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Escolas fazem da tecnologia uma boa aliada para atrair a atenção dos alunos

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08/02/2010 - Fernanda Dias

 

Nenhum pai reclama se o filho estuda demais. Porém, se o tempo for gasto com computador lá vem a bronca… Mas, antes de chamar atenção dos jovens que estão conectados em páginas como Twitter e Facebook, é preciso ter cuidado. Por incrível que pareça, eles podem estar fazendo o dever de casa. Essas e outras ferramentas tecnológicas têm sido usadas pelas escolas para atrair a atenção dos alunos, levando os conceitos acadêmicos para um mundo que os adolescentes dominam com o pé nas costas. Para os educadores dessa geração, já não basta mais incluir aulas de informática no currículo. Inserir a tecnologia em sala de aula e mostrar aos alunos como utilizar esses novos recursos de maneira crítica têm sido o grande desafio dos professores.
 

“Saber como usar a tecnologia disponível é, realmente, um desafio para os próximos anos. Colocar computadores nas mãos dos professores não surtirá os efeitos esperados se estes não tiverem conhecimento sobre o uso pedagógico desta ferramenta educacional”, ressalta a pedagoga Bertha do Valle, doutora em Política e Planejamento da Educação e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

 

Nas aulas de geografia, mapas virtuais de vários lugares do mundo captam a atenção e incitam a curiosidade da turma por seu caráter interativo. Sites como o Google Maps e programas como o Google Earth permitem que os alunos confiram a versão cartográfica de diversas regiões ou imagens de satélite com mobilidade de observação (para cima ou para baixo, para a direita ou esquerda). Os podcasts (programas de áudio) também são uma boa alternativa: além do próprio conteúdo, eles ajudam os alunos a perceber as diferenças entre a oralidade e o texto escrito. Já com o microblog Twitter, por exemplo, é possível treinar concisão.

 

Alguns colégios estimulam até mesmo os estudantes a frequentar os sites da própria instituição de ensino, nos quais os professores postam tarefas de aula, textos para leitura, sugestões de filmes e livros e até lições de casa. Todo esse esforço não é em vão. Para Bertha Valle, a concorrência das salas de aula comuns com o mundo externo tornou muito difícil, para a maior parte dos professores, despertar a atenção dos alunos. “A motivação das crianças e adolescentes está nas últimas inovações tecnológicas e no dinamismo social que vivemos hoje”, defende Bertha.

 

O objetivo das instituições de ensino do século XXI é fazer uso da tecnologia em todas as disciplinas. No tradicional Colégio Santo Inácio, que funciona em Botafogo, na Zona Sul do Rio, no lugar de aulas de computação, há um departamento de Informática Educativa, que apoia os professores de todas as matérias:

 

“Os alunos utilizam os laboratórios e os recursos de mídia. Isso tudo faz parte do cotidiano. É colmo usar lápis, caderno. Mas, como a internet é terra de ninguém e nós trabalhamos com crianças e adolescentes, temos que ter atenção redobrada. Estamos inserindo frequentemente o uso responsável dos meios digitais. E isso também é feito com as famílias, ainda que de maneira incipiente”, explica a professora Elisabeth Bastos, coordenadora de Informática Educativa do Colégio Santo Inácio.

 

O trabalho com as famílias é importante para não haver divergências de posturas. Segundo Elisabeth, não adianta os pais bloquearem determinados sites, enquanto na escola o aluno tem acesso irrestrito a eles: “Tem que ser uma ação em conjunto, com o apoio da família em casa. A informação está disponível. O importante é saber o que fazer com ela”, ressalta Elisabeth.

 

No Santo Inácio, o contato com a tecnologia começa cedo. Nas salas do Jardim de Infância já existem computador com jogos de raciocínio lógico. “Temos alunos de cinco anos que já possuem celular. Isso já está incorporado na vida deles, não há como separar”, relata Elisabeth.

 

Uso da tecnologia nas escolas não é consenso entre as diferentes linhas pedagógicas

A relação entre a tecnologia e a escola, no entanto, ainda é confusa e conflituosa. Na contramão da onda tecnológica, há instituições de ensino que preferem evitar o uso de computador principalmente entre crianças muito novas. No Jardim-Escola Michaelis, que funciona no Humaitá e segue a corrente pedagógica Waldorf, no lugar de computadores estão cera de abelha, brinquedos de madeira, árvores e música:

 

“A linha Waldorf segue uma perspectiva de preservação da infância, do vínculo com a natureza e com as épocas do ano. Buscamos fazer brincadeiras de rua, estimular as crianças a subir em árvores, a fazer culinária. Colocando a criança em contato direto com a tecnologia, eu estou acelerando um processo. Eu tiro dela o tempo da força do corpo. A crítica não é com relação ao computador e sim à falta de consciência deste ato”, explica a professora e coordenadora do Jardim-Escola Michaelis, Ana Carina Cohen.

 

No Michaelis, há uma turma de Euritmia (a arte do movimento), que mistura crianças de 2 a 6 anos. Seguno Ana Carina, o intuito é fazer com que as mais novas venerem as mais velhas e consigam as coisas a partir do outro e não sozinhas. “As mais velhas têm gratidão porque já passaram por aquele momento. Veneração e gratidão se desdobram na nossa vida futura. Isso é muito difícil no âmbito virtual”, defende Ana Carina. O computador, na pedagogia Waldorf só entra no Ensino Médio. “Nosso currículo se desenvolve em três setênios: corporais, vínculos afetivos e mental, e intelectual. Até chegar nesse conteúdo intelectual, tem todo o desenvolvimento físico”, explica a professora.

 

Já Bertha não vê uma idade definida para que as crianças comecem a usar o computador. Ela ressalta que fatores como condições familiares, situação econômica da comunidade em que a criança vive e a participação dos pais no mundo tecnológico acabam sendo limitadores. “Em residências em que todos utilizam computadores, onde há mais de uma aparelho atualizadíssimo com as evoluções tecnológicas, onde irmãos mais velhos já utilizam o computador para se divertir, estudar, conversar com amigos, a tendência será de a criancinha querer participar deste cenário logo que começa a andar e falar”.

 

Foi assim que aconteceu com João Cláudio, de 6 anos, e Manoela, de 4: eles começaram a usar o computador em casa, com os pais, antes de a tecnologia estar disponível em suas salas de aula. Foi por causa do interesse do filho pelo desenho animado “Thomas e Seus Amigos”, que a advogada Flávia Braga entrou no site oficial e começou a navegar com ele. Pouco tempo depois, João Cláudio já pedia para entrar sozinho na página, que tem vários jogos educativos. “Se eles não tiverem acesso desde pequenos, vão acabar ficando para trás. Eu entro pouco no Facebook, por exemplo, porque isso não fazia parte da minha rotina. Sei que com eles será diferente”, afirma Flávia.

 

No colégio onde os dois estudam já há ensino de informática a partir do Jardim 2. Mas, na hora de escolher a escola dos filhos, Flávia não olhou somente se a instituição tinha os equipamentos mais modernos. Para ela, o uso da tecnologia é importante, mas não deve ser a prioridade: “É fundamental aliar as duas coisas: a escola deve oferecer tecnologia, mas tem que ter conteúdo”.

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