externa. E isso vale tanto para o presidente Fernando Henrique como para o presidente Lula”, relatam. Os pesquisadores lembram que estudos internacionais corroboram essa idéia de que a economia é um dos principais determinantes da popularidade de um governo.
Mas o estudo conclui também que não há dúvida sobre a influência do fator Lula nessa aprovação. “Porém, esse fator é bem menor do que aquilo que comumente se pensa. Esse fator representa algo entre 5% e 9% de sua taxa de aprovação”, relata Ferreira.
A popularidade do presidente Lula, segundo a pesquisa, que somou os índices de ótimo, bom e regular, chegou a 94% em janeiro deste ano. “Foi quando Lula alcançou sua maior aprovação, atingindo 725 pontos. A maior aprovação de FHC chegou a 333 pontos.”
O professor Sakurai revela que, no exterior, esse tipo de análise não é novidade, mas no Brasil o que existe são análises focadas no período eleitoral e voltadas a gastos dos governantes com pretensões de reeleição, por exemplo. “O que buscamos é inédito do ponto de vista de análise de popularidade do presidente da República. Quisemos captar o efeito de várias variáveis sobre a popularidade do presidente, desde econômicas até políticas. Por exemplo, se nada acontecer no Brasil e houver uma turbulência econômica lá fora, como isso afeta a aprovação do presidente, e vice-versa? Ou, se houver uma alta na taxa de desemprego no Brasil e nada ocorrer no exterior, como fica essa popularidade? Ao analisar isoladamente e em conjunto essas variáveis, sabemos exatamente qual ou quais estão diretamente vinculadas aos resultados.”
Para os pesquisadores, comparar os dois períodos econômicos, dentro de certos limites, é algo bastante delicado. “Durante o governo FHC, por exemplo, a meta principal não era apenas reduzir a inflação, mas mantê-la baixa ao longo do tempo, para dissipar a cultura inflacionária do País.”
Essa meta foi se tornando cada vez mais complexa na medida em que várias crises internacionais na segunda metade da década de 90 foram se sucedendo. Durante o governo Lula, a economia brasileira tirou proveito de um ambiente de forte liquidez internacional e forte crescimento econômico, o que afetou a economia brasileira tanto através de maiores exportações como por meio do aumento do consumo interno impulsionado pelo crédito. “Em suma, o contexto econômico vivenciado pelo presidente FHC, tanto nacional como internacional, era significativamente distinto dos anos em que Lula está no governo”, afirmam.
Variáveis analisadas
Para o estudo, os professores trabalharam com variáveis denominadas proxys, que tentam captar o efeito de algum fator que não é perfeitamente medido. O período do estudo foi de setembro de 1999 a fevereiro de 2009. “Fizemos análise rigorosa de regressão, como um laboratório, captando o efeito de cada uma de várias variáveis sobre a aprovação, e os resultados indicam exatamente os índices divulgados. Vamos apurar ainda mais esses dados, mas em todas as análises os resultados das variáveis são equivalentes às oscilações na popularidade tanto do presidente FHC como do presidente Lula”, diz Ferreira. Para os índices de popularidade foram utilizados dados do CNT-Census e Datafolha.
Foram analisadas 13 variáveis – inflação externa, inflação interna, déficit público, importação sobre reservas internacionais, risco-país, déficit em conta corrente externa, taxa de câmbio, desemprego local, desemprego nos Estados Unidos, tendências (qual pode captar o crescimento do bolsa-família), o efeito Lula – medido isoladamente, ou seja, se todas as outras variáveis permanecerem estáveis, ainda se verifica se há variação dos índices de popularidade – e, por último, o cenário político nacional, dividido em bom e mau.
“Como utilizamos uma modelagem econométrica rigorosa na avaliação das variáveis, empregamos critérios técnicos e selecionados por meio de algoritmo aquelas que estatisticamente se apresentaram como principais – taxa de câmbio, desemprego doméstico, desemprego nos Estados Unidos, mal cenário político, efeito Lula e mais uma variável técnica. Foram feitas análises individuais de cada uma dessas variáveis e, ainda, da combinação entre elas”, relata Ferreira. O software utilizado foi o Autometrics, desenvolvido na Universidade de Kent, na Inglaterra.
O professor frisa que, quando se faz um teste econométrico de algo que interessa estudar, mesmo que estatisticamente não se tenha certeza de que uma variável afeta a outra, se o sinal é aquilo que esperávamos, isso já é importante. Ferreira exemplifica com a questão da inflação e do déficit público. “Estatisticamente, não podemos dizer que a inflação e o déficit público afetam a popularidade, pois o coeficiente encontrado para as suas análises não é diferente de zero, mas podemos dizer que elas apresentaram um sinal esperado, ou seja, quando a inflação ou o déficit aumentam, a aprovação diminui.”
Capa de revista
Para o cenário político, o professor Sakurai criou uma variável que representasse as condições políticas do período estudado. Para isso, subdividiu a variável em bad e good – mau e bom –, a partir da análise das capas da revista Veja, semanalmente, durante todo o período do estudo. “Se, num mês com quatro revistas, três denunciaram corrupção, por exemplo, quer dizer que tivemos 75% de capas negativas, e essa variável explica bastante a variável da popularidade, em especial a reprovação. A notícia ruim tem um impacto negativo muito forte sobre a popularidade do presente, enquanto a positiva não é estatisticamente significativa”, diz Sakurai.
Os pesquisadores alertam, entretanto, que isso não quer dizer que o brasileiro em geral leia a revista, forme uma opinião e isso reflita na popularidade do governo. “Acreditamos que a revista é que reflete a situação política do País. Não é ela que está formando a popularidade do presidente.”
Os pesquisadores relatam algumas curiosidades nessas análises. O desemprego externo, por exemplo, representa o estado da conjuntura mundial. Quando a taxa de desemprego piora lá fora e nada aconteceu no Brasil, isso vai refletir positivamente na aprovação do presidente aqui. Já a inflação apresentou-se como uma variável interessante. Num período e ambiente de inflação baixa, ela não é significante. Com relação ao câmbio, quando o dólar aumenta, mantendo todo o resto estável, a aprovação do presidente aumenta. “Como são variáveis proxys, que captam os efeitos de algo que não é medido perfeitamente, podemos dizer que o aumento do dólar representa um Brasil mais competitivo no exterior, e isso influencia a popularidade do presidente”, diz Ferreira.
Ele é o cara?
O procedimento estatístico implementado pelos pesquisadores permitiu obter o coeficiente de 43,3% de aprovação para qualquer presidente em início de mandato, levando-se em consideração o período que os cientistas políticos chamam de “lua-de-mel”, que são os cem primeiros dias. “No gráfico, pode-se observar que a popularidade do governo FHC já vinha crescendo. Então ficou a dúvida: O Lula realmente é o cara?”, questiona Ferreira.
A conclusão dos professores, baseados no estudo é: sim, mas em partes. Já excluindo todos os demais fatores, inclusive as capas da revista, o “fator Lula” influencia na sua própria popularidade. A aprovação de um presidente é em função de várias variáveis. O procedimento permite captar o efeito isolado de cada uma delas sobre a aprovação. “Mesmo tirando a influência isolada de todas as cinco variáveis, referentes à política e à economia, ainda sobra alguma coisa, que é ele, o ‘efeito Lula’; esse efeito é que dizemos que é em torno de 5% a 9%. Se tudo fosse igual, sem nenhuma alteração, ainda assim ele teria o efeito de sua popularidade”, resume Ferreira.
O professor alerta que críticas ao trabalho podem acontecer, pois não conseguiram dados para o período do primeiro mandato de FHC, nem para se aprofundar nos dados relativos a programas sociais, como o Bolsa-Família. “Mas o objetivo foi alcançado, a popularidade está diretamente ligada a fatores econômicos, em especial ao desemprego”, conclui.
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