05/02/2010 - Helvécio Cardoso
O escândalo envolvendo a filha de Jorcelino Braga não foi casual. Foi armação política para desmoralizar o secretário. Tucanos são os principiais suspeitos de deflagrá-lo.
Fevereiro começou calmo, muito calmo. Aquele tipo de calmaria que antecede a tempestade. A maioria dos políticos viajando em férias. As casas parlamentares, em recesso. Dois fatos políticos importantes aconteceram durante a última semana. O primeiro deles foi a entrevista de Iris Rezende Machado externando o seu aborrecimento com Meirelles, a sua falta de paciência em face da indefinição do presidente do Banco Central. Outro fato significativo foi o depoimento de Ovídio de Angelis à CPI da Celg. Foi um depoimento esclarecedor e baseado em provas documentais. Não mereceu destaque da imprensa local, porque joga por terra os dogmas estabelecidos pela propaganda marconista sobre a culpa do PMDB pela crise da estatal goiana. De Angelis é filiado ao PSDB.
As broncas de Iris e os esclarecimentos de Ovídio de Angelis caíram no mais absoluto esquecimento em face do escândalo envolvendo a filha do secretário da Fazenda, Jorcelino Braga. O Popular e o Diário da Manhã e as emissoras de televisão se esbaldaram. Há tempos não surgia um caso momentoso como esse envolvendo figurões da política goiana. Desde o caso Caixego, quando Iris Rezende e seu Irmão Otoniel Machado foram linchados moralmente, não se tinha notícia de escândalos de tamanha gravidade.
Corrigindo: notícias tinham. Mas há, na imprensa goiana, um pacto de cumplicidade protegendo o senador Marconi Perillo. O senador tucano está respondendo a processo por improbidade administrativa e a inquérito judicial por ilícitos eleitorais. O leitor goiano que desejar ficar bem informado desses fatos terá que ler o Estado de São Paulo, única publicação onde essas coisas podem ser lidas.
Nenhum jornal publicou qualquer fato que possa incriminar Jorcelino Braga. Em princípio, uma filha dele, de trinta anos de idade, é que estaria sujeita a responder por crime de exploração de prestígio. Mas exploração de prestígio é um delito quase venial; então, o enfoque dado pelos repórteres das folhas diárias – cujo saber jurídico é notabilíssimo – já tipificara o caso como sendo de extorsão. Sim, a filha de Braga estaria extorquindo uma entidade filantrópica, embora os vídeos exibidos deixam evidente que a moça não usou nem de grave ameaça nem de coação moral irresistível para obrigar seus “clientes”, vamos dizer assim, a lhe molhar a mão. Pelo contrário. Dá para perceber que eles, os clientes, estão muito a vontade e com o maior prazer entregam à improvisada lobista uns maços de dinheiro.
Repita-se: não há um único fato que desabone a conduta de Braga. Mas é preciso atingi-lo naquilo que ele tem de melhor e mais caro: a sua honra. Os fatos jorram em profusão. Não há nenhum esclarecimento. Apenas muita confusão que produzem na opinião pública a impressão de que Braga, afinal, também é corrupto. Não é à toa que, na tarde de quinta-feira, alguns militantes tucanos com quem conversei não disfarçavam a sua alegria. Na avaliação deles, Braga estava, agora, liquidado politicamente.
Para entender o caso
Os vídeos exibidos pela TV Anhanguera na quarta-feira (3) mostram a filha do secretário tratando com seus “clientes”. Em um dos vídeos, Anniela Ganzarolli Braga, publicitária e estudante de Direito, recebe 4,8 mil reais, mais três pacotes de dinheiro, com valor indeterminado. A entrega é feita pela presidente da Renafé. A Renafé foi fundada em 2000 por Ivone Francisco dos Santos para cuidar de crianças em situação de risco. O contato entre ela e a filha do secretário teria ocorrido em 2007, meses depois da nomeação de Braga para a Sefaz. No primeiro vídeo, Anniela diz que a aprovação de projetos de lei na Assembléia, que permitia a transferência de mais recursos para a entidade, seria facilitada por conta da intervenção do secretário. “Isso aqui tem que conversar é com o dono dos porcos. Porque é tudo subalterno. A ordem tem de vir de cima. E o dono dos porcos é meu pai”.
A publicitária promoveu encontro entre Braga e Ivone. Dias depois, Ivone recebeu do então presidente da Celg, Enio Branco, em função de um convênio firmado com a estatal, 54 mil reais para quitar dívidas. Ivone reclamava do alto valor do aluguel (R$ 1,3 mil) e da ameaça de despejo. No ano seguinte, a Renafé passou a receber R$ 23.452 por mês da empresa. Outro convênio, assinado com a Secretaria de Saúde, garantiu a transferência de R$ 248 mil, só liberados em 2009. O contrato com a Celg não foi renovado no ano passado.
O secretário admitiu aos jornais que recebeu a filha e Ivone no gabinete. Diz que fez uma doação no valor de R$ 400, e recolheu contribuições de servidores da Sefaz que, somadas, totalizaram R$ 1.350 – valor do aluguel. É a mesma versão que ele contou em 2007 ao promotor Carlos Alberto Fonseca. De acordo com o inquérito aberto pelo promotor Glauber Rocha, as evidências mostram que Anniela recebeu doze parcelas de R$ 500 por conta do contrato firmado com a Celg, totalizando pouco mais de R$ 270,5 mil. Posteriormente, pediu 10% sobre o valor do convênio com a Secretaria da Saúde.
“É um absurdo imaginar que eu mandei o Enio firmar acordos com esta senhora (Ivone). A verdade é que eu liguei para o então presidente da Celg e perguntei se não teria como ele dar uma ajuda à instituição. Disse que a Renafé estava passando por dificuldades e que cerca de 50 pessoas seriam despejadas caso as dívidas não fossem quitadas. Além da contribuição de R$ 1.350, perguntei ao Ênio se não teria como ele dar uma ajuda. Mas não dei nenhuma ordem nesse sentido”, afirma Braga. Ivone, policial demitida do serviço público após 23 anos.
Querem atingir Braga
Como se vê, o única vinculação de Braga com o escândalo reside no fato dele ser pai biológico de Aniella. Esta senhora é filha dele, mas não foi por ele criada. Foi resultado de uma aventura romântica que ele teve quando jovem. Reconheceu a moça como sua filha, mas não teve muito convívio com ela.
Ivone, por usa vez, é pessoa bastante conhecida nos meios filantrópicos. Foi expulsa da polícia sob a acusação de ter cometido crime funcional, do qual foi absolvida pela justiça. Mas até hoje não foi reintegrada ao serviço público. Trabalhou no Centro de Valorização da Mulher, o Cevam, à época em que a entidade era dirigida por Consuelo Nasser, já falecida.
Fato a ser esclarecido: como Anniela e Ivone se conheceram e como vieram a se relacionar? Os vídeos foram feitos em 2007, logo depois de Jorcelino Braga ter sido secretário da Fazenda. Por quê somente agora foram trazidos a público? Onde foram gravados? Quem é o homem que aparece na sala e o que ele foi fazer ali.
Percebe-se, pela análise dos vídeos, que quem mais fala é Ivone. Ela conduz a conversa e procura deixar claro que conta com os bons préstimos de Anneila para conseguir a liberação de recursos que já tinham sido legalmente transferidos. Era a burocracia que estava empacando a coisa. Jogando habilmente com a cupidez de Anniela, Ivone oferece a ela um “adiantamento”, como que a demonstrar sua confiança em Anniela.
A câmara foi colocada em um ponto em que mostra com destaque a pessoa de Anniela e o momento em que ela põe a mão no dinheiro, ocultando quase todo o tempo a figura de Ivone. Não há nada no vídeo que sugira ameaça, violência. Ali, o papel de vítima não cabe a Ivone.
A cena, evidentemente, foi montada. O palco foi preparado para que Anniela, mesmo sem saber, interpretasse ali um papel, o de achacadora e exploradora de prestígio, ou, forçando a barra, o de extorcionista.
Quem produziu ou mandou produzir aqueles vídeos queria pré-constituir provas contra Braga, ou, o que dá no mesmo, uma peça geradora de escândalo. É o tipo da coisa que se faz para chantagear alguém.
Jornalistas não acham esses vídeos nas calçadas públicas. Eles chegam às redações pelas mãos dos que querem enlamear a honra das pessoas e produzir escândalos. Eu mesmo já cansei de receber coisas desse tipo. Na maioria dos casos, jogo no lixo, pois se trata de maquinações sórdidas visando a honra pessoal do agredido.
Para os que desejam arruinar a reputação de Braga, pouco importa se ele é culpado ou inocente. Está claro que é inocente. O que importa é o escândalo, é a generalização da suspeita, é a antecipação de veredito condenatório pelas ruas e praças. Quando a Justiça se manifestar definitivamente, ninguém mais se lembrará do caso e ninguém vai se lembrar de reabilitar moralmente o desgraçado.
A prática vem de longe, em Goiás. Triunfando pelas armas em l930, Pedro Ludovico mandou devassar a vida do arqui-rival Totó Caiado. Acusado de enriquecimento ilícito, o antigo senador da república velha – que foi despótico e tirânico, mas não era ladrão – acabou sendo absolvido anos depois pela mesma comissão governista encarregada de incriminá-lo. Deram-lhe atestado de idoneidade, mas ninguém ficou sabendo disso.
A famigerada revolução de 64 procedeu do mesmo modo. Arrastou muitas reputações à lama, mas nunca provou conclusivamente a culpa de ninguém. Em tempos recentes, tivemos casos notáveis. Daniel Antônio, o primeiro prefeito de Goiânia eleito pelo povo depois da ditadura Militar, foi acusado das coisas mais infames que se pode imaginar, e afastado do poder por ato do governador Henrique Santillo. Daniel foi absolvido pela Justiça de todas as acusações. Não houve manchetes de jornal, só notinhas de fundo de página. Darci Accorsi também respondeu a processos e foi absolvido. Depois tornou a ser acusado. Chegou a ser preso e conduzido algemado para o Rio de Janeiro. Foi mais uma vez absolvido, mas sua absolvição não gerou manchetes de jornal.
O caso mais recente foi a denúncia contra OtonielRezende, acusado de ter comandado um desfalque de 4 milhões de reais da extinta Caixego. Chegou a ser preso e mantido em prisão hospitalar. Respondeu a processo crime perante a Justiça Eleitoral. Foi absolvido. Mas este fato também não rendeu manchetes de jornais. Mas contribuiu para a derrota de Iris e Manguito em 2002.
A criação de escândalos tem sido uma arma política empregada com relativo êxito em Goiás. O PSDB é um partido que se serve amiúde desse expediente. Atualmente, patrocina na Assembléia Legislativa uma CPI absolutamente facciosa cujo único objetivo é “provar” que foi o PMDB que quebrou a Celg e inocentar os oito anos de gestão marconista de qualquer responsabilidade pelo acontecimento. Um escândalo para ser usado na próxima campanha eleitoral.
Ainda não está suficientemente esclarecida a vinculação do PSDB com este escândalo envolvendo o secretário Braga. Mas já existem alguns indícios poderosos de que os tucanos estão por trás disso.
José Segundo, em 08/02/2010
Helvécio vc faz um trabalho de jornalismo analítico da melhor qualidade, pena que o nosso PIG (como diria Paulo Henrique Amorim) está mais interessado na versão do que no fato, principalmente, em querer saber quem gravou o vídeo e quem pagou para Ivone co
alex p., em 06/02/2010
Entao esta filha e resultado de uma aventura romântica
que ele teve ? E por isso ela e menos filha? Sei... O indi-
viduo parece mais preocupado consigo mesmo que com
a filha que colocou no mundo. GOIANIA.
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