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03/02/2012 - Por Mo Costandi/Opinião e Notícia
Traduzir a atividade cerebral em palavras é inteligente, mas está longe de representar a decodificação e reconstrução da consciência humana.
Você provavelmente já viu a manchete reproduzida em diversos jornais. O Estadão, a Folha e o Globo noticiaram que “Cientistas desenvolvem técnica para ler pensamentos”, o Daily Telegraph publicou uma reportagem intitulada “Dispositivo de leitura da mente pode se tornar realidade”, o Sydney Morning Herald saudou o “Avanço na tecnologia de leitura da mente”, o popular blog de tecnologia Gizmodo nos disse que “Cientistas agora podem realmente ler a sua mente”, e a New Scientist beirou o sensacionalismo com “Máquina de telepatia reconstrói fala a partir de ondas cerebrais”. As manchetes referem-se a um estudo publicado na última terça-feira na revista PLoS Biology, liderada por Brian Pasley da Universidade da Califórnia, Berkeley. Pasley e seus colegas tiveram a rara oportunidade de registrar a atividade do cérebro humano diretamente, em pacientes submetidos à avaliação médica antes de ter tumores cerebrais ou tecidos anormais removidos cirurgicamente.
Durante esta avaliação, os pesquisadores colocaram fileiras de eletrodos na superfície do cérebro dos pacientes, sobre uma região chamada de giro temporal posterior superior (pSTG, na sigla em inglês), que é conhecida por estar envolvida na compreensão da fala. Eles reproduziram para os pacientes palavras e frases gravadas, e registraram as reações das células no pSTG à gravação. Isto permitiu que eles identificassem as principais características das palavras às quais as células respondem, como o número de sílabas e as mudanças no volume do som no decorrer do áudio. Usando algoritmos especialmente desenvolvidos para o experimento, os pesquisadores foram capazes de recriar as reações celulares e, assim, “reproduzir” sons com precisão suficiente para reconhecer palavras individuais.
A maioria dos estudos que geram manchetes sobre “leitura da mente” envolvem a ressonância magnética funcional (fMRI), que grava respostas do cérebro a certos estímulos. Normalmente, os voluntários são expostos a um conjunto limitado de estímulos, tais como imagens, e seus cérebros são escaneados para registrar a atividade do córtex visual associada a cada estímulo. Em seguida, os voluntários são mostrados o mesmo conjunto de imagens novamente, e as respostas são comparadas aos padrões pré-determinados da atividade cerebral para prever qual estímulo eles estão vendo em um determinado momento.
Os recentes avanços nestas técnicas de ressonância permitem agora que os pesquisadores façam algo ainda mais notável – eles podem decodificar a atividade cerebral de forma precisa e reconstruir imagens novas que os voluntários nunca viram antes. E no ano passado, outra equipe de pesquisadores de Berkeley estendeu esta abordagem para reconstruir imagens originais a partir da atividade cerebral. Isto é possível porque o córtex visual primário contém grupos de neurônios que respondem de maneiras estereotipadas a características específicas de uma imagem, como o contraste de cores e o formato do contorno.
O mais recente estudo é singular porque a atividade neural que foi reconstruída foi registrada diretamente do cérebro através de eletrodos, e não por ressonância magnética. Mas os princípios subjacentes são basicamente os mesmos. Não devemos subestimar as realizações dos pesquisadores envolvidos. Todos os estudos mencionados aqui são extremamente desafiadores do ponto de vista técnico e são marcos importantes na forma como estas tecnologias estão sendo usadas. Alguns deles também nos dão informações úteis sobre como certas partes do cérebro funcionam.
Mas eles constituem leitura da mente? Minha resposta teria que ser “não”. Nossos pensamentos são um fluxo de consciência contínuo e extremamente rico, que contém múltiplas representações de imagens, sons, sentimentos, memórias e muito mais, e a atividade cerebral correspondente é infinitamente mais complexa do que aquela associada com palavras ou imagens. Apesar destes avanços notáveis, estamos longe de ser capazes de decodificar e reconstruir uma atividade tão complexa como a neural. Isso pode, de fato, nunca se tornar possível. Seus pensamentos permanecerão privados por um longo tempo ainda.
Fonte: The Guardian
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