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“O patriarcado foi o grande perdedor do século XX”, diz Göran Therborn

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18/09/2009 - Maiesse Gramacho

Estudioso dos sistemas familiares no mundo, o sociólogo sueco que esteve em Brasília para duas conferências na UnB, diz que, apesar das mudanças, o desejo de se constituir uma família segue forteGöran Therborn, um dos mais respeitados sociólogos da atualidade, sustenta que as mudanças sociais ocorridas no século determinaram a derrocada do patriarcado. E agora, segundo ele, a humanidade caminha rumo a famílias mais flexíveis e menos estáveis. “Isso não significa que a família esteja desaparecendo, só que agora pode tomar várias formas”, disse o professor da Universidade de Cambridge (Inglaterra).Autor de Sexo e Poder, livro em que avalia os sistemas de família, de sexo e de gênero no mundo e que é considerado pelo historiador Eric Hobsbawn como um dos mais importantes publicados nos últimos 30 anos, Therborn visitou a Universidade de Brasília na semana passada para duas conferências. Durante a primeira, o sociólogo falou sobre os temas tratados na obra, e na segunda, sobre os processos sociais globais. Em Sexo e Poder, o senhor analisa o período de 1900 a 2000, ou seja, 100 anos. O que mais mudou nesse período?Therborn – Muitas coisas mudaram, mas o que chama a atenção é aquilo que não mudou. E o que não mudou é a diversidade mundial. Há ainda sistemas de famílias, sistemas de relações de sexo e de gênero muito diferentes no mundo. E não há uma convergência entre esses sistemas. Ou seja, ainda que o mundo esteja globalizado, não há uma convergência.Therborn – Não há, ainda que os contatos sejam muito mais estreitos agora do que antes. Se compararmos, por exemplo, o sistema de família na Europa Ocidental e na Índia, atualmente e há 100 anos, verificaremos que provavelmente a diferença seja maior hoje. No livro, o senhor diz que o patriarcado é um sistema de família que não voltará mais...Therborn – O patriarcado foi o grande perdedor no século XX. Três momentos históricos foram cruciais para isso: o primeiro, depois da I Guerra Mundial, com as mudanças na União Soviética e nos países escandinavos; o segundo, depois da II Guerra Mundial, com a nova constituição japonesa e com a declaração da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre Direitos Humanos. Nesse momento, também ocorre a revolução chinesa, que alterou muitíssimo as relações de família e de gênero na China; e, finalmente, o terceiro, nos anos 1970, com a realização de uma conferência da ONU sobre a mulher, em 1974, no México. Essa conferência modificou muito as coisas, principalmente na América Latina. Já que o patriarcado perde espaço, que modelo de sistema de família teremos?Therborn – Caminhamos para um padrão mais diverso, mais flexível, menos rígido, de família, sobretudo na Europa e nas Américas – na África e na Ásia é um pouco diferente. Mas isso não quer dizer que a família esteja desaparecendo, ao contrário. Atualmente, até os homossexuais querem se casar, adotar filhos. Então, a ideia de família, o desejo de se constituir uma família segue sendo forte. Só que agora a família pode tomar várias formas. Ou seja, estamos vivendo um momento de mudanças.Therborn – Sim, mudanças para formas mais diversas, pluralistas. E esse câmbio é facilmente percebido se a situação atual for comparada à situação da metade do século passado, porque a família nuclear clássica culminou nos anos 1950 e começos dos anos 1960. O senhor diz que as mudanças no sistema familiar no Ocidente começaram a acontecer quando as mulheres chegaram ao ensino superior. Isso mostra o poder da educação em mudar algo estabelecido socialmente?Therborn – A onda do feminismo dos anos 1960 foi liderada por mulheres jovens, de educação superior. E, atualmente, nos países da África do Norte e da Ásia Ocidental, países islâmicos, a maioria dos estudantes universitários é de mulheres. Isso é uma “bomba” contra o patriarcado tradicional nesses países. Como todas essas transformações se refletem na relação sexo e poder?Therborn – Historicamente, o poder sempre foi do sexo masculino. Essa masculinidade do poder segue existindo na maioria dos países do mundo, mas há sinais interessantes de mudanças, como, por exemplo, a aparição de ministras de Defesa. Isso começou na Europa Ocidental nos anos 1990, na Finlândia, na Noruega. Depois na França e na América Latina, no Chile. E, atualmente, na Espanha. Isso mostra uma mudança em curso, ainda que sejam exceções. Tendo em vista tais transformações, o que podemos esperar para o século XXI?Therborn – Esse é um período longo para fazer predições, ainda mais em Ciências Sociais, mas creio que os processos atuais continuarão, ou seja, a tendência a famílias mais flexíveis, de um lado, e menos estáveis, de outro. Também essa tendência recente de reconhecimento oficial da diversidade sexual é algo que vai consolidar-se. O senhor também é um estudioso da democracia. Como observa o desenvolvimento da democracia mundo afora?Therborn – Atualmente, a democracia é o único sistema explicitamente considerado legítimo no mundo. E isso é um grande progresso. Em alguns países, há, pelo menos retoricamente, um reconhecimento de que a democracia seja o sistema político “normal”. Mas existe um certo “fetichismo” da democracia. Muitas das eleições que ocorrem no mundo – como a que ocorreu recentemente no Afeganistão – não são eleições livres, não são expressões do sentimento do povo. Mesmo assim, e ainda que a democracia seja utilizada em estratégias manipuladoras, em muitos países, como no Congo Kinshasa, por exemplo, milhões de pessoas fazem fila para votar. Há um sentimento popular de democracia, que é algo novo e muito positivo.  E sobre a democracia brasileira, que comentário faz?Therborn – O Brasil, claro, é um país democrático, mas no caso da América Latina se deve acrescentar que a democracia institucional, ou democracia eletiva, tem seus limites. Por exemplo, todos esses assassinatos de políticos, de militantes sindicais, de movimentos sociais e de porta-vozes de direitos humanos. Isso ocorre na maior parte dos países da América Latina, inclusive no Brasil, e significa que a democracia e a não-violência não penetraram em toda a sociedade, que ainda há tendências autoritárias, violentas. Quais são seus projetos atuais?Therborn – Atualmente, tenho me dedicado aos processos globais, frequentemente à dimensão histórica deles, como no caso dos sistemas familiares. Também estou preparando um livro sobre o mundo depois da globalização, em que faço uma crítica ao conceito de globalização. Tenho, ainda, vários projetos de estudo sobre os mecanismos e processos que geram desigualdade no mundo e, por outro lado, os mecanismos e processos que possuímos para reduzir essa desigualdade. Também estou envolvido em um projeto a respeito das “cidades de poder”, as capitais do mundo, e, nele, devo incluir Brasília. Por isso me alegro muito de estar aqui.


 

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