08/03/2010 - Helvécio Cardoso
Caindo nas pesquisas, Marconi reage tentando refazer sua imagem de bom moço. Já o prefeito Iris, crescendo nas pesquisas, tenta reforçar sua imagem de "cara legal" . Ele conseguiu o apoio formal do PT, mas ainda não foi consagrado por Lula.
O superintendente do Controle Interno do Estado, Sinomil Soares, compareceu, no início de março, perante a Comissão de Finanças e Orçamento da Assembléia Legislativa do Estado de Goiás para expor, em audiência pública, os resultados da execução orçamentária do último quadrimestre do ano passado. Como era o último quadrimestre que estava em questão, o superintendente aproveitou para prestar contas do exercício inteiro.
As contas do governo Alcides, relativas a 2009, são um primor de gestão responsável e competente. Nenhum deputado fez reparados. Pelo contrário. Parlamentares de todas as bancadas não pouparam elogios à equipe econômica do governo Alcides Rodrigues. Até os tucanos em aberta oposição ao governador, casos de Daniel Goulart, Jardel Sebba e Nilo Rezende, tiveram que admitir que a gestão financeira do governo estadual é irretocável.
Assim, a exposição deveria ter sido uma mera formalidade burocrática imposta pela lei de responsabilidade fiscal. Mas não foi isso que aconteceu. O bicho pegou. Em alguns momentos, os marconistas da linha dura perderam a compostura. A exposição de Sinomil começou com mais de meia hora de atraso e a sessão teve que ser prorrogada por mais de 40 minutos.
Os marconistas não estavam minimamente interessados em ouvir a exposição de Sinomil. Afinal, as contas estão certinhas, o Estado arrecadou mais do que estimou, fez gastos dentro da estrita previsão legal, cumpriu metas fiscais, aplicou os percentuais impostos pela constituição e, de lambuja, reduziu o estoque da dívida consolidada do Estado, fato inédito nos últimos 40 anos. Para quem pegou o Estado à beira da bancarrota, o resultado é estupendo. Mas, como já se disse, os marconistas não queriam saber dos êxitos financeiros do governo Alcides. Queriam que, de algum modo, Sinomil passasse atestado de idoneidade a Marconi Perillo.
A todo momento os marconistas tentaram desvirtuar o debate. Tentaram transformar a audiência em uma polêmica sobre o Déficit de 100 milhões ao mês deixado por Marconi. Rombo cuja existência, agora, os marconistas tentam furiosamente negar. Eles sustentam que não houve déficit. Restos a pagar não é déficit, alegam.
Sinomil evitou entrar no jogo tucano. Até porque não estava lá para bater boca. Mas, quando resolveu jogar, jogou pesado, e deixou a tucanada ainda mais furiosa. Na verdade, ele fundiu a cuca dos marconistas. Simonil explicou que "restos a pagar" é uma componente do déficit, a ponta do iceberg. O déficit foi provocado por operações de antecipação de receita junto às grandes empresas contribuintes mediante favores fiscais. Assim, o caixa do governo marconista ficou altamente alavancado. A antecipação de receita é uma espécie de empréstimo. É como alguém que tomasse dinheiro emprestado de agiota para pagar outro agiota. Entra-se em um círculo vicioso. Quando esta prática deletéria foi, afinal, interrompida, o rombo apareceu. A arrecadação real não era suficiente para fazer face às despesas. Alcides passou dois anos cortando gastos e intensificando a ação fiscal até equilibrar os dois pratos da balança.
Tudo isso está documentado, lembrou Sinomil. E, no fórum apropriado, o fato poderá ser exposto em toda a sua inteireza. Os tucanos, é claro, não se conformam com isso. Não admitem que a gestão de Marconi foi ruinosa aos cofres públicos nos últimos dois anos. E se ofendem sobretudo pelo fato de Alcides ter revelado à sociedade toda a verdade sobre a gestão de seu antecessor.
O que os tucanos pretendem
A questão seria meramente técnica se a população fosse indiferente à execução orçamentária. Uma parte considerável do eleitorado goiano acredita que Marconi é o culpado por todas as dificuldades financeiras do Estado. É um julgamento duro, que compromete seus planos de voltar ao poder. Há uns três meses atrás, todas as pesquisas de intenção de voto apontavam um amplo favoritismo do senador tucano. Ele ganharia no primeiro turno se as eleições tivessem acontecido em dezembro, digamos. De lá para cá, porém, o quadro foi se invertendo. Iris passou à dianteira em algumas pesquisas. Em outras, está cabeça a cabeça. Marconi começou cair e Iris a subir. É o pior cenário possível. Foi assim que Marconi derrotou Iris em 98: enquanto ele subia, Iris caía.
Marconi, porém, não édesses que se deixa abater pela adversidade. Ele não perde a pose. Em vez de lamentar a má sorte, ele parte para o ataque. A primeira coisa é curar o estígma de mau gestor, de causador de desequilíbrios orçamentários. Daí a convocação da CPI do défict, que virou CPI do endividamento. O senador controla uma poderosa bancada na Assembléia Legislativa. Além dos tucanos, que formam maioria relativa, a bancada marconista conta ainda com deputados de partidos satélites. Tudo somado, têm força suficiente para instalar CPI sobre qualquer assunto, e controlar a tramitação delas. São CPIs de cartas marcadas e com resultados previamente definidos.
A conversão da CPI da déficit em CPI do endividamento foi mero expediente tático. É claro que esta CPI vai focar suas lentes no déficit. O relator, que ainda não foi escolhido - mas que será alguém aprovado por Marconi - deverá concluir que o tal déficit nunca existiu. Aliás, o relatório final concluirá também que todas as dificuldades financeiras do Estado foram causadas pelos governos do PMDB, há quase doze anos atrás. Por isso a CPI fixou em 1991 o início do período a ser investigado. Ou seja, esta CPI ficará o ano todo investigando os governos Iris e Maguito. Em tese, deverá investigar, também, o período de Marconi. Mas, claro, isto ficará para o dia do juízo final, preferencialmente após as eleições de outubro.
A parcialidade desta CPI é tão flagrante que o deputado Nilo Resende, do DEM, em entrevista ao Jornal da Imprensa, admitiu francamente que o propósito desta CPI é, sim, eleitoreiro. Nilo acha que isso é normal, que deve ser assim mesmo. Ao contrário dos demais marconistas, Nilo não empulha o público com palavreado nobre disfarçando intenções vis. Não é a "verdade", a "transparência" e o "bem da sociedade" que os marconistas buscam. É produzir na opinião pública a convicção de que Marconi é um pobre rapaz injustiçado por gente malagradecida e traidora, um moço competentíssimo que está sendo difamado por invejosos.
No seu contra-ataque para reverter a pecha de gestor temerário e irresponsável, além da manipulação da Assembléia para esculhambar o governo municipal, inventando para si o papel de vereador federal, Marconi produziu a mais cara festa de aniversário que alguém já viu. Uma festa diante da qual o aniversário de Iris Rezende não passou de petit comitè. Segundo dados fornecidos pela máquina publicitária do senador tucano, mais de 45 mil pessoas compareceram ao Atlanta Hall, o templo da música caipira-brega, para vê-lo apagar 47 velinhas.
Foi um festão. A imprensa da província não falou de outra coisa nos dias que antecederam ao pantagruélico regabofe. E no momento o evento ainda é assunto diário das colunas ditas sociais, que faz da exaltação às pompas mundanas uma religião de palermas. Bem, não se sabe se esse mundaréu de gente realmente foi prestigiar o Senador, mas é possível que um número bem maior tenha comparecido. Afinal, propalou-se aos quatro ventos, durante dias, que haveria muita bebida e muita comida de graça. O tipo de boca livre que atrai multidões.
Iris e o PT
Enquanto o marconismo se pavoneava nas colunas mundanas dos jornais, o irismo procurava exibir sua face gente-boa nas colunas de esporte. Iris disputou mais uma maratona, a dos Correios, chegando entre os últimos colocados, mas, claro, completando a prova. o atleta está em ótima forma e não se descuida do preparo físico, e vem cada vez mais melhorando as suas marcas, apesar de sua provecta idade, 76 anos. Além de mostrar seus dotes atléticos nas pistas de atletismo, o prefeito de Goiânia vem revelando invulgar disposição para a corrida eleitoral.
Iris é candidato a governador. Isso já está decidido há várias semanas. Aliás, este Jornal da Imprensa antecipou este fato há várias edições. Não especulou. Divulgou informações auridas em fontes fidedigníssimas. Ocorre que o prefeito comunicou o fato apenas ao seu Estado-Maior. O anúncio público deverá ocorrer no momento oportuno. Ou que Iris julgar oportuno. O prefeito conseguiu resolver um problemão que vinha atravancando o andamento dos seus projetos. O PT finalmente anunciou, formalmente, que vai apoiar a candidatura de Iris ao governo do Estado. Rubens Otoni e Pedro Wilson já deram declarações a respeito. O PT fecha com Iris. Ponto.
Ponto? Não. Ainda não cabe ponto final nisso. O PT apoia Iris para governador mas deixou bem claro que quer lugar na chapa majoritária. Pode ser a vice ou uma senatória. Mas tem que estar na chapa majoritária. Do contrário, o PT pode sair com candidatura própria ou compor com Alcides Rodrigues na Terceira Via. Para o PT, o fato de Paulo Garcia assumir a prefeitura de Goiânia, com a saída de Iris, não é favor nenhum. Paulo Garcia é o sucessor legal de Iris, direito subjetivo adquirido. Os peemedebistas bem que vieram com esta conversa fiada para cima do PT, mas não colou.
Agora, é claro que os petistas não pretendem usar a prefeitura para aventuras eleitorais. Iris não será apunhalado pelas costa. Mas terá fazer concessões ao PT goiano. Encaixar alguém do PT na chapa majoritária é condição sine qua non para a aliança PT/PMDB prosperar e pagar dividendos. Pesquisas qualitativas indicam que mais de 30% do eleitorado goiano votará em candidato apoiado por Lula, e quase 50% admitem votar em quem Lula recomendar. Iris vem sonhando a tempos com uma declaração de Lula apontando-o como seu favorito. Até agora, Lula não recomendou ninguém (recomendou Meirelles, mas o presidente do Bacem vacilou e perdeu o bonde da história).
Para assegurar a lealdade dos petistas que vão comandar a prefeitura de Goiânia, o enganjamento da ruidosa militância petista, e a unção de Lula, o prefeito terá que ceder ou a vice governadoria ou uma senatória para o PT. Caso isso aconteça, ponto. Não vai ser fácil, pois há dentro do PMDB resistências a esse tipo de ajuste. Os peemedebistas ainda são muito sectários e não conseguem tratar aliados de igual para igual, preferindo manter com eles uma relação de vassalagem. Correntes peemedebistas acham que o partido deve ficar com dois cargos majoritários, cedendo dois a possíveis aliados, o PR de Sandro Mabel, o PP de Alcides, ou o DEM de Demostenes. Para o PT, nada. Esses peemedebistas já deram três vitórias a Marconi nos últimos 12 anos. Pelo visto, querem dar outra.
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